Leio de tudo. Dos clássicos e acadêmicos até almanaques populares e bulas de remédio. Excluindo revistas em quadrinhos, devoro qualquer tipo de literatura, mesmo aquela vista como dejeto cultural. Certamente já li e escrevi muita coisa, traduzi outras tantas, e meus arquivos estão cheios de traças que vieram das alturas do Himalaia. Este blog, então, vai ser o canal de saberes fragmentados, oficiais e oficiosos, que os Mestres do Imaginário oferecem a nossa indiscrição.
O Confessionário
Foi em 2012. Viajei para uma pequena cidade do interior. Como sempre, fui armada com uma câmera. Hoje, explorando um velho HD externo cheio de pastas, entre as fotos rejeitadas que não descartei — difícil controlar a compulsão arquivística — encontro uma que me causou estranheza a princípio.
Era um confessionário.
Sim, eu estava fotografando a igrejinha e não resisti ao confessionário.
— Pense nisso! Alguém se ajoelha de um lado e conta seus pecados a um padre que se põe a escutar tudo do outro lado. E depois, ele julga você, de acordo com a gravidade dos pecados, e lhe aplica uma pena, digo, uma penitência.
Mas, apesar dessa parte que todos sabem, o que mais me impressionou foi a cor da cortina. Sim, rosa choque, rosa chicletes, rosa Barbie, rosa, enfim. Uma cor que destoava do sagrado.
Pensei. Repensei. Deveria ser roxo, a cor litúrgica da penitência e do advento, mas alguém colocou ali um rosa choque. É um detalhe estético que quebra toda a solenidade esperada e abre portas para mil narrativas.
Rosa? No século passado era uma cor "feminina". Mulheres? Uma cor para mulheres "pecadoras"? Quantas Madalenas ousadas não se ajoelharam ali? Pensei.
Depois puni-me por ter a cabeça tão cheia de bobagens. Por permitir que minha imaginação, como sempre hiperbólica, se projetasse sobre um detalhe tão simples.
Mas desde quando isso é simples? Desde quando é simples um sistema punitivo que conta com a voluntária colaboração dos culpados, dos arrependidos, dos crentes?
A pequena igreja estava vazia. Nada havia ali de ostensivo; apenas o sossego. E aquela cor, absolutamente perturbadora.
Era uma vez...
Alegoria
À primeira vista, a cena poderia representar um demônio específico, uma entidade saída das páginas do Dicionário Infernal. No entanto, à medida que o olhar percorre a composição, torna-se evidente que os verdadeiros demônios aqui não têm nome. São o tempo, a memória, a decadência física e a consciência da finitude.
A figura da velha domina a cena. Seu corpo deformado parece ter sido moldado pela própria duração. As gavetas abertas em suas vestes evocam um dos símbolos mais conhecidos do universo daliniano: os compartimentos ocultos da memória, do inconsciente e dos segredos da personalidade. Nela, o tempo já não é uma medida objetiva; tornou-se matéria viva, substância orgânica que corrói, transforma e reorganiza a existência.
Sobrevoando a cena, o morcego de olhos-relógio é uma invenção particularmente feliz. Como criatura da noite, sugere a aproximação inevitável do crepúsculo da vida. Os relógios que lhe ocupam as órbitas indicam uma condição ainda mais inquietante: já não se vê o mundo, vê-se apenas a passagem do tempo.
Talvez o elemento mais perturbador seja a figura encapuzada cuja cabeça se encontra aprisionada por uma gaiola. Ela parece representar uma consciência encarcerada no próprio corpo ou na própria mente. Em muitas alegorias da velhice, o drama não consiste apenas na deterioração física, mas em assistir, lúcido, à lenta perda dos instrumentos pelos quais se habita o mundo.
Ao lado dela, o gato de cristal fragmentado constitui uma das imagens mais belas da composição. Tradicional símbolo de agilidade, independência e vitalidade, ele permanece inteiro apenas na aparência. Na realidade, é formado por estilhaços. A imagem traduz com rara delicadeza a fragilidade escondida sob a persistência da forma: aquilo que parece intacto já começou a se partir.
