O Confessionário

Foi em 2012. Viajei para uma pequena cidade do interior. Como sempre, fui armada com uma câmera. Hoje, explorando um velho HD externo cheio de pastas, entre as fotos rejeitadas que não descartei — difícil controlar a compulsão arquivística — encontro uma que me causou estranheza a princípio.

Era um confessionário.

Sim, eu estava fotografando a igrejinha e não resisti ao confessionário.

— Pense nisso! Alguém se ajoelha de um lado e conta seus pecados a um padre que se põe a escutar tudo do outro lado. E depois, ele julga você, de acordo com a gravidade dos pecados, e lhe aplica uma pena, digo, uma penitência.

Mas, apesar dessa parte que todos sabem, o que mais me impressionou foi a cor da cortina. Sim, rosa choque, rosa chicletes, rosa Barbie, rosa, enfim. Uma cor que destoava do sagrado.

Pensei. Repensei. Deveria ser roxo, a cor litúrgica da penitência e do advento, mas alguém colocou ali um rosa choque. É um detalhe estético que quebra toda a solenidade esperada e abre portas para mil narrativas.

Rosa? No século passado era uma cor "feminina". Mulheres? Uma cor para mulheres "pecadoras"? Quantas Madalenas ousadas não se ajoelharam ali? Pensei.

Depois puni-me por ter a cabeça tão cheia de bobagens. Por permitir que minha imaginação, como sempre hiperbólica, se projetasse sobre um detalhe tão simples.

Mas desde quando isso é simples? Desde quando é simples um sistema punitivo que conta com a voluntária colaboração dos culpados, dos arrependidos, dos crentes?

A pequena igreja estava vazia. Nada havia ali de ostensivo; apenas o sossego. E aquela cor, absolutamente perturbadora.

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