L'Occultisme et L'Amour (O Ocultismo e o Amor), de 1902.

Ah, o amor. Sempre o amor. Quem nunca sentiu vontade de fazer uso das "forças ocultas" para sentir-se amado ou correspondido? 
Pois bem, não obstante o título sugira a autoria de praticantes, os autores, Dr. Émile Laurent e Paul Nagour, são cientistas. O Dr. Émile Laurent, por exemplo, era um médico clínico de prestígio que estudava a mente humana e o comportamento social (autor também de L'Amour Morbide), enquanto Paul Nagour atuava como pesquisador e publicista focado nas intersecções entre o comportamento humano e as crenças populares. Em O Ocultismo e o Amor, os autores analisam a magia sob uma ótica estritamente histórica, psicológica e antropológica.

Já de início, eles nos apresentam uma definição de ocultismo como sendo o "conhecimento dos princípios e dos meios pelos quais a Onisciência e a Onipotência do Espírito, com seu poder sobre a matéria, podem ser adquiridos pelo indivíduo ainda vivo na terra". Citam como fonte uma conhecida revista da época: a Occult Magazine.

Sobre o amor e a magia, essas práticas ancestrais recebem deles um tratamento digno de nota, porquanto dividem seu estudo em setores específicos que podem ser assim expostos:

  • A Magia Branca e os Encontros Secretos: Definida como inofensiva e baseada em truques, ilusões ou linguagens simbólicas. Os autores explicam que os apaixonados sempre usaram a magia branca de forma instintiva: o arranjo de um buquê de flores sobre a mesa ou a posição de um chapéu e de luvas serviam como códigos secretos para marcar encontros amorosos sem que os rivais percebessem.
  • A Ciência dos Perfumes e Cosméticos: Elemento crucial da Magia Branca, a manipulação de fragrâncias e maquiagens (fards) era entendida como uma ferramenta de magnetismo e sugestão psicológica. Longe de ser mera vaidade, o aroma certo agia de forma sorrateira no cérebro alheio, quebrando resistências e gerando um estado de encantamento e vulnerabilidade propício à conquista.
  • A Magia Negra (Goétia) e a Sedução Forçada: Aqui o tom fica sombrio. Eles explicam que a magia negra assume a "ciência do mal" e era muito usada para criar filtros e poções de amor para seduzir à força, além de tentar destruir rivais e causar doenças. O livro detalha que essas práticas corrompiam a cosmética ao ocultar substâncias altamente tóxicas — como a beladona e o meimendro — em pomadas e perfumes. O alvo, ao ser tocado ou atraído pelo aroma, sofria delírios e submissão química, o que os antigos rotulavam como um feitiço avassalador.
  • A Astrologia Afetiva: Mostra como os antigos magos ligavam o destino dos impérios e "os amores ínfimos dos escravos" aos astros, usando a combinação das influências planetárias como base para prever e guiar aventuras de amor e fortuna.
  • As Religiões Antigas e o Culto à Natureza: No Capítulo I (que ironicamente começa após a introdução ao ocultismo), os autores explicam que a atração entre os sexos é a "energia universal que rege o mundo". Eles viajam pela história descrevendo os rituais sagrados da Índia (como o culto ao lingham e à sakti), onde o ato carnal e a fertilidade eram integrados à própria religião.

Em suma, L'Occultisme et L'Amour nos revela que o misticismo, sob o bisturi analítico de Laurent e Nagour, funciona como um espelho das nossas maiores vulnerabilidades emocionais; uma tentativa humana e desesperada de domesticar o imponderável. Voltaremos a este livro, pois estou certa de que ele vai inspirar postagens. 

 

Referência: Laurent, É., & Nagour, P. (2021). L'occultisme et l'amour. Hachette Livre BNF. (Obra original publicada em 1902)