As formigas que percorrem o solo reforçam esse mesmo tema. Frequentes na iconografia surrealista, simbolizam a decomposição, a mortalidade e a corrupção inevitável da matéria. A orelha abandonada na areia sugere a perda gradual dos sentidos, outro motivo recorrente nas representações da velhice.
À esquerda, a prisão de pedra pode ser lida como o próprio corpo envelhecido: um cárcere do qual o sujeito procura escapar, mas cujas grades se tornam progressivamente mais intransponíveis.
E, no entanto, a imagem não transmite apenas horror. Há nela uma melancolia metafísica, uma tristeza contemplativa que ultrapassa o simples medo da morte. Diferentemente das gravuras do Dicionário Infernal, concebidas para catalogar monstros, demônios e superstições, esta releitura parece transformar o sobrenatural em reflexão existencial.
O tempo está por toda parte: nos relógios, nos corpos, nos gestos, nos símbolos. Mas já não pode ser medido. Apenas vivido.
Talvez seja essa a grande força da imagem. Ela começa como uma cena demonológica e termina como uma meditação visual sobre a condição humana.
Cronos e Kairós: dois ritmos de nossas vidas
Existe, todavia, outra experiência do tempo, bem mais rara e misteriosa. Os gregos — sempre eles, parece — chamavam esse tempo de Kairós.
Enquanto Cronos mede quantidades, Kairós pergunta: quando?
Porque não se trata das quantidades, mas do momento certo, do instante oportuno, da hora em que se cumpre o destino.
Kairós é o tempo de Deus.
É o tempo em que se cumprirão todas as promessas que amadurecem em silêncio, o tempo dos encontros decisivos e das transformações profundas.
Vivemos em Cronos, mas sonhamos em Kairós.
Confiar significa caminhar em Cronos sem conhecer o Kairós.
Confiar significa não confundir demora com abandono.
Cronos ensina-nos a contar os dias. Kairós ensina-nos a esperar.
Porque, entre a promessa e o seu cumprimento, habita a Esperança.
Alberto, o Grande
Nascido provavelmente em Lauingen, na Baviera, por volta de 1196, Alberto foi um dos homens mais eruditos de seu tempo. Estudou na Universidade de Pádua, ingressou na Ordem dos Dominicanos e construiu uma trajetória intelectual marcada pela filosofia, pela teologia e pelo estudo da natureza. Alberto foi o primeiro estudioso medieval a comentar a obra de Aristóteles, tornando acessíveis aos pensadores cristãos conhecimentos que haviam sido preservados e desenvolvidos por sábios do mundo islâmico, como Avicena e Averróis. Sua influência alcançou Tomás de Aquino, que foi seu discípulo e herdeiro de sua metodologia intelectual. Como professor em Colônia e Paris, Alberto ajudou a moldar a tradição escolástica, demonstrando que fé e razão não são adversárias, mas aliadas na busca pela compreensão da realidade. Muito antes do surgimento do método científico moderno, Alberto defendia a observação cuidadosa da natureza. Ao longo dos séculos, inúmeras histórias surgiram em torno de sua figura. Algumas o apresentavam como alquimista, capaz de descobrir segredos da matéria. Outras lhe atribuíam a criação de autômatos mecânicos ou a posse da lendária Pedra Filosofal. Embora muitas dessas narrativas pertençam mais ao campo da tradição popular do que da história documentada, elas revelam o enorme fascínio que sua personalidade exerceu sobre gerações posteriores.
Em 1260, foi nomeado bispo de Ratisbona. Mesmo ocupando um cargo de prestígio, recusava-se a cavalgar como sinal de simplicidade, percorrendo sua diocese a pé. Após renunciar ao episcopado, continuou pregando, ensinando e atuando como mediador em conflitos políticos e religiosos. Sua sabedoria era tão respeitada que frequentemente era chamado para auxiliar na resolução de disputas importantes. Quando faleceu, em 15 de novembro de 1280, no convento dominicano de Colônia, Alberto Magno deixou uma obra monumental composta por dezenas de volumes.
Sua influência alcançou escritores como Dante Alighieri, que o colocou entre os grandes sábios do Paraíso na Divina Comédia, e até mesmo a literatura moderna, sendo citado por Mary Shelley em Frankenstein.
