Por um instante apenas

Atlas, um titã, foi condenado a sustentar o céu por toda a eternidade. A postura de seu corpo traduz dimensão simbólica de seu castigo, um fardo que não admite descanso, e que implica em uma infinita responsabilidade. Ao lado de Atlas, muito provavelmente, de Héracles (Hércules), herói conhecido por sua força extraordinária. O episódio representado remete à busca pelas maçãs de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules pede ajuda a Atlas e, por um breve instante, assume o peso do céu para que o titã possa se libertar de sua carga. O momento captado pela escultura parece ser o dessa ajuda temporária. Atlas jamais será verdadeiramente livre. Contudo, Héracles, temporariamente, apenas empresta-lhe sua força por um instante.

São Longuinho: da lança aos “três pulinhos”


São Longuinho é uma simpatia! Um querido. Se você perde o brinco, não sabe onde deixou as chaves ou o controle da TV, chame por ele: “São Longuinho, São Longuinho… se eu achar, dou três pulinhos!”.

O nome Longinus (ou Longino) aparece no século IV, como no Evangelho de Nicodemos. A Igreja Católica o identifica como o soldado romano que, durante a crucificação de Jesus, perfurou o lado direito de Cristo com uma lança para verificar se já estava morto (João 19:34).  Do ferimento jorrou sangue e água — fato relatado no Evangelho de João. Segundo a tradição posterior (especialmente a partir da Idade Média), o sangue que tocou os olhos do centurião, que sofria de problemas de visão ou cegueira parcial, o teria curado instantaneamente. Esse milagre o levou à conversão imediata ao cristianismo. Uma vez convertido, ele deixa o exército romano e vai pregar a fé em sua terra natal. A Capadócia. Foi martirizado por ordem de Pilatos ou das autoridades romanas.

Por isso, é venerado como mártir nas Igrejas Católica, Ortodoxa e Armênia e festejado no dia 15 de março no calendário romano e em 16 de outubro na tradição ortodoxa.

Ninguém sabe ao certo a origem exata dos três pulinhos. Porém, quando o objeto perdido aparece, a pessoa costuma cumprir a promessa na hora: “São Longuinho, obrigado!” + três pulinhos bem dados. Ele é padroeiro informal dos oftalmologistas (por causa da cura da visão) e, no imaginário popular, dos “desmemoriados” e “esquecidos”. 

Nas representações, aparece como ancião solitário que traz uma lança ou cajado. É muito parecido com o Eremita, Arcano IX do Tarô, o que já fez com que fosse chamado de “santo padroeiro dos tarólogos”. Afinal, se São Longuinho encontra coisas perdidas, o Eremita ajuda a “encontrar” verdades ocultas.

Na foto, o “meu” São Longuinho.

SOIS? A História de Marcos Silas que Foi Feito Maçom


 SOIS? – A História de Marcos Silas que Foi Feito Maçom é um romance contemporâneo escrito ao longo de décadas, ambientado no fim dos anos 1990, em tempos de transição às vésperas do segundo milênio. Com linguagem direta e estrutura dialogada, a narrativa oscila entre o trágico e o cômico, expondo a fragilidade humana diante da vaidade, do medo e da ilusão de grandeza. Marcos Silas é um homem comum. Gerente de banco eficiente, porém medíocre, vive uma vida segura e previsível, mas sufocante. Casado com Regina, dona de casa neurótica e adoecida, e pai de um adolescente rebelde, encontra-se aprisionado em uma rotina que lhe garante estabilidade, mas lhe nega sentido. É nesse estado de frustração silenciosa que surge Klaus von Strümmel — cliente excêntrico, rico e carismático — que o convida a ingressar na Maçonaria. Para Marcos, a Ordem representa prestígio, pertencimento e poder. Seduzido pela aura do secreto, aceita o convite. A partir daí, sua vida adquire um novo sentido. Entre rituais pomposos, discursos grandiloquentes e promessas de conhecimento oculto, Marcos se enreda em uma trama de manipulações, chantagens e traições. Strümmel revela-se um charlatão teatral obcecado por poder. Valquíria, terapeuta holística new age, transforma discurso espiritual em instrumento de vingança. Rebeca — lúcida, culta e irreverente — torna-se o centro de uma disputa que culminará em tragédia. Relações marcadas por lealdades provisórias e traições recorrentes sustentam um universo em que a verdade surge sempre fragmentada — disputada, distorcida e apropriada conforme os interesses de cada um. Este romance, contudo, não se ocupa da revelação de segredos institucionais. O que está em jogo é o secreto como categoria e seus efeitos corrosivos sobre indivíduos frágeis, ambiciosos e inseguros. Narrado em estrutura circular, SOIS? começa e termina no PONTO ZERO — lugar de memória no qual Marcos Silas, bêbado e fracassado, revive sua trajetória diante daquele que conhece todos os seus segredos, à mesa de um bar de esquina. Em SOIS?, passado e presente se confundem, revelando como cada escolha contribuiu para uma perda irreversível de si mesmo.

