Poucas experiências humanas são tão devastadoras quanto o desamor. A assimetria dos afetos não correspondidos, o fim de um amor, o abandono ou a rejeição operam uma espécie de demolição silenciosa na alma do desamado. O imaginário coletivo e a literatura não me desmentem. Do isolamento melancólico que consome a Ofélia de Shakespeare às paixões dilacerantes e punitivas que povoam os mitos clássicos. Afinal, nem todo amor tem final feliz. E para aquele que já se sente morto pelo desdém do outro, o que lhe resta senão o inconformismo?
É justamente na fenda da vulnerabilidade de uma dor petrificada em mágoa que as promessas de poder se tornam perigosamente sedutoras. Quando o afeto não perde o rumo do encantamento sutil, a alma ferida sonha com a possibilidade da submissão forçada do outro. É o clássico pacto fáustico: a entrega de si pelo do controle do outro. Afinal, o que é o risco para quem não tem mais nada a perder?
Em L'Occultisme et L'Amour (1902), os cientistas Émile Laurent e Paul Nagour nos dizem algo sobre essa transição psicológica tão sombria. Após dissecarem a "Magia Branca" — o flerte inocente traduzido em códigos de flores e perfumes —, os autores nos conduzem ao território da Goétia, do grego goeteia, que evoca o clamor, o lamento ou a feitiçaria de tons fúnebres.
Para Laurent e Nagour, a Goétia assume a pretensão de ser a "ciência do mal". Afastando-se do território lúdico e inofensivo, ela submerge da escuridão da ignorância e do desespero, para daí construir um verdadeiro arsenal de guerra psicológica e física. O livro revela que os antigos feiticeiros goéticos não buscavam a harmonia, mas, sim, a excitação das paixões mais desregradas, suscitando divindades às quais não se agradava senão por crimes.
O ponto mais denso dessa análise reside no paralelo entre este tipo de misticismo e práticas francamente criminosas. Laurent e Nagour despem a Goétia de qualquer verniz puramente "sobrenatural" para revelar uma realidade muito mais tétrica e terrena. O "feitiço de amor avassalador" que os impiedosos compravam para dobrar a vontade de seus alvos era, na verdade, química pura e cruel.
O arsenal goético descrito na página 18 expõe uma "cozinha inqualificável" onde se manipulavam pomadas, maquiagens (fards) e perfumes misturados aos sucos de plantas altamente venenosas, como a beladona e o meimendro (belladones et jusquiames). Disfarçadas em objetos cotidianos insuspeitos — como luvas traiçoeiras, páginas de livros contaminadas ou lâmpadas de fumaça mortal —, essas substâncias eram entregues às vítimas. Ao entrar em contato com o veneno, provocava delírios, entorpecimento dos sentidos e demência temporária. Essa quebra química da resistência humana e a consequente submissão da vontade eram o que as superstições da época rotulavam como um "milagre de amor".
Ao mapear essas práticas, os autores retiram a Goétia do campo do folclore e a inserem diretamente na moldura da criminalidade e da patologia social. Revelam que, no fundo, a magia negra aplicada aos afetos nada mais era do que o egoísmo humano levado às suas últimas e mais violentas consequências: o desejo indomável de possuir o outro, mesmo que para isso fosse necessário envenenar sua mente e assassinar sua liberdade.
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