Oswald Wirth e os Signos do Zodíaco

Oswald Wirth, simbolista notável, escreveu um ensaio intitulado Les signes du zodiaque, publicado em 1921. Nesse interessante manual astrológico, os signos são apresentados como uma espécie de “alfabeto universal”, porque traduzem tanto forças naturais quanto dimensões espirituais da experiência humana. Os doze signos são tratados como chaves simbólicas que dialogam com a mitologia, o hermetismo, o tarot e tradições espirituais antigas.

Wirth propõe uma ideia interessante quando argumenta que, mesmo que a astrologia não passe de uma ilusão ou de uma ciência ultrapassada, ainda assim o seu valor permanece. Por quê? Simples: porque ela é uma linguagem simbólica, porque “fala”, por imagens e símbolos, sobre a relação que une o ser humano ao cosmos e à natureza.

Não espere de Wirth que ele tente nos “convencer” de que “astrologia funciona”. Nada disso. O que ele coloca é muito mais profundo, ao dar boas razões para que se estude o simbolismo astrológico pela sabedoria que ele guarda.

Ao final do século XIX, a astrologia clássica era vista por muitos como uma tradição decadente, quase morta. Com poucos praticantes e decréscimo do interesse geral, a prática estava relegada ao esquecimento e mesmo sujeita à ridicularização. Contudo, Élie Star permanecia ativo, utilizando métodos pouco convencionais para fazer previsões. Sem dedicar-se aos cálculos e regras tradicionais, seu estilo era oracular, ou seja, mais próximo de um “vidente” do que de um astrólogo matemático.

No início do século XX, especialmente na década de 1920, a astrologia renasce, e é nesse contexto que Les signes du zodiaque aparece como proposta de resgate da antiga astrologia como tradição simbólica.

Para Wirth, astrologia não é apenas horóscopo, porque ela aponta padrões, estabelecendo conexões com mitologia, alquimia, hermetismo, filosofia esotérica e simbolismo maçônico — pensamento posteriormente desenvolvido por Wirth em Le symbolisme astrologique, obra publicada em 1937.

As analogias que faz entre planetas e tipos humanos são belíssimas e sugerem que tudo se conecta em um sistema de correspondências, na esteira da famosa lógica esotérica do “assim em cima como embaixo”.

Wirth valoriza muito a tradição vinda da Mesopotâmia, aquela região localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Para ele, muitos símbolos fundamentais do zodíaco nasceram ali, dentro de mitos que explicam a criação do mundo e o relacionamento entre deuses e humanos. A Epopeia de Gilgamesh é um dos textos mais antigos da humanidade, registrado em escrita cuneiforme, com traduções e publicações modernas só acessíveis no século XIX.

No pensamento de Wirth, o zodíaco é uma espécie de chave para decifrar mitos, lendas e símbolos espirituais, e ele o decifra apontando as características mais importantes de cada signo.

Áries representa o início do ano astrológico, marcado pelo equinócio da primavera. É o signo da iniciativa, da energia vital e do impulso criativo. Ligado ao elemento fogo, carrega agressividade e coragem, mas também pode pecar pela falta de persistência. É o despertar da vida.

Touro simboliza a terra fértil, o trabalho e a construção lenta. É a energia que prepara o solo para a colheita futura. Persistente e firme, representa o enraizamento e a conexão com o mundo material.

Associado ao ar, Gêmeos representa a ascensão intelectual e a troca de ideias. É o signo da criatividade mental, do movimento, da curiosidade e da comunicação. Simboliza o impulso do pensamento e da expressão.

Câncer é ligado à água e à sementeira. Representa nutrição, cuidado e vida interior. Sua energia é emocional e intuitiva, voltada para a proteção do que é querido e para a reflexão profunda.

Leão simboliza o auge do verão e o ponto máximo da vitalidade. Associado ao fogo e à autoconfiança, representa liderança, realização e poder criativo. É a energia que brilha e se afirma.

Virgem, ligada à terra e à fertilidade, é o signo do trabalho detalhado e da colheita. Representa análise, perfeccionismo e disciplina. É vista como a expressão da sabedoria prática.

Libra é o signo do equilíbrio e da justiça. Associado ao ar, representa diplomacia, cooperação e busca por harmonia. Está ligado aos equinócios, quando dia e noite se igualam, reforçando sua simbologia de equilíbrio.

Escorpião é água profunda, intensidade e renovação. Representa morte simbólica e renascimento, a capacidade de atravessar crises e se regenerar. É o signo da transformação inevitável.

Sagitário é fogo aventureiro, expansão e desejo de conhecimento. Representa a liberdade, a busca por significado e a colheita das experiências. É um signo de fim de outono, quando o mundo se prepara para o recolhimento.

Capricórnio é associado ao solstício de inverno, período de escuridão e reflexão. Simboliza reverência, piedade e religiosidade interior. O texto menciona que a tradição maçônica poderia se beneficiar de rituais mais conectados à natureza, celebrando simbolicamente a ressurreição de Hiram, alinhada ao renascimento da luz após o inverno.

Aquário é signo de ar e transformação espiritual. Wirth descreve como Saturno, ao entrar no Aquário, muda de papel: deixa de ser apenas limite e peso, e passa a atuar como distribuidor de sabedoria e vida. Ele faz analogia com Indra, da mitologia védica, como aquele que traz vitalidade.

Aquário é o mensageiro que derrama inspiração e fertiliza a terra árida com “águas sublimadas”.

Peixes representa a vida universal em movimento e a conexão invisível entre seres. O signo é descrito como dual, refletindo fraternidade, multiplicação de ideias e espiritualidade. É associado ao deus Éa, divindade das águas vivificantes.

O texto também liga Peixes aos pés, símbolo de dignidade humana e da jornada espiritual do ser humano no mundo.

O ensaio conclui reforçando que o zodíaco deve ser visto como um sistema interligado. Os signos se organizam em quatro elementos, cada qual com três manifestações, criando um esquema rico e complexo de forças.

O grande mérito de Oswald Wirth está em tratar a astrologia como algo além de previsões. Em sua visão, os signos do zodíaco são um conjunto de símbolos que atravessam civilizações, conectando mitos mesopotâmicos, alquimia, hermetismo, tarot e a própria experiência da natureza. Mesmo que você não acredite na astrologia como ciência, Wirth propõe algo difícil de negar: o zodíaco continua sendo uma das formas mais poderosas que a humanidade criou para interpretar ciclos, forças e transformações internas.