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O Confessionário

Foi em 2012. Viajei para uma pequena cidade do interior. Como sempre, fui armada com uma câmera. Hoje, explorando um velho HD externo cheio de pastas, entre as fotos rejeitadas que não descartei — difícil controlar a compulsão arquivística — encontro uma que me causou estranheza a princípio.

Era um confessionário.

Sim, eu estava fotografando a igrejinha e não resisti ao confessionário.

— Pense nisso! Alguém se ajoelha de um lado e conta seus pecados a um padre que se põe a escutar tudo do outro lado. E depois, ele julga você, de acordo com a gravidade dos pecados, e lhe aplica uma pena, digo, uma penitência.

Mas, apesar dessa parte que todos sabem, o que mais me impressionou foi a cor da cortina. Sim, rosa choque, rosa chicletes, rosa Barbie, rosa, enfim. Uma cor que destoava do sagrado.

Pensei. Repensei. Deveria ser roxo, a cor litúrgica da penitência e do advento, mas alguém colocou ali um rosa choque. É um detalhe estético que quebra toda a solenidade esperada e abre portas para mil narrativas.

Rosa? No século passado era uma cor "feminina". Mulheres? Uma cor para mulheres "pecadoras"? Quantas Madalenas ousadas não se ajoelharam ali? Pensei.

Depois puni-me por ter a cabeça tão cheia de bobagens. Por permitir que minha imaginação, como sempre hiperbólica, se projetasse sobre um detalhe tão simples.

Mas desde quando isso é simples? Desde quando é simples um sistema punitivo que conta com a voluntária colaboração dos culpados, dos arrependidos, dos crentes?

A pequena igreja estava vazia. Nada havia ali de ostensivo; apenas o sossego. E aquela cor, absolutamente perturbadora.

A 407

Há lugares mágicos. Eles não são criados por ninguém. Criam-se por si mesmos. Neles, coisas se agregam sozinhas e estabelecem entre si uma relação tão harmônica, tão equilibrada, que tudo sugere uma intenção, um motivo, um plano. Mas nada disso acontece. Não que se saiba. 

A 407 era assim, enquanto funcionou. Era um lugar mágico. Tão pequeno, e tão imenso. Tão simples, e tão cheio de complexidade. Eu amava a 407. Cada cantinho, cada livro, cada quadro, cada objeto. Tudo ali tinha uma história única. Tudo ali combinava com tudo. 

A 407 existia sozinha, por ela mesma. E digo mais: a 407 foi o nascedouro dos Mestres do Imaginário. Não tenho a menor dúvida de que eles habitavam aquele lugar. Quem conheceu, não se esquece. Gosto de imaginar que lugares mágicos continuam a existir. 

Bem, seria fácil dizer que existem em nossa memória. Mas não é disso que falo. Imagino uma existência que supera o memorável, e que se inscreva em algum lugar para onde se viaja em sonhos e delírios. A 407. Bem ou mal, olhando para esta imagem, estou lá. 
 

Imaginei


 Então imaginei uma cidade cujo nome é incerto. É habitada apenas por gente que dorme, enquanto dorme, porque nesta cidade só entram sonhadores.Nela cabem todos os sonhos. Nada é para sempre por lá, a não ser tal certeza. Nela, nenhuma tristeza dura muito. Já as alegrias, estas duram enquanto mantiverem alegres os seus sujeitos. Não há governantes nem governados. Tudo anda por si. Tudo é, enfim, sonho sonhado.


Pelas ruas da cidade eu vi


Pelas ruas da cidade, desdobram-se esses flagrantes de uma espiritualidade que se oferece como produto, no pavimento das calçadas, no meio do caminho de quem tem pressa. E no entanto, nesse ir e vir, a pauta sugere uma interrupção, passos cortados, uma pergunta sem resposta. Pode-se parar e consultar o além que aparece logo ali, e que promete respostas a perguntas das quais tudo depende, ou independe. Quem sabe? Pelas ruas da cidade o mito e a verdade se confundem na ficção que é, afinal, a raiz de toda a realidade. Pelas ruas da cidade, gente perdida que se desencontra, buscadores da verdade que podem encontrá-la numa resposta mágica, mítica, simbólica, cuja realeza se assenta num trono de gesso assentado sobre veludo preto que se ostenta, como pode, no chão da rua. Pelas ruas da cidade, a verdade se oferece à oferta e à procura, despudoradamente, pelas ruas da cidade, assim, nua, crua.

