SANTO ANTÔNIO E SEUS MILAGRES

Se existe um Santo que tem tudo para figurar entre os maiores Mestres do Imaginário que já existira, este santo é Santo Antônio. Assim, creio que é bem pertinente lembrar dele por aqui, dando a conhecer sua vida, sua obra e também seus milagres, sempre a partir de fontes seguras.

Pois bem.

Santo Antônio não nasceu Antônio. Chamava-se Fernando Bulhões. Ele nasceu em Lisboa em 15 de agosto de 119. Nasceu nobre. Estudou na escola da catedral e teria sido Cônego caso não se impressionasse com os frades missionários a ponto de passar à Ordem Franciscana. Foi então que tomou o nome de Antônio, tornando-se frei Antônio. Estudioso, tornou-se pregador. Ensinou no Marrocos, na Itália e na França. Morreu em 13 de junho de 1231 e foi canonizado em 1232, menos de um ano após sua morte, como Santo Antônio de Lisboa, também chamado de Santo Antônio de Pádua.

Mais de cinquenta mil milagres lhe são atribuídos. É o santo taumaturgo. Milagres, sim. Ressurreições, curas, dom de falar a criança e de controlar animais; na doutrina, não menos combatente: a luta contra os hereges valeu-lhe o apelido de o “Martelo das Heresias”. Popularmente, já em tempos modernos, tornou-se presença central das devoções domésticas. Santo Antônio virou o santo que encontra coisas perdidas, virtude que deu origem à fama de casamenteiro.

O Brasil colonial cultuou Santo Antônio. Patrono de hospícios, igrejas e capelas, fez-se presente em Pernambuco e Minas Gerais. A devoção popular é amplamente documentada, revelando sua presença, íntima e cotidiana, na vida colonial.

Assimilado por cultos indígenas e afro‑brasileiros, é cultuado por senhores e capitães‑do‑mato como protetor contra fugas de escravos, o que demonstra a plasticidade e a ambivalência das devoções. Não lhe faltou sequer uma dimensão militar. Santo Antônio era “alistado” em regimentos, recebia patentes e até soldo em várias capitanias. Ele foi, aliás, invocado como protetor em batalhas e fortalezas.

Esse traço militar é bem relevante no contexto dos conflitos luso‑holandeses (1624–1654), quando Santo Antônio foi invocado contra os holandeses calvinistas e simbolicamente mobilizado como defensor da pátria e da fé. É aí que encontramos o Padre Antônio Vieira (1608–1697), o jesuíta que realiza uma verdadeira politização restauradora do culto a Santo Antônio.

De registrar aqui os magníficos sermões dedicados a Santo Antônio — nove no total, cinco no Brasil. Todavia, o sermão de 13 de junho de 1638, dia de Santo Antônio, feito por Vieira na igreja de Santo Antônio em Salvador, foi decisivo. Vieira compara o cerco de Jerusalém (Livro Quarto dos Reis) com o cerco de Salvador e apresenta Santo Antônio como agente divino da vitória baiana contra os holandeses. O sermão funcionou como discurso mobilizador de forças políticas e militares. O imaginário messiânico do sebastianismo foi deslocado para Santo Antônio. Com o que se ofereceu ao público uma figura religiosa já popular, capaz de unificar projetos políticos tais como a reconquista de Pernambuco.

Mas não é só.

Santo Antônio é um dos santos mais venerados da tradição cristã, sendo conhecido por sua profunda fé, extraordinária capacidade de pregação e pelos numerosos milagres atribuídos à sua intercessão. Entre os principais relatos de sua vida destacam-se:

Os pássaros e a plantação – Ainda menino, Santo Antônio reuniu os pássaros que destruíam uma plantação, prendendo-os temporariamente para que não prejudicassem a colheita, libertando-os depois de terminar suas orações.

O jumento diante da Eucaristia – Um jumento faminto ignorou o alimento e ajoelhou-se diante da Hóstia Consagrada, confirmando a presença real de Cristo na Eucaristia.

O livro roubado – Após a oração do Santo, um noviço arrependido devolveu os manuscritos que havia furtado do convento.

