SANTO ANTÔNIO E SEUS MILAGRES

Se existe um Santo que tem tudo para figurar entre os maiores Mestres do Imaginário que já existira, este santo é Santo Antônio. Assim, creio que é bem pertinente lembrar dele por aqui, dando a conhecer sua vida, sua obra e também seus milagres, sempre a partir de fontes seguras.

Pois bem.

Santo Antônio não nasceu Antônio. Chamava-se Fernando Bulhões. Ele nasceu em Lisboa em 15 de agosto de 119. Nasceu nobre. Estudou na escola da catedral e teria sido Cônego caso não se impressionasse com os frades missionários a ponto de passar à Ordem Franciscana. Foi então que tomou o nome de Antônio, tornando-se frei Antônio. Estudioso, tornou-se pregador. Ensinou no Marrocos, na Itália e na França. Morreu em 13 de junho de 1231 e foi canonizado em 1232, menos de um ano após sua morte, como Santo Antônio de Lisboa, também chamado de Santo Antônio de Pádua.

Mais de cinquenta mil milagres lhe são atribuídos. É o santo taumaturgo. Milagres, sim. Ressurreições, curas, dom de falar a criança e de controlar animais; na doutrina, não menos combatente: a luta contra os hereges valeu-lhe o apelido de o “Martelo das Heresias”. Popularmente, já em tempos modernos, tornou-se presença central das devoções domésticas. Santo Antônio virou o santo que encontra coisas perdidas, virtude que deu origem à fama de casamenteiro.

O Brasil colonial cultuou Santo Antônio. Patrono de hospícios, igrejas e capelas, fez-se presente em Pernambuco e Minas Gerais. A devoção popular é amplamente documentada, revelando sua presença, íntima e cotidiana, na vida colonial.

Assimilado por cultos indígenas e afro‑brasileiros, é cultuado por senhores e capitães‑do‑mato como protetor contra fugas de escravos, o que demonstra a plasticidade e a ambivalência das devoções. Não lhe faltou sequer uma dimensão militar. Santo Antônio era “alistado” em regimentos, recebia patentes e até soldo em várias capitanias. Ele foi, aliás, invocado como protetor em batalhas e fortalezas.

Esse traço militar é bem relevante no contexto dos conflitos luso‑holandeses (1624–1654), quando Santo Antônio foi invocado contra os holandeses calvinistas e simbolicamente mobilizado como defensor da pátria e da fé. É aí que encontramos o Padre Antônio Vieira (1608–1697), o jesuíta que realiza uma verdadeira politização restauradora do culto a Santo Antônio.

De registrar aqui os magníficos sermões dedicados a Santo Antônio — nove no total, cinco no Brasil. Todavia, o sermão de 13 de junho de 1638, dia de Santo Antônio, feito por Vieira na igreja de Santo Antônio em Salvador, foi decisivo. Vieira compara o cerco de Jerusalém (Livro Quarto dos Reis) com o cerco de Salvador e apresenta Santo Antônio como agente divino da vitória baiana contra os holandeses. O sermão funcionou como discurso mobilizador de forças políticas e militares. O imaginário messiânico do sebastianismo foi deslocado para Santo Antônio. Com o que se ofereceu ao público uma figura religiosa já popular, capaz de unificar projetos políticos tais como a reconquista de Pernambuco.

Mas não é só.

Santo Antônio é um dos santos mais venerados da tradição cristã, sendo conhecido por sua profunda fé, extraordinária capacidade de pregação e pelos numerosos milagres atribuídos à sua intercessão. Entre os principais relatos de sua vida destacam-se:

Os pássaros e a plantação – Ainda menino, Santo Antônio reuniu os pássaros que destruíam uma plantação, prendendo-os temporariamente para que não prejudicassem a colheita, libertando-os depois de terminar suas orações.

O jumento diante da Eucaristia – Um jumento faminto ignorou o alimento e ajoelhou-se diante da Hóstia Consagrada, confirmando a presença real de Cristo na Eucaristia.

O livro roubado – Após a oração do Santo, um noviço arrependido devolveu os manuscritos que havia furtado do convento.

O sermão aos peixes – Diante da recusa dos habitantes de ouvirem sua pregação, Santo Antônio dirigiu-se ao mar, onde inúmeros peixes emergiram para ouvi-lo.

O prato envenenado – Protegido pela graça de Deus, fez o sinal da cruz sobre um alimento envenenado e o consumiu sem sofrer qualquer mal.

O milagre da bilocação – Foi visto simultaneamente pregando na catedral e cantando a Aleluia no convento franciscano.

Controle sobre o tempo – Durante uma tempestade, garantiu que a chuva não atingiria o local da pregação. Ao final, verificou-se que apenas a área onde os fiéis estavam permaneceu seca.

A cura de um homem com transtornos mentais – Entregou seu cordão a um homem que interrompia sua pregação, e este recuperou imediatamente a sanidade.

O menino salvo da água fervente – Uma criança encontrada dentro de um caldeirão de água fervente permaneceu ilesa após a mãe invocar a intercessão do Santo.

A criada protegida da chuva – Mesmo caminhando sob forte chuva, uma criada retornou ao convento completamente seca.

A ressurreição de um homem – Pela oração de Santo Antônio, um homem morto voltou à vida.

Salvou um trabalhador esmagado – Um homem gravemente ferido por uma pedra recuperou-se milagrosamente após a invocação de São Francisco, a pedido de Santo Antônio.

A cura de um menino paralítico – Um menino paralítico foi curado quando o Santo fez sobre ele o sinal da cruz.

A aparição do Menino Jesus – Um nobre testemunhou Santo Antônio segurando o Menino Jesus nos braços durante uma oração.

A reconstituição de um pé amputado – Um jovem que amputara o próprio pé, arrependido de ter agredido a mãe, teve o membro restaurado pelo Santo.

O morto testemunha a inocência do pai do Santo – Um homem falecido falou milagrosamente para inocentar Martinho de Bulhões, pai de Santo Antônio, de uma falsa acusação.

O crescimento dos cabelos de uma mulher – Após ser violentamente agredida pelo marido, uma mulher recuperou milagrosamente os cabelos arrancados.

O copo intacto e a videira estéril – Um copo lançado ao chão permaneceu intacto e uma videira sem frutos passou a produzir uvas, convencendo um incrédulo da ação divina.

O anel reencontrado – Um anel perdido pelo bispo de Córdoba reapareceu milagrosamente após invocação ao Santo.

Os documentos recuperados – Papéis importantes perdidos por um bispo foram devolvidos de forma inesperada após oração a Santo Antônio.

O casamento da jovem – Uma jovem que, em desespero, lançou pela janela uma imagem de Santo Antônio acabou conhecendo e se casando com o homem atingido pela imagem.

Esses relatos, transmitidos ao longo da tradição cristã, expressam a devoção popular a Santo Antônio e testemunham a fé dos fiéis em sua poderosa intercessão junto a Deus. Mais do que acontecimentos extraordinários, os milagres simbolizam a confiança na providência divina, a caridade, a conversão e o cuidado de Deus para com aqueles que recorrem a Ele com sincero coração.

Referências:

DANTAS, Renan. Santo Antônio: devoção, missão, milagres e tradições. Vatican News, 13 jun. 2024. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-06/dia-de-santo-antonio-renan-dantas-12-junho-2024.html. Acesso em: 4 jul. 2026.

VAINFAS, Ronaldo. “Santo Antônio na América Portuguesa: religiosidade e política.” Revista USP, São Paulo, n. 57, p. 28–37, março/maio 2003.