João de Camargo

Arriscando no jogo de dados que é cruzar palavras-chave no acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, a palavra da vez era faquir — termo que evoca o espetáculo, o exotismo e a curiosidade com que a imprensa urbana costumava olhar para certos personagens nas primeiras décadas do século XX. Bem, nunca sei o que procuro até encontrar. E, desta vez, a palavra me arrastou diretamente para as páginas do Diário Nacional, emblemático jornal que circulou em São Paulo entre 1927 e 1932. De Sorocaba vinha uma “cobertura especial” dedicada a devassar a estranha e fascinante personalidade do “santo” local: João de Camargo, conhecido por seus seguidores como Nhô João.

A reportagem carregava todo o ceticismo — e também todo o preconceito — de seu tempo. O líder religioso negro era observado como fenômeno exótico, curandeiro ou possível charlatão. Chegava-se ao absurdo de especular que pretendia erguer “altares a Sacco e Vanzetti”, os célebres anarquistas italianos executados nos Estados Unidos poucos anos antes. O enviado do jornal registrava até uma briga de casal no átrio do templo, como se estivesse diante de uma curiosidade social a ser decifrada.

Mas o grande trunfo daquela página não era o texto. Era a imagem. A fotografia que ilustrava a matéria — e que aqui ganha uma nova vida, resgatada e nitidificada através de IA — revela João de Camargo em atitude serena, indiferente às acusações de charlatanismo, aos repórteres da capital, à curiosidade dos visitantes e às tentativas de enquadrá-lo nas categorias disponíveis à imprensa de seu tempo.

Nascido em Sarapuí, em 1858, na condição de escravizado, João de Camargo teve contato com diferentes universos de fé. Sua mãe, Francisca, conhecida como Nhá Chica, transmitiu-lhe conhecimentos sobre ervas e rezas. Ao mesmo tempo, recebeu o catolicismo imposto pelos proprietários que lhe deram os sobrenomes Camargo e Barros. Dessa experiência múltipla nasceria uma religiosidade própria, profundamente marcada pelo encontro — e pelo choque — entre tradições africanas, catolicismo popular e, mais tarde, espiritismo.

Depois da abolição, João percorreu localidades do interior paulista até se estabelecer em Sorocaba, no final do século XIX, quando a cidade era castigada por epidemias, entre elas a febre amarela. Foi nesse ambiente que começou a ganhar notoriedade. Em suas andanças pela cidade, João costumava parar para rezar junto à chamada Cruz de Alfredinho, erguida em memória de um menino de 14 anos morto tragicamente em um acidente de cavalo. Segundo a tradição ligada à sua história, foi durante uma dessas paradas, num dia de chuva, à margem do Córrego da Água Vermelha, que teve uma visão do menino Alfredinho, de Nossa Senhora Aparecida e do padre João Soares, sacerdote católico que atuara durante a epidemia de febre amarela. A experiência teria revelado a ele sua missão religiosa. Começava então a história da Igreja Negra e Misteriosa da Água Vermelha, cuja construção teve início em 1907 e que posteriormente se tornaria a Capela do Senhor do Bonfim, também conhecida como Capela de João de Camargo.

Ali, Nhô João criou um território de fé para uma população negra e pobre que encontrava poucas portas abertas na Sorocaba que se pretendia moderna e progressista. A Capela recebia gente de diferentes origens e classes sociais, atraída pelas rezas, pelos tratamentos com ervas, pelas práticas espirituais e pela fama dos milagres atribuídos ao seu líder.

Sua crescente popularidade, entretanto, incomodava. Em 1913, João chegou a ser preso sob acusação de curandeirismo. Para proteger sua obra e garantir a continuidade da Capela, aproximou-se também do espiritismo, uma estratégia que ajudaria a tornar suas práticas mais aceitáveis diante das autoridades e de setores da sociedade que viam com desconfiança as manifestações religiosas negras.

A atuação de Nhô João não se limitou à esfera espiritual. Ele ajudou a criar grupos musicais, como o Grupo Musical São Luís, em 1915, que participava das festas da Capela e de acontecimentos da cidade, abrindo possibilidades de trabalho para uma população negra excluída do mercado formal. Mesmo analfabeto, oferecia educação a crianças e adultos negros e pobres que encontravam dificuldades para acessar o sistema escolar.

É impossível, portanto, compreender João de Camargo apenas como o “santo” exótico descrito pela imprensa. Sua trajetória também é a história de um homem negro que, nascido escravizado, atravessou a abolição e construiu uma forma própria de autoridade, sociabilidade e resistência. A Capela era um templo, espaço de cura, escola, lugar de música, acolhimento e afirmação comunitária.

Não por acaso, João ganhou fama muito além de Sorocaba. Ele morreu em 28 de setembro de 1942. Seu corpo foi levado em procissão da Capela até o Cemitério da Saudade. No caminho, seus fiéis tentaram conduzi-lo até a Catedral de Nossa Senhora da Ponte, mas encontraram as portas fechadas. A cena sintetiza sua trajetória: o reconhecimento popular de um lado; a resistência das instituições religiosas e sociais do outro.