O sermão aos peixes – Diante da recusa dos habitantes de ouvirem sua pregação, Santo Antônio dirigiu-se ao mar, onde inúmeros peixes emergiram para ouvi-lo.

O prato envenenado – Protegido pela graça de Deus, fez o sinal da cruz sobre um alimento envenenado e o consumiu sem sofrer qualquer mal.

O milagre da bilocação – Foi visto simultaneamente pregando na catedral e cantando a Aleluia no convento franciscano.

Controle sobre o tempo – Durante uma tempestade, garantiu que a chuva não atingiria o local da pregação. Ao final, verificou-se que apenas a área onde os fiéis estavam permaneceu seca.

A cura de um homem com transtornos mentais – Entregou seu cordão a um homem que interrompia sua pregação, e este recuperou imediatamente a sanidade.

O menino salvo da água fervente – Uma criança encontrada dentro de um caldeirão de água fervente permaneceu ilesa após a mãe invocar a intercessão do Santo.

A criada protegida da chuva – Mesmo caminhando sob forte chuva, uma criada retornou ao convento completamente seca.

A ressurreição de um homem – Pela oração de Santo Antônio, um homem morto voltou à vida.

Salvou um trabalhador esmagado – Um homem gravemente ferido por uma pedra recuperou-se milagrosamente após a invocação de São Francisco, a pedido de Santo Antônio.

A cura de um menino paralítico – Um menino paralítico foi curado quando o Santo fez sobre ele o sinal da cruz.

A aparição do Menino Jesus – Um nobre testemunhou Santo Antônio segurando o Menino Jesus nos braços durante uma oração.

A reconstituição de um pé amputado – Um jovem que amputara o próprio pé, arrependido de ter agredido a mãe, teve o membro restaurado pelo Santo.

O morto testemunha a inocência do pai do Santo – Um homem falecido falou milagrosamente para inocentar Martinho de Bulhões, pai de Santo Antônio, de uma falsa acusação.

O crescimento dos cabelos de uma mulher – Após ser violentamente agredida pelo marido, uma mulher recuperou milagrosamente os cabelos arrancados.

O copo intacto e a videira estéril – Um copo lançado ao chão permaneceu intacto e uma videira sem frutos passou a produzir uvas, convencendo um incrédulo da ação divina.

O anel reencontrado – Um anel perdido pelo bispo de Córdoba reapareceu milagrosamente após invocação ao Santo.

Os documentos recuperados – Papéis importantes perdidos por um bispo foram devolvidos de forma inesperada após oração a Santo Antônio.

O casamento da jovem – Uma jovem que, em desespero, lançou pela janela uma imagem de Santo Antônio acabou conhecendo e se casando com o homem atingido pela imagem.

Esses relatos, transmitidos ao longo da tradição cristã, expressam a devoção popular a Santo Antônio e testemunham a fé dos fiéis em sua poderosa intercessão junto a Deus. Mais do que acontecimentos extraordinários, os milagres simbolizam a confiança na providência divina, a caridade, a conversão e o cuidado de Deus para com aqueles que recorrem a Ele com sincero coração.

Referências:

DANTAS, Renan. Santo Antônio: devoção, missão, milagres e tradições. Vatican News, 13 jun. 2024. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-06/dia-de-santo-antonio-renan-dantas-12-junho-2024.html. Acesso em: 4 jul. 2026.

VAINFAS, Ronaldo. “Santo Antônio na América Portuguesa: religiosidade e política.” Revista USP, São Paulo, n. 57, p. 28–37, março/maio 2003.

O Confessionário

Foi em 2012. Viajei para uma pequena cidade do interior. Como sempre, fui armada com uma câmera. Hoje, explorando um velho HD externo cheio de pastas, entre as fotos rejeitadas que não descartei — difícil controlar a compulsão arquivística — encontro uma que me causou estranheza a princípio.

Era um confessionário.

Sim, eu estava fotografando a igrejinha e não resisti ao confessionário.

