A Magia das Três Agulhas


O lugar é a cidade de Santos, SP. Estamos em outubro de 1922. Dentre as colinas que se erguem sobre o porto, o Morro da Nova Cintra era um mundo à parte. O nome se deve ao português José Luís de Matos que enxergou na paisagem a lembrança de Sintra, a vila portuguesa de serras e névoas. Nova Cintra abrigava chácaras que produziam bananas e laranjas. Havia também hortas, criações de porcos e ainda os alambiques que produziam o famoso “morrão”, cachaça que fazia a fama do morro. Só não havia mais o funicular, o “tramway da Nova Cintra” que, até 29 de abril, ligou a cidade baixa ao alto da colina, com carros que subiam e desciam, puxados pelo peso da água e pela força da gravidade, carregando moradores, cestas de verduras e o cheiro doce da pinga. O bondinho despencara no abismo. Certo é que, em outubro, ainda pairava no ar aquela memória trágica. Seja como for, este era o cenário da notícia publicada pela Gazeta do Povo, jornal santista no qual encontrei a história de uma jovem feiticeira.

Segundo a reportagem, a polícia já estava “de atalaia” contra uma suposta “seita do cangerê” — ritual de matriz afro-brasileira —, que teria mananciais nas colinas. No centro das acusações, uma jovem feiticeira. Uma moça dada a mistificações, adivinhações, que praticava ainda o “espiritismo charlatão”. Um ano antes, dizia-se, ela havia provocado o suicídio de uma pobre senhorita sua vizinha. A feiticeira teria divulgado os mais íntimos segredos da pobre moça. Imagina-se, pois, que, perdida a reputação, só lhe restava morrer. Imagina-se ainda por quais razões a jovem feiticeira comprometera a honra da suicida. Por maldade? Por inveja? Por vingança de uma promessa quebrada? A notícia nada nos fala acerca disso.

A prática que o jornal descreve com horror, e que atribui à jovem feiticeira de Nova Cintra, é outra. Trata-se da magia das três agulhas. O interessado que fosse consultar a bruxa deveria ingerir uma beberagem preparada pela jovem, pronunciando um juramento sobre três agulhas cruzadas. Terminada a consulta, o consulente deixava as três agulhas com a feiticeira, que aguardava, então, pela morte de um inocente — de preferência uma criança.

Uma vez morta uma criança nos arredores, a bruxa ia até a casa enlutada e, aproximando-se dos pais, pedia que a deixassem, por alguns instantes, a sós com o cadáver. Era então que acontecia a prática macabra. As agulhas, uma por uma, eram usadas pela bruxa, que as atravessava na carne fria do cadáver, dizendo: “Enquanto este defunto não falar, fulano será dono de fulana…” ou vice-versa, sem contar outras tolices. Era a fixação da vontade através da morte. O corpo inocente tornava-se o selo do feitiço. Enquanto o morto não falasse ― e mortos não falam ―, o desejo permaneceria atado, e o feitiço “validado”.

A Gazeta do Povo não tinha dúvidas: aquilo era caso de polícia. Atribuía tudo à “imbecilidade dos pobres de espírito” e cobrava das “autoridades” uma “batida” no morro, onde, segundo os “obcecados”, existia um lago cujas águas eram iluminadas por olhos de fogo semelhantes a pirilampos. Ali, à meia-noite, cantavam galos. Mas a polícia, segundo o jornal, permanecia indiferente a tudo. A jovem bruxa continuava exercendo sua “perigosa profissão”.

Hoje, mais de um século depois, o Morro da Nova Cintra ainda está lá. A Lagoa da Saudade brilha no alto, os alambiques viraram memória e o funicular desapareceu com os seus mortos. Restaram as colinas, a névoa e as histórias.

Entre elas, a de uma jovem feiticeira que, segundo um jornal de 1922, atravessava com três agulhas a carne fria de cadáveres inocentes para prender os desejos dos vivos. Charlatã? Bruxa? Mestra dos imaginários? Vítima de uma história contada por outros? Nunca saberemos. Há histórias que não sobrevivem para ser esclarecidas. Sobrevivem justamente porque ninguém conseguiu esclarecê-las. Por isso a jovem feiticeira de Nova Cintra continua bem ali, entre a memória e o esquecimento, esperando que alguém descubra a verdade. Ou talvez esperando que, qualquer dia desses, os mortos possam falar.

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GAZETA DO POVO. Nos domínios da feitiçaria: a bruxaria implantou-se na colina de Nova Cintra. Gazeta do Povo, Santos, ano V, n. 1463, 28 out. 1922, p. 1.