O Abade que via Fantasmas no Avental

Imagine a Europa do século XIX. As ferrovias, a eletricidade ensaiavam seus primeiros passos. À sombra das sacristias, elaboravam-se teorias da conspiração. E o Abade Jean Guillaume Gyr não era um clérigo qualquer, rezando o terço e cuidando dos fiéis na diocese de Liège, na pacata Bélgica. Não. Gyr tinha certeza de que o mundo estava sendo governado por um complô. E ele, como uma espécie de sommelier da literatura conspiratória, passava noites em claro traduzindo calhamaços de autores alemães que sofriam do mesmo delírio. Textos germânicos densos, cheios de drama, eram por ele vertidos para o francês com a urgência de quem avisa que o meteoro está chegando. Para ele, a Revolução Francesa e todas as repúblicas que surgiam não passavam de um plano mestre arquitetado nas sombras para destruir o cristianismo, o Estado e, veja você, até a propriedade privada e a família. Para que você sinta o drama, segue, com texto atualizado, o prefácio de A Maçonaria em Si Mesma e em Suas Relações com as Outras Sociedades Secretas da Europa, Principalmente com o Carbonarismo Italiano.

Pretende-se, com ou sem razão, que todas as revoluções modernas têm sido preparadas, amadurecidas e dirigidas pelas sociedades secretas, e particularmente pela Maçonaria; afirma-se que esta última sociedade, essencialmente oposta ao cristianismo, tende ao estabelecimento de uma república democrática e social. Esta acusação é tão grave que não pode deixar de se fundamentar em provas numerosas e irrefragáveis.

No número dos escritores modernos que se constituíram em acusadores das lojas maçônicas, devemos colocar Hengstenberg e Eckert. O primeiro, um bispo protestante, atribui ao trabalho das lojas o declínio e até o desaparecimento da fé cristã entre os adeptos da Reforma. Para afastar o cataclismo social de que a Alemanha está ameaçada, em uma época mais ou menos distante, ele fez ouvir dolorosas queixas na Kirchenzeitung, e imputa à Maçonaria o ceticismo religioso que tem visto apoderar-se gradualmente de seus correligionários. Seus artigos, cheios de provas racionais e de numerosos fatos, têm produzido imensa sensação em toda a Alemanha.

Quanto a Eckert, protestante como Hengstenberg, é sabido que jurou consagrar seu talento e toda a sua vida à destruição da Maçonaria, a qual acusa de ser a autora de todas as revoluções religiosas, políticas e sociais. Até hoje tem cumprido o que prometeu: desde 1853, publicou quatro obras sobre esta grave questão.

A primeira, intitulada A Maçonaria em sua Verdadeira Significação, já é conhecida na Bélgica e na França pela tradução que dela publicamos. A rapidez com que uma edição de 2.000 exemplares se esgotou dispensa-nos de elogiá-la.

 

A segunda tem por título O Templo de Salomão; e é a teoria científica e a explicação de todos os hieróglifos e emblemas maçônicos. Esta obra, que manifesta a ciência profunda e a imensa erudição do autor, só é acessível aos sábios de primeira ordem, que fizeram um estudo especial da metafísica e das ciências naturais.

A terceira é a obra-prima de Eckert. Intitula-se: Magazin der Beweisführung...; isto é: Coleção de Provas Destinadas a Fazer Condenar a Maçonaria como o princípio de todas as empresas criminosas, tentadas com o fim de destruir a religião, o Estado, a família e a propriedade, por meio da fraude, da traição e da violência. Consta de dois volumes em oitavo grande, de 700 a 800 páginas cada um. Talvez nunca a paciência e a tenacidade alemãs nas investigações científicas tenham se mostrado tanto quanto na composição desta obra. Assim, não temos receio de dizer que, depois da publicação desta importante obra, não é possível acrescentar novas considerações a respeito da Maçonaria.

Infelizmente, o autor colocou-se em um ponto de vista que mal poderíamos adotar: o da monarquia absoluta. Este é o motivo pelo qual não podemos condescender com o desejo de muitos dos nossos amigos que nos aconselhavam a tradução desta obra.

A publicação do Magazin elevou o furor das lojas ao seu paroxismo. No momento em que Eckert se achava em Berlim, para trabalhar na abolição da Maçonaria nos estados prussianos, a polícia o prendeu, sob o pretexto de uma conspiração urdida contra o rei e o príncipe regente. Esta prisão arbitrária, feita contra o direito das gentes e das nações, fez nascer da infatigável pena de Eckert um panfleto ardente que confundiu seus perseguidores.

A Maçonaria alemã, tão direta e francamente atacada, teve seus campeões. Para darmos o nosso parecer com pleno conhecimento de causa sobre todas as peças deste importante processo, procuramos obter todas as publicações em favor da Ordem.

Munidos destes documentos e possuindo, além disso, numerosas obras sobre a Maçonaria, julgamos poder publicar uma compilação, fruto das nossas leituras.

Ser-nos-ia fácil publicar muitos volumes sobre este importante assunto. Porém, julgamos preferível apresentar, em um quadro mais restrito, a substância de tudo o que se tem dito e se pode dizer a respeito da Maçonaria. À exceção de alguns sábios de primeira ordem, onde existem hoje leitores que tenham gosto e paciência para meditar sobre obras muito extensas?

No nosso século, o espírito humano, como que levado sobre as asas do vapor e da eletricidade, não se sujeita a lentos e laboriosos estudos; também quer devorar o tempo e o espaço.

A obra que apresentamos ao público encara a Maçonaria sob um ponto de vista geral; por isso tivemos todo o cuidado de afastar qualquer ataque pessoal que pudesse irritar o leitor em lugar de esclarecê-lo.

De muito boa vontade aceitaremos qualquer polêmica que aprouver aos escritores das lojas suscitar, com a condição, porém, de que essa polêmica seja geral, séria e digna. Mais do que isso, julgar-nos-íamos felizes em podermos confessar que nos enganamos na apreciação da Maçonaria.

O Abade Gyr."

Referência: GYR, Jean Guillaume (Abade). A Maçonaria em Si Mesma e em Suas Relações com as Outras Sociedades Secretas da Europa, Principalmente com o Carbonarismo Italiano. Traduzida e publicada em portuguez por Francisco Pereira d’Azevedo. Porto: Na Typographia de Manoel José Pereira, 1860.

Em tempo: O Abade Gyr, como vimos, era um clérigo católico belga; Eckert, um jurista e intelectual protestante alemão. Em uma época na qual as diferenças confessionais entre católicos e protestantes na Europa ainda geravam grandes tensões, os dois encontraram um terreno ecumênico perfeito na obsessão antimaçônica. Para o Abade, não importava que Eckert fosse protestante; o que importava era que o alemão tinha dedicado sua vida inteira e seu talento jurídico para tentar "destruir" a Maçonaria. Gyr via Eckert como uma autoridade científica e um poço de erudição profunda no assunto. Eles eram como dois detetives que concordavam totalmente sobre a identidade e os crimes do "vilão", mas que brigavam feio na hora de decidir o que fazer com a cidade depois que o vilão fosse preso. Um queria devolver o poder total ao Rei; o outro achava que isso já era ir longe demais.

Histórias como a de Jean Guillaume Gyr nos mostram que a imaginação humana tende a criar vilões universais. Uma tendência antiga, persistente e, acima de tudo, fascinante. A seu modo, o abade foi também um Mestre do Imaginário.