— Pense nisso! Alguém se ajoelha de um lado e conta seus pecados a um padre que se põe a escutar tudo do outro lado. E depois, ele julga você, de acordo com a gravidade dos pecados, e lhe aplica uma pena, digo, uma penitência.

Mas, apesar dessa parte que todos sabem, o que mais me impressionou foi a cor da cortina. Sim, rosa choque, rosa chicletes, rosa Barbie, rosa, enfim. Uma cor que destoava do sagrado.

Pensei. Repensei. Deveria ser roxo, a cor litúrgica da penitência e do advento, mas alguém colocou ali um rosa choque. É um detalhe estético que quebra toda a solenidade esperada e abre portas para mil narrativas.

Rosa? No século passado era uma cor "feminina". Mulheres? Uma cor para mulheres "pecadoras"? Quantas Madalenas ousadas não se ajoelharam ali? Pensei.

Depois puni-me por ter a cabeça tão cheia de bobagens. Por permitir que minha imaginação, como sempre hiperbólica, se projetasse sobre um detalhe tão simples.

Mas desde quando isso é simples? Desde quando é simples um sistema punitivo que conta com a voluntária colaboração dos culpados, dos arrependidos, dos crentes?

A pequena igreja estava vazia. Nada havia ali de ostensivo; apenas o sossego. E aquela cor, absolutamente perturbadora.

Era uma vez...

Era uma vez três tartarugas. Segundo consta, nasceram no Parque da Redenção. Numa certa tarde ensolarada, encontraram um trono à altura. Elas escalaram o velho e sábio tronco que vivia imerso na lagoa. Queriam tomar sol. Ocuparam o lugar sem pedir licença, porque o tempo reconhece o tempo. Com a paciência de quem não tem pressa, subiram ao palco. Ali conversavam silenciosamente, observando os humanos apressados, ignorantes do milagre. Mas eu percebi o que verdadeiramente tinha lugar ali. E capturei o instante no qual se esconde toda a magia que habita o cotidiano.

 

Alegoria

À primeira vista, a cena poderia representar um demônio específico, uma entidade saída das páginas do Dicionário Infernal. No entanto, à medida que o olhar percorre a composição, torna-se evidente que os verdadeiros demônios aqui não têm nome. São o tempo, a memória, a decadência física e a consciência da finitude.

A figura da velha domina a cena. Seu corpo deformado parece ter sido moldado pela própria duração. As gavetas abertas em suas vestes evocam um dos símbolos mais conhecidos do universo daliniano: os compartimentos ocultos da memória, do inconsciente e dos segredos da personalidade. Nela, o tempo já não é uma medida objetiva; tornou-se matéria viva, substância orgânica que corrói, transforma e reorganiza a existência.

Sobrevoando a cena, o morcego de olhos-relógio é uma invenção particularmente feliz. Como criatura da noite, sugere a aproximação inevitável do crepúsculo da vida. Os relógios que lhe ocupam as órbitas indicam uma condição ainda mais inquietante: já não se vê o mundo, vê-se apenas a passagem do tempo.

Talvez o elemento mais perturbador seja a figura encapuzada cuja cabeça se encontra aprisionada por uma gaiola. Ela parece representar uma consciência encarcerada no próprio corpo ou na própria mente. Em muitas alegorias da velhice, o drama não consiste apenas na deterioração física, mas em assistir, lúcido, à lenta perda dos instrumentos pelos quais se habita o mundo.

Ao lado dela, o gato de cristal fragmentado constitui uma das imagens mais belas da composição. Tradicional símbolo de agilidade, independência e vitalidade, ele permanece inteiro apenas na aparência. Na realidade, é formado por estilhaços. A imagem traduz com rara delicadeza a fragilidade escondida sob a persistência da forma: aquilo que parece intacto já começou a se partir.

As formigas que percorrem o solo reforçam esse mesmo tema. Frequentes na iconografia surrealista, simbolizam a decomposição, a mortalidade e a corrupção inevitável da matéria. A orelha abandonada na areia sugere a perda gradual dos sentidos, outro motivo recorrente nas representações da velhice.