Coisas assim

Tem coisas assim... Como essa imagem que encontrei enfiada no vão de uma rampa, escondida. Então fotografei. Não a trouxe comigo. Fiquei apenas pensando o que leva alguém a perder coisas assim, tão estranhamente.

Faz tempo

Esta edição que encontrei à venda no Bric da Redenção, aqui em Porto Alegre, deve ser a primeira a ser lançada no Brasil. É de 1939. O livro foi um sucesso editorial à época. Todos falavam dele. Precursor do estilo auto-ajuda, não é de admirar que até hoje encontre seu público, entre aqueles que se mostram sedentos de fórmulas e de definições.

Feitiço do Sapo


Sapo, sapinho, sapo, sapão
Derruba inimigo no meu alçapão
Começa, termina
Costura, Segura
Fecha, espeta,
Conserta, arremata
Sonho, estrela,
Coelho, machado,
Cisne, galo
Mercúrio na mão!

Simpatia do Gato

Gato, gato, gatinho, gatão
Não faça senão e me dê atração
Feitiço de ouriço
Preste atenção
Que a missa e a promessa 
Te traz pela mão
O pires, o dente, o rato o bigode
Que prende e arrepende
Que explode em paixão

SUSPEITOS



Quem são eles? Serão assassinos?
Serão facínoras? Serão os monstros
Que atacaram Hiram?
São suspeitos, murmuram as paredes,
Suspeitos de ódio,
Suspeitos de inveja,
Suspeitos de fraude.
Violência! Vingança!
Hiram é morto. Quem o matou?
Não sabemos, mas foram Companheiros,
E tudo fizemos, com muito engenho,
Para os  encontrar.
Sabemos?  Não. Suspeitamos.
Sois Companheiros? Sois suspeitos,
Sois vós os ingratos, desnorteados ambiciosos,
A corda vos traz cativos das próprias consciências,
Amordaçados ao remorso.
Suspeitos — murmuram as águas.
Suspeitos — sussurram as paredes
Suspeitos — murmuram todos
Onde a régua que calou o Mestre
Pela garganta atingido ao Sul?
Onde o esquadro que lhe feriu o peito
Visando ao coração?
Onde o malho certeiro em seu crânio
Que o prostrou ao Ocidente?
De tão aviltante vilania pervertestes seus sagrados Instrumentos.
Com régua, Esquadro, e Malho,
Fostes construtores de um Templo à infâmia.
Insanos sois vós.
Sois todos vós.
\
Mas eis que surgem três.
E a sombra da suspeita, agora,
Se apõe sobre apenas três,
E nosso Soberano haverá de saber,
E não mais supeitar;
Haverá de os fazer atar, prender e castigar.
E serão nove,
E depois mais mais seis,
Serão três vezes três,
E mais duas vezes três,
Serão Nove,
E ao depois serão Quinze,
Eleitos dos Quinze
Que vão resgatar
Da suspeita
 Os Companheiros,
Nossos Irmãos
Nossos Obreiros
Que conosco
Se hão de vingar
Tirando de sobre si
O peso do Sangue
O peso da Morte
Do acaso
E do Destino.
Serão Eles,
Os Quinze,
Que hão de resgatar
Da Suspeita
Os Companheiros,
Do Templo,
O Altar.

YEHUDAH


Em hebraico transliterado YEHUDAH – progênie da divindade.  Os rituais franceses traduzem a palavra como ‘louvor’, mas nada há que o justifique, no entender de Aslan.  Todavia, não é assim.  Encontramos dicionários bíblicos que aceitam a tradução questionada.