Em 1931, foi canonizado pelo Papa Pio XI e proclamado Doutor da Igreja. Anos depois, recebeu oficialmente o título de Padroeiro dos Cientistas, reconhecimento merecido para alguém que dedicou sua vida a demonstrar que o estudo da criação pode ser também uma forma de contemplar o Criador.
Em uma sociedade frequentemente dividida entre ciência e espiritualidade, Alberto Magno continua oferecendo uma mensagem atual e necessária: a verdade não deve ser temida. Para ele, toda descoberta autêntica — seja em um laboratório, em uma biblioteca ou na oração — conduz ao mesmo horizonte: a compreensão mais profunda da realidade e do sentido da existência humana. Passados mais de setecentos de sua morte, seu exemplo permanece vivo como símbolo de curiosidade intelectual, humildade e amor pelo conhecimento.
O Abade que via Fantasmas no Avental
Imagine a Europa do século XIX. As ferrovias, a eletricidade ensaiavam seus primeiros passos. À sombra das sacristias, elaboravam-se teorias da conspiração. E o Abade Jean Guillaume Gyr não era um clérigo qualquer, rezando o terço e cuidando dos fiéis na diocese de Liège, na pacata Bélgica. Não. Gyr tinha certeza de que o mundo estava sendo governado por um complô. E ele, como uma espécie de sommelier da literatura conspiratória, passava noites em claro traduzindo calhamaços de autores alemães que sofriam do mesmo delírio. Textos germânicos densos, cheios de drama, eram por ele vertidos para o francês com a urgência de quem avisa que o meteoro está chegando. Para ele, a Revolução Francesa e todas as repúblicas que surgiam não passavam de um plano mestre arquitetado nas sombras para destruir o cristianismo, o Estado e, veja você, até a propriedade privada e a família. Para que você sinta o drama, segue, com texto atualizado, o prefácio de A Maçonaria em Si Mesma e em Suas Relações com as Outras Sociedades Secretas da Europa, Principalmente com o Carbonarismo Italiano.
Pretende-se, com ou sem razão, que todas as revoluções modernas têm sido preparadas, amadurecidas e dirigidas pelas sociedades secretas, e particularmente pela Maçonaria; afirma-se que esta última sociedade, essencialmente oposta ao cristianismo, tende ao estabelecimento de uma república democrática e social. Esta acusação é tão grave que não pode deixar de se fundamentar em provas numerosas e irrefragáveis.
No número dos escritores modernos que se constituíram em acusadores das lojas maçônicas, devemos colocar Hengstenberg e Eckert. O primeiro, um bispo protestante, atribui ao trabalho das lojas o declínio e até o desaparecimento da fé cristã entre os adeptos da Reforma. Para afastar o cataclismo social de que a Alemanha está ameaçada, em uma época mais ou menos distante, ele fez ouvir dolorosas queixas na Kirchenzeitung, e imputa à Maçonaria o ceticismo religioso que tem visto apoderar-se gradualmente de seus correligionários. Seus artigos, cheios de provas racionais e de numerosos fatos, têm produzido imensa sensação em toda a Alemanha.
Quanto a Eckert, protestante como Hengstenberg, é sabido que jurou consagrar seu talento e toda a sua vida à destruição da Maçonaria, a qual acusa de ser a autora de todas as revoluções religiosas, políticas e sociais. Até hoje tem cumprido o que prometeu: desde 1853, publicou quatro obras sobre esta grave questão.
A primeira, intitulada A Maçonaria em sua Verdadeira Significação, já é conhecida na Bélgica e na França pela tradução que dela publicamos. A rapidez com que uma edição de 2.000 exemplares se esgotou dispensa-nos de elogiá-la.
A segunda tem por título O Templo de Salomão; e é a teoria científica e a explicação de todos os hieróglifos e emblemas maçônicos. Esta obra, que manifesta a ciência profunda e a imensa erudição do autor, só é acessível aos sábios de primeira ordem, que fizeram um estudo especial da metafísica e das ciências naturais.