À esquerda, a prisão de pedra pode ser lida como o próprio corpo envelhecido: um cárcere do qual o sujeito procura escapar, mas cujas grades se tornam progressivamente mais intransponíveis.

E, no entanto, a imagem não transmite apenas horror. Há nela uma melancolia metafísica, uma tristeza contemplativa que ultrapassa o simples medo da morte. Diferentemente das gravuras do Dicionário Infernal, concebidas para catalogar monstros, demônios e superstições, esta releitura parece transformar o sobrenatural em reflexão existencial.

O tempo está por toda parte: nos relógios, nos corpos, nos gestos, nos símbolos. Mas já não pode ser medido. Apenas vivido.

Talvez seja essa a grande força da imagem. Ela começa como uma cena demonológica e termina como uma meditação visual sobre a condição humana.

 

Cronos e Kairós: dois ritmos de nossas vidas

Vive-se sob o império de Cronos. O tempo dos relógios, calendários e agendas. O tempo dos prazos. Contado, medido e dividido, o tempo das horas trabalhadas é o mesmo das celebrações, o mesmo que mede os dias de férias ou da aposentadoria. Sucessivo e linear, ele passa.

Existe, todavia, outra experiência do tempo, bem mais rara e misteriosa. Os gregos — sempre eles, parece — chamavam esse tempo de Kairós.

Enquanto Cronos mede quantidades, Kairós pergunta: quando?

Porque não se trata das quantidades, mas do momento certo, do instante oportuno, da hora em que se cumpre o destino.

Kairós é o tempo de Deus.

É o tempo em que se cumprirão todas as promessas que amadurecem em silêncio, o tempo dos encontros decisivos e das transformações profundas.

Vivemos em Cronos, mas sonhamos em Kairós.

Confiar significa caminhar em Cronos sem conhecer o Kairós.

Confiar significa não confundir demora com abandono.

Cronos ensina-nos a contar os dias. Kairós ensina-nos a esperar.

Porque, entre a promessa e o seu cumprimento, habita a Esperança. 

Alberto, o Grande

Nascido provavelmente em Lauingen, na Baviera, por volta de 1196, Alberto foi um dos homens mais eruditos de seu tempo. Estudou na Universidade de Pádua, ingressou na Ordem dos Dominicanos e construiu uma trajetória intelectual marcada pela filosofia, pela teologia e pelo estudo da natureza. Alberto foi o primeiro estudioso medieval a comentar a obra de Aristóteles, tornando acessíveis aos pensadores cristãos conhecimentos que haviam sido preservados e desenvolvidos por sábios do mundo islâmico, como Avicena e Averróis. Sua influência alcançou Tomás de Aquino, que foi seu discípulo e herdeiro de sua metodologia intelectual. Como professor em Colônia e Paris, Alberto ajudou a moldar a tradição escolástica, demonstrando que fé e razão não são adversárias, mas aliadas na busca pela compreensão da realidade. Muito antes do surgimento do método científico moderno, Alberto defendia a observação cuidadosa da natureza. Ao longo dos séculos, inúmeras histórias surgiram em torno de sua figura. Algumas o apresentavam como alquimista, capaz de descobrir segredos da matéria. Outras lhe atribuíam a criação de autômatos mecânicos ou a posse da lendária Pedra Filosofal. Embora muitas dessas narrativas pertençam mais ao campo da tradição popular do que da história documentada, elas revelam o enorme fascínio que sua personalidade exerceu sobre gerações posteriores.

Em 1260, foi nomeado bispo de Ratisbona. Mesmo ocupando um cargo de prestígio, recusava-se a cavalgar como sinal de simplicidade, percorrendo sua diocese a pé. Após renunciar ao episcopado, continuou pregando, ensinando e atuando como mediador em conflitos políticos e religiosos. Sua sabedoria era tão respeitada que frequentemente era chamado para auxiliar na resolução de disputas importantes. Quando faleceu, em 15 de novembro de 1280, no convento dominicano de Colônia, Alberto Magno deixou uma obra monumental composta por dezenas de volumes.