Décadas depois, sua memória continua viva na Capela que leva seu nome. Tombado pelo patrimônio histórico de Sorocaba desde 1995, o templo permanece como testemunho material de uma experiência religiosa singular e da presença negra na construção da cidade.

E é justamente por isso que essa fotografia de 1928 me parece tão poderosa.

Enquanto a imprensa urbana tentava transformar João de Camargo em atração, mistério ou ameaça, o homem retratado permanece sentado, imóvel e sereno.

Uma pérola tirada da poeira dos arquivos para os nossos olhos de hoje.

A Magia das Três Agulhas


O lugar é a cidade de Santos, SP. Estamos em outubro de 1922. Dentre as colinas que se erguem sobre o porto, o Morro da Nova Cintra era um mundo à parte. O nome se deve ao português José Luís de Matos que enxergou na paisagem a lembrança de Sintra, a vila portuguesa de serras e névoas. Nova Cintra abrigava chácaras que produziam bananas e laranjas. Havia também hortas, criações de porcos e ainda os alambiques que produziam o famoso “morrão”, cachaça que fazia a fama do morro. Só não havia mais o funicular, o “tramway da Nova Cintra” que, até 29 de abril, ligou a cidade baixa ao alto da colina, com carros que subiam e desciam, puxados pelo peso da água e pela força da gravidade, carregando moradores, cestas de verduras e o cheiro doce da pinga. O bondinho despencara no abismo. Certo é que, em outubro, ainda pairava no ar aquela memória trágica. Seja como for, este era o cenário da notícia publicada pela Gazeta do Povo, jornal santista no qual encontrei a história de uma jovem feiticeira.

Segundo a reportagem, a polícia já estava “de atalaia” contra uma suposta “seita do cangerê” — ritual de matriz afro-brasileira —, que teria mananciais nas colinas. No centro das acusações, uma jovem feiticeira. Uma moça dada a mistificações, adivinhações, que praticava ainda o “espiritismo charlatão”. Um ano antes, dizia-se, ela havia provocado o suicídio de uma pobre senhorita sua vizinha. A feiticeira teria divulgado os mais íntimos segredos da pobre moça. Imagina-se, pois, que, perdida a reputação, só lhe restava morrer. Imagina-se ainda por quais razões a jovem feiticeira comprometera a honra da suicida. Por maldade? Por inveja? Por vingança de uma promessa quebrada? A notícia nada nos fala acerca disso.

A prática que o jornal descreve com horror, e que atribui à jovem feiticeira de Nova Cintra, é outra. Trata-se da magia das três agulhas. O interessado que fosse consultar a bruxa deveria ingerir uma beberagem preparada pela jovem, pronunciando um juramento sobre três agulhas cruzadas. Terminada a consulta, o consulente deixava as três agulhas com a feiticeira, que aguardava, então, pela morte de um inocente — de preferência uma criança.

Uma vez morta uma criança nos arredores, a bruxa ia até a casa enlutada e, aproximando-se dos pais, pedia que a deixassem, por alguns instantes, a sós com o cadáver. Era então que acontecia a prática macabra. As agulhas, uma por uma, eram usadas pela bruxa, que as atravessava na carne fria do cadáver, dizendo: “Enquanto este defunto não falar, fulano será dono de fulana…” ou vice-versa, sem contar outras tolices. Era a fixação da vontade através da morte. O corpo inocente tornava-se o selo do feitiço. Enquanto o morto não falasse ― e mortos não falam ―, o desejo permaneceria atado, e o feitiço “validado”.

A Gazeta do Povo não tinha dúvidas: aquilo era caso de polícia. Atribuía tudo à “imbecilidade dos pobres de espírito” e cobrava das “autoridades” uma “batida” no morro, onde, segundo os “obcecados”, existia um lago cujas águas eram iluminadas por olhos de fogo semelhantes a pirilampos. Ali, à meia-noite, cantavam galos. Mas a polícia, segundo o jornal, permanecia indiferente a tudo. A jovem bruxa continuava exercendo sua “perigosa profissão”.

Hoje, mais de um século depois, o Morro da Nova Cintra ainda está lá. A Lagoa da Saudade brilha no alto, os alambiques viraram memória e o funicular desapareceu com os seus mortos. Restaram as colinas, a névoa e as histórias.

Entre elas, a de uma jovem feiticeira que, segundo um jornal de 1922, atravessava com três agulhas a carne fria de cadáveres inocentes para prender os desejos dos vivos. Charlatã? Bruxa? Mestra dos imaginários? Vítima de uma história contada por outros? Nunca saberemos. Há histórias que não sobrevivem para ser esclarecidas. Sobrevivem justamente porque ninguém conseguiu esclarecê-las. Por isso a jovem feiticeira de Nova Cintra continua bem ali, entre a memória e o esquecimento, esperando que alguém descubra a verdade. Ou talvez esperando que, qualquer dia desses, os mortos possam falar.

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GAZETA DO POVO. Nos domínios da feitiçaria: a bruxaria implantou-se na colina de Nova Cintra. Gazeta do Povo, Santos, ano V, n. 1463, 28 out. 1922, p. 1.