A terceira é a obra-prima de Eckert. Intitula-se: Magazin der Beweisführung...; isto é: Coleção de Provas Destinadas a Fazer Condenar a Maçonaria como o princípio de todas as empresas criminosas, tentadas com o fim de destruir a religião, o Estado, a família e a propriedade, por meio da fraude, da traição e da violência. Consta de dois volumes em oitavo grande, de 700 a 800 páginas cada um. Talvez nunca a paciência e a tenacidade alemãs nas investigações científicas tenham se mostrado tanto quanto na composição desta obra. Assim, não temos receio de dizer que, depois da publicação desta importante obra, não é possível acrescentar novas considerações a respeito da Maçonaria.
Infelizmente, o autor colocou-se em um ponto de vista que mal poderíamos adotar: o da monarquia absoluta. Este é o motivo pelo qual não podemos condescender com o desejo de muitos dos nossos amigos que nos aconselhavam a tradução desta obra.
A publicação do Magazin elevou o furor das lojas ao seu paroxismo. No momento em que Eckert se achava em Berlim, para trabalhar na abolição da Maçonaria nos estados prussianos, a polícia o prendeu, sob o pretexto de uma conspiração urdida contra o rei e o príncipe regente. Esta prisão arbitrária, feita contra o direito das gentes e das nações, fez nascer da infatigável pena de Eckert um panfleto ardente que confundiu seus perseguidores.
A Maçonaria alemã, tão direta e francamente atacada, teve seus campeões. Para darmos o nosso parecer com pleno conhecimento de causa sobre todas as peças deste importante processo, procuramos obter todas as publicações em favor da Ordem.
Munidos destes documentos e possuindo, além disso, numerosas obras sobre a Maçonaria, julgamos poder publicar uma compilação, fruto das nossas leituras.
Ser-nos-ia fácil publicar muitos volumes sobre este importante assunto. Porém, julgamos preferível apresentar, em um quadro mais restrito, a substância de tudo o que se tem dito e se pode dizer a respeito da Maçonaria. À exceção de alguns sábios de primeira ordem, onde existem hoje leitores que tenham gosto e paciência para meditar sobre obras muito extensas?
No nosso século, o espírito humano, como que levado sobre as asas do vapor e da eletricidade, não se sujeita a lentos e laboriosos estudos; também quer devorar o tempo e o espaço.
A obra que apresentamos ao público encara a Maçonaria sob um ponto de vista geral; por isso tivemos todo o cuidado de afastar qualquer ataque pessoal que pudesse irritar o leitor em lugar de esclarecê-lo.
De muito boa vontade aceitaremos qualquer polêmica que aprouver aos escritores das lojas suscitar, com a condição, porém, de que essa polêmica seja geral, séria e digna. Mais do que isso, julgar-nos-íamos felizes em podermos confessar que nos enganamos na apreciação da Maçonaria.
O Abade Gyr."
Referência: GYR, Jean Guillaume (Abade). A Maçonaria em Si Mesma e em Suas Relações com as Outras Sociedades Secretas da Europa, Principalmente com o Carbonarismo Italiano. Traduzida e publicada em portuguez por Francisco Pereira d’Azevedo. Porto: Na Typographia de Manoel José Pereira, 1860.
Em tempo: O Abade Gyr, como vimos, era um clérigo católico belga; Eckert, um jurista e intelectual protestante alemão. Em uma época na qual as diferenças confessionais entre católicos e protestantes na Europa ainda geravam grandes tensões, os dois encontraram um terreno ecumênico perfeito na obsessão antimaçônica. Para o Abade, não importava que Eckert fosse protestante; o que importava era que o alemão tinha dedicado sua vida inteira e seu talento jurídico para tentar "destruir" a Maçonaria. Gyr via Eckert como uma autoridade científica e um poço de erudição profunda no assunto. Eles eram como dois detetives que concordavam totalmente sobre a identidade e os crimes do "vilão", mas que brigavam feio na hora de decidir o que fazer com a cidade depois que o vilão fosse preso. Um queria devolver o poder total ao Rei; o outro achava que isso já era ir longe demais.
Histórias como a de Jean Guillaume Gyr nos mostram que a imaginação humana tende a criar vilões universais. Uma tendência antiga, persistente e, acima de tudo, fascinante. A seu modo, o abade foi também um Mestre do Imaginário.