Sua influência alcançou escritores como Dante Alighieri, que o colocou entre os grandes sábios do Paraíso na Divina Comédia, e até mesmo a literatura moderna, sendo citado por Mary Shelley em Frankenstein.

Em 1931, foi canonizado pelo Papa Pio XI e proclamado Doutor da Igreja. Anos depois, recebeu oficialmente o título de Padroeiro dos Cientistas, reconhecimento merecido para alguém que dedicou sua vida a demonstrar que o estudo da criação pode ser também uma forma de contemplar o Criador.

Em uma sociedade frequentemente dividida entre ciência e espiritualidade, Alberto Magno continua oferecendo uma mensagem atual e necessária: a verdade não deve ser temida. Para ele, toda descoberta autêntica — seja em um laboratório, em uma biblioteca ou na oração — conduz ao mesmo horizonte: a compreensão mais profunda da realidade e do sentido da existência humana. Passados mais de setecentos de sua morte, seu exemplo permanece vivo como símbolo de curiosidade intelectual, humildade e amor pelo conhecimento.

O Abade que via Fantasmas no Avental

Imagine a Europa do século XIX. As ferrovias, a eletricidade ensaiavam seus primeiros passos. À sombra das sacristias, elaboravam-se teorias da conspiração. E o Abade Jean Guillaume Gyr não era um clérigo qualquer, rezando o terço e cuidando dos fiéis na diocese de Liège, na pacata Bélgica. Não. Gyr tinha certeza de que o mundo estava sendo governado por um complô. E ele, como uma espécie de sommelier da literatura conspiratória, passava noites em claro traduzindo calhamaços de autores alemães que sofriam do mesmo delírio. Textos germânicos densos, cheios de drama, eram por ele vertidos para o francês com a urgência de quem avisa que o meteoro está chegando. Para ele, a Revolução Francesa e todas as repúblicas que surgiam não passavam de um plano mestre arquitetado nas sombras para destruir o cristianismo, o Estado e, veja você, até a propriedade privada e a família. Para que você sinta o drama, segue, com texto atualizado, o prefácio de A Maçonaria em Si Mesma e em Suas Relações com as Outras Sociedades Secretas da Europa, Principalmente com o Carbonarismo Italiano.

Pretende-se, com ou sem razão, que todas as revoluções modernas têm sido preparadas, amadurecidas e dirigidas pelas sociedades secretas, e particularmente pela Maçonaria; afirma-se que esta última sociedade, essencialmente oposta ao cristianismo, tende ao estabelecimento de uma república democrática e social. Esta acusação é tão grave que não pode deixar de se fundamentar em provas numerosas e irrefragáveis.

No número dos escritores modernos que se constituíram em acusadores das lojas maçônicas, devemos colocar Hengstenberg e Eckert. O primeiro, um bispo protestante, atribui ao trabalho das lojas o declínio e até o desaparecimento da fé cristã entre os adeptos da Reforma. Para afastar o cataclismo social de que a Alemanha está ameaçada, em uma época mais ou menos distante, ele fez ouvir dolorosas queixas na Kirchenzeitung, e imputa à Maçonaria o ceticismo religioso que tem visto apoderar-se gradualmente de seus correligionários. Seus artigos, cheios de provas racionais e de numerosos fatos, têm produzido imensa sensação em toda a Alemanha.

Quanto a Eckert, protestante como Hengstenberg, é sabido que jurou consagrar seu talento e toda a sua vida à destruição da Maçonaria, a qual acusa de ser a autora de todas as revoluções religiosas, políticas e sociais. Até hoje tem cumprido o que prometeu: desde 1853, publicou quatro obras sobre esta grave questão.

A primeira, intitulada A Maçonaria em sua Verdadeira Significação, já é conhecida na Bélgica e na França pela tradução que dela publicamos. A rapidez com que uma edição de 2.000 exemplares se esgotou dispensa-nos de elogiá-la.

 

A segunda tem por título O Templo de Salomão; e é a teoria científica e a explicação de todos os hieróglifos e emblemas maçônicos. Esta obra, que manifesta a ciência profunda e a imensa erudição do autor, só é acessível aos sábios de primeira ordem, que fizeram um estudo especial da metafísica e das ciências naturais.

A terceira é a obra-prima de Eckert. Intitula-se: Magazin der Beweisführung...; isto é: Coleção de Provas Destinadas a Fazer Condenar a Maçonaria como o princípio de todas as empresas criminosas, tentadas com o fim de destruir a religião, o Estado, a família e a propriedade, por meio da fraude, da traição e da violência. Consta de dois volumes em oitavo grande, de 700 a 800 páginas cada um. Talvez nunca a paciência e a tenacidade alemãs nas investigações científicas tenham se mostrado tanto quanto na composição desta obra. Assim, não temos receio de dizer que, depois da publicação desta importante obra, não é possível acrescentar novas considerações a respeito da Maçonaria.

Infelizmente, o autor colocou-se em um ponto de vista que mal poderíamos adotar: o da monarquia absoluta. Este é o motivo pelo qual não podemos condescender com o desejo de muitos dos nossos amigos que nos aconselhavam a tradução desta obra.

A publicação do Magazin elevou o furor das lojas ao seu paroxismo. No momento em que Eckert se achava em Berlim, para trabalhar na abolição da Maçonaria nos estados prussianos, a polícia o prendeu, sob o pretexto de uma conspiração urdida contra o rei e o príncipe regente. Esta prisão arbitrária, feita contra o direito das gentes e das nações, fez nascer da infatigável pena de Eckert um panfleto ardente que confundiu seus perseguidores.

A Maçonaria alemã, tão direta e francamente atacada, teve seus campeões. Para darmos o nosso parecer com pleno conhecimento de causa sobre todas as peças deste importante processo, procuramos obter todas as publicações em favor da Ordem.

Munidos destes documentos e possuindo, além disso, numerosas obras sobre a Maçonaria, julgamos poder publicar uma compilação, fruto das nossas leituras.

Ser-nos-ia fácil publicar muitos volumes sobre este importante assunto. Porém, julgamos preferível apresentar, em um quadro mais restrito, a substância de tudo o que se tem dito e se pode dizer a respeito da Maçonaria. À exceção de alguns sábios de primeira ordem, onde existem hoje leitores que tenham gosto e paciência para meditar sobre obras muito extensas?

No nosso século, o espírito humano, como que levado sobre as asas do vapor e da eletricidade, não se sujeita a lentos e laboriosos estudos; também quer devorar o tempo e o espaço.

A obra que apresentamos ao público encara a Maçonaria sob um ponto de vista geral; por isso tivemos todo o cuidado de afastar qualquer ataque pessoal que pudesse irritar o leitor em lugar de esclarecê-lo.

De muito boa vontade aceitaremos qualquer polêmica que aprouver aos escritores das lojas suscitar, com a condição, porém, de que essa polêmica seja geral, séria e digna. Mais do que isso, julgar-nos-íamos felizes em podermos confessar que nos enganamos na apreciação da Maçonaria.

O Abade Gyr."

Referência: GYR, Jean Guillaume (Abade). A Maçonaria em Si Mesma e em Suas Relações com as Outras Sociedades Secretas da Europa, Principalmente com o Carbonarismo Italiano. Traduzida e publicada em portuguez por Francisco Pereira d’Azevedo. Porto: Na Typographia de Manoel José Pereira, 1860.

Em tempo: O Abade Gyr, como vimos, era um clérigo católico belga; Eckert, um jurista e intelectual protestante alemão. Em uma época na qual as diferenças confessionais entre católicos e protestantes na Europa ainda geravam grandes tensões, os dois encontraram um terreno ecumênico perfeito na obsessão antimaçônica. Para o Abade, não importava que Eckert fosse protestante; o que importava era que o alemão tinha dedicado sua vida inteira e seu talento jurídico para tentar "destruir" a Maçonaria. Gyr via Eckert como uma autoridade científica e um poço de erudição profunda no assunto. Eles eram como dois detetives que concordavam totalmente sobre a identidade e os crimes do "vilão", mas que brigavam feio na hora de decidir o que fazer com a cidade depois que o vilão fosse preso. Um queria devolver o poder total ao Rei; o outro achava que isso já era ir longe demais.

Histórias como a de Jean Guillaume Gyr nos mostram que a imaginação humana tende a criar vilões universais. Uma tendência antiga, persistente e, acima de tudo, fascinante. A seu modo, o abade foi também um Mestre do Imaginário. 

A Maçonaria e seus perseguidores

Apesar de a Maçonaria primar por ter em seus quadros homens livres e honrados, bons cidadãos, éticos, que buscam sempre se conduzir na vida da melhor forma possível, ao longo da história ela aparece, para muitos, como uma verdadeira ameaça. Especialmente para determinadas instituições religiosas, que frequentemente enxergaram na Ordem não uma associação filosófica e iniciática, mas uma rival perigosa — às vezes quase um exército das trevas reunido em torno de aventais e símbolos geométricos.

E aqui reside uma curiosidade histórica fascinante: quanto mais a Maçonaria insistia em falar de moral, virtude, fraternidade, caridade e aperfeiçoamento humano, mais alguns setores pareciam convencidos de que havia algo profundamente suspeito nisso tudo. Afinal, homens reunidos discretamente para discutir ética, filosofia, simbolismo e construção interior… claramente só poderia haver algo satânico acontecendo ali. Naturalmente.

A relação conflituosa entre Igreja e Maçonaria não é nova. Em 1738, o papa Clemente XII publicou a primeira condenação oficial contra a Franco-Maçonaria, por meio da bula In Eminenti Apostolatus Specula. O argumento central era que as reuniões maçônicas eram “suspeitas”, secretas e cresciam rapidamente. Em outras palavras: a Ordem estava se tornando influente demais para ser ignorada.

A partir daí, uma sucessão de papas reforçou a condenação.  Em 1884, na encíclica Humanum Genus, o papa Leão XIII apresentou uma visão profundamente dualista da história humana: de um lado estaria a Igreja de Cristo; de outro, as forças que trabalhariam contra ela. E foi precisamente nesse segundo campo — o dos adversários da ordem cristã — que a Maçonaria acabou colocada, de maneira bastante explícita.

A acusação era ampla. A Maçonaria defendia liberdade de consciência, separação entre Igreja e Estado, convivência entre homens de diferentes crenças e um ideal humanista que não dependia exclusivamente da tutela religiosa. Para seus críticos, isso equivalia a um ataque direto à autoridade espiritual da Igreja.

Em 1902, por exemplo, J. W. Book publicou Mil e Uma Objeções contra a Franco-Maçonaria, obra aprovada pelo arcebispo de Saint-Louis, nos Estados Unidos. Entre os argumentos apresentados estavam alguns realmente memoráveis. Dizia-se que os maçons não eram “livres”, porque passavam tempo demais fora de casa; não eram “pedreiros”, porque não construíam edifícios; e praticavam uma espécie de religião secreta. Em determinado momento, o autor chega a afirmar que maçons montavam guarda na casa de irmãos moribundos para impedir a entrada de padres. O texto soa menos como análise sociológica e mais como roteiro rejeitado de romance gótico do século XIX.

Outros grupos cristãos também manifestaram resistência. Setores luteranos acusavam a Maçonaria de excluir Jesus Cristo de sua estrutura filosófica. Os quakers condenavam qualquer sociedade secreta, entendendo que isso diminuía a liberdade individual. Entre os mórmons, alegava-se que o vínculo fraternal maçônico poderia competir com a própria autoridade da igreja.

Houve ainda publicações francamente apocalípticas, com títulos como: “Jesus Cristo contra as sociedades secretas”; “Os servos do Diabo”; “O culto de Satanás nas sociedades secretas”; “O deus pagão da Maçonaria”.

Nessa linha sensacionalista, merece destaque o famoso, talvez o mais célebre fabricante de escândalos antimaçônicos da história. Leo Taxil alimentou durante anos o imaginário antimaçônico europeu com relatos extravagantes sobre cultos luciferianos, rituais demoníacos e conspirações satânicas supostamente praticadas no interior das Lojas. O auge da fraude foi a criação da fictícia Diana Vaughan, apresentada como ex-sacerdotisa do satanismo maçônico convertida ao catolicismo. Mais tarde, o próprio Taxil confessaria publicamente que toda a narrativa fora uma mistificação cuidadosamente construída. O detalhe delicioso é que, anos depois, ele confessou publicamente que tudo não passava de uma fraude elaborada para ridicularizar tanto os antimaçons quanto os crédulos que acreditavam em qualquer narrativa fantástica envolvendo bode, pentagrama e avental.

Ainda assim, o imaginário permaneceu.

E talvez esse seja justamente o ponto mais interessante. A Maçonaria sempre ocupou um território desconfortável: discreta, simbólica, iniciática e seletiva. Em tempos de intolerância religiosa ou política, qualquer organização que valorizasse liberdade de pensamento inevitavelmente acabaria despertando suspeitas.

Ao longo dos séculos, reis a temeram, igrejas a condenaram, revolucionários a utilizaram, conspiracionistas a demonizaram e romancistas a romantizaram. E, apesar de tudo isso, ela continua existindo — silenciosa, ritualística e cercada pela mesma aura de mistério que, ironicamente, seus opositores tanto ajudaram a construir.

Talvez porque poucas coisas assustem tanto quanto homens pensando livremente.

Fonte consultada: CYVARD, Mariette. Documents maçonniques – Les 33 degrés du Rite Écossais Ancien et Accepté. Édition du C.R.P., Noeux-les-Mines, 1999.

DIÁLOGOS DO IMAGINÁRIO II – Conversas com Oswald Wirth

 

DIÁLOGOS DO IMAGINÁRIO II – Conversas com Oswald Wirth
Passaram-se anos desde a tradução de Oswald Wirth e da organização das primeiras conversas reunidas sob o título “Diálogos do Imaginário”. A senda maçônica, entretanto, não se extinguiu: permaneceu resguardada em antigos arquivos, revisitados de tempos em tempos — sem avental, sem malhete, sem Loja, mas ainda com minhas luvas brancas.
Este segundo volume retrata a perplexidade de um iniciado diante das exigências da Arte Real. Ele questiona o auto aperfeiçoamento sem garantias e sem recompensas. Wirth não promete transformar o mundo. Sua proposta é mais exigente. Ele propõe transformar o homem por meio de uma filosofia que se molda ao grau de autoconhecimento de cada um.
Não há promessa de salvação. Há, antes, a descrição de um caminho no qual a maior conquista consiste em aceitar que não existe conquista final; que o trabalho é incessante porque o homem é imperfeito; que a acácia cresce sobre o túmulo, ainda que o jardineiro jamais contemple a árvore adulta.
Os diálogos se sustentam na distância crítica e na recusa ao proselitismo, privilegiando uma linguagem acessível, despojada de jargões excessivos. O percurso contempla as etapas essenciais da jornada simbólica: o despertar doloroso da consciência e o despojamento dos metais; a descida voluntária à Câmara de Reflexões e as provas dos quatro elementos — Terra, Ar, Água e Fogo; o batismo iniciático, no qual o cálice começa doce e se revela amargo.
A Loja surge como um microcosmo regido por Sabedoria, Força e Beleza. A geometria filosofal, o número cinco, a letra G e o salário — não em ouro, mas em força renovada pela entrega — compõem o horizonte simbólico que orienta o caminhante.
O Mestrado e a segunda morte assinalam o retorno ao ponto de partida, trazendo consigo a desilusão absoluta do grau máximo. A Câmara do Meio, o corpo de Hiram e a acácia que insiste em brotar sobre o túmulo reafirmam a continuidade do trabalho, mesmo diante da finitude.
Este livro não oferece respostas prontas. Propõe, apenas, uma conversa franca entre um profano resistente e um Mestre de outro tempo — uma reflexão sobre o preço da consciência, a beleza do limite e a coragem de perseverar na obra, mesmo sabendo que o Templo jamais estará concluído.

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