Disponível na Amazon 

ALQUIMIA & ALQUIMISTAS

ALQUIMIA & ALQUIMISTAS é um estudo introdutório sobre uma das tradições simbólicas mais persistentes da história ocidental. A obra propõe uma leitura clara, histórica e simbólica da alquimia, compreendida como um saber situado entre o laboratório e o templo.
Desde as origens orientais da alquimia até sua consolidação no mundo grego, egípcio e árabe, o livro fala sobre seus grandes mestres históricos, sem excluir charlatães, aventureiros e falsos adeptos. A Pedra Filosofal, seus símbolos, seus estágios operativos e suas controvérsias são revisitados, sem jamais reduzir a alquimia a uma simples busca por ouro ou a um sistema de crenças místicas.
O livro também expõe as relações entre alquimia e maçonaria, suas convergências simbólicas e suas diferenças fundamentais, assim como o destino da Arte Hermética na modernidade. Sem a pretensão de decifrar todos os segredos da Arte, 
ALQUIMIA & ALQUIMISTAS oferece ao leitor uma cartografia confiável — histórica, simbólica e conceitual.
Trata-se de um livro para quem deseja compreender o que foi a alquimia, por que ela atravessou os séculos e por que seus símbolos continuam vivos na literatura, na arte, na psicologia e no imaginário contemporâneo.
Este volume integra a série 
MESTRES DO IMAGINÁRIO: Simbolismo & Imaginação.

Disponível na Amazon 

DIÁLOGOS DO IMAGINÁRIO: Conversas com Oswald Wirth

Então, SOIS?
Se for este o caso, este livro pode te interessar. DIÁLOGOS DO IMAGINÁRIO: CONVERSAS COM OSWALD WIRTH conta a história simbólica e intelectual da Maçonaria a partir da obra e do pensamento de um de seus mais lúcidos pensadores modernos, interpretado por alguém que traduziu parte de seus livros e estudou sua obra. Organizado em forma de oito diálogos que acontecem no estilo das velhas catequeses, parte-se da experiência iniciática para depois adentrar aos fundamentos esotéricos do simbolismo maçônico, expondo as origens operativas da Ordem que se tornou, enfim, especulativa. Que contradições marcaram sua institucionalização? Ao longo do caminho, o leitor encontrará a distinção entre o maçom teórico e o maçom iniciado, uma leitura simbólica dos instrumentos e graus, a conexão entre corporações de ofício, tradição iniciática e hermetismo, o papel dos construtores medievais nas catedrais góticas até o nascimento da Maçonaria moderna, em 1717, sem mitos romantizados. Por fim, as divisões, cisões e ambiguidades da Ordem em solo inglês e francês. Este não é um manual técnico, nem uma defesa institucional. É uma reflexão crítica que confronta o leitor com a distância entre o ideal iniciático e suas formas históricas. Sem concessões intelectuais, o livro dialoga tanto com maçons quanto com estudiosos, filósofos, historiadores das religiões, estudantes do simbolismo e buscadores em geral. Sem proselitismo, optou-se pelo pensamento. Se você busca compreender a Maçonaria além de seus estereótipos mais superficiais, longe das fantasias conspiratórias e das simplificações vulgares, então, caro leitor, este livro foi escrito para você.

Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0G5JYHLNX 

Os Mestres do Imaginário

Aqui pensando há quanto tempo existem os Mestres do Imaginário. Comecei este blog no dia 11 de fevereiro de 2009. Até agora, foram 173.875 visitas e 795 postagens publicadas, dentre as quais a mais visitada é Abertura do Livro da Lei. Há muita coisa sobre Maçonaria e sobre todos aqueles que, a meu ver, foram e são mestres na arte de viver e de morrer, uma vez que uma e outra podem ser compreendidas por seus extremos paradoxais.

Creio que nunca alterei a apresentação. Mestres do Imaginário continua dando o recado de alguém que, até hoje, lê de tudo e se interessa também por quase tudo. Nada aqui foi planejado. Por isso, surpreende-me muito receber visitas regulares, diariamente, do mundo todo. Nunca me interessei em produzir conteúdo sistematicamente. O único critério é o que me agrada, por vezes o que me desagrada, eventualmente o que me representa de algum modo.

Há dias em que percorro as postagens casualmente. E até gosto bastante de algumas. Gosto muito do fato de que, passados mais de 16 anos, eu ainda mantenha um ritmo não muito diferente do início. E, embora eu tenha mudado muito nesses anos todos, ainda me reconheço nesta escrita.

Desconheço quem acessa este blog. Vejo o movimento, e isso é o bastante. Os comentários são regulados, mas respondo a todos, sempre. Não sei quem vem até aqui, mas é bom saber que há leitores.

Escrever para este blog é sempre um exercício que exige espontaneidade e entusiasmo, duas condições nem sempre presentes, mas essenciais aos temas que costumo abordar somente aqui. Tampouco sei se o que escrevo encontra eco em quem lê. Suspeito que sim. Talvez seja só isso: um ponto de contato, um lampejo, uma pausa no fluxo do mundo.

Os Mestres do Imaginário seguem existindo sem promessas, sem outra estratégia que não a inspiração do que me acontece. Àqueles que passaram e que ainda passarão por aqui, meu silencioso respeito. Continuo. Por hábito, por gosto, por necessidade. E talvez, sobretudo, porque ainda há muito a imaginar.

 

Adelites


Amo folhear o Dicionário Infernal!

Para quem ainda não conhece, trata-se de uma obra de meados do século XIX, compilada por Collin de Plancy. Trata de crenças, personagens folclóricos, figuras demonológicas, superstições, práticas mágicas e curiosidades do imaginário europeu. É um verdadeiro catálogo do extraordinário, do insólito, do que escapa à razão — sempre acompanhado de ilustrações que parecem saídas de um teatro de sombras.

Muitas vezes é bom simplesmente correr o cursor pelas páginas digitais até que uma imagem chame nossa atenção. Ou uma palavra. Ou o que for.

Hoje foi ADELITES.

A definição é bem simples: “Adelites, devins espagnols qui se vantaient de prédire par le vol ou le chant des oiseaux ce qui devait arriver en bien ou en mal.” Ou seja: “adivinhos espanhóis que se vangloriavam de predizer, pelo voo ou pelo canto dos pássaros, o que aconteceria de bom ou de mal.”

E, além desta imagem, nada mais. Nada além disso — e nada além de nossa imaginação. Porque podemos, afinal, imaginar o que as notas sonoras do canto dos pássaros, ou mesmo a direção de seus voos, poderiam revelar a esses adelites. Que sinais eles veriam no céu? Que presságios? Que espécie de linguagem se desdobraria do canto e das asas dos pássaros?

Ir ter com o Dicionário Infernal seria como consultar um oráculo? Não creio que eu queira dizer isso — ao menos não exatamente. Não se trata de buscar respostas para perguntas específicas. Nada disso. Mas talvez de descobrir uma inspiração, deixar-se sugestionar, abrir-se para uma palavra nova (ou recém-descoberta) que nos faça primeiro pensar e depois sentir — ou ambos simultaneamente. Às vezes uma simples entrada perdida no índice basta despertar nossa curiosidade.

A grande ideia que atravessa tudo isso talvez seja mesmo essa antiga obsessão humana: predizer o futuro. É recorrente, ontem e hoje. Agora, quanto à imagem… bem, confesso que não a entendi totalmente.

À primeira vista, não entendi. Olhando com mais atenção, porém, vejo que a gravura mostra duas figuras, ambas iluminadas pela lua. À direita, a mulher de pé, usando saia longa, avental e um lenço na cabeça. Ela ergue os braços num gesto expressivo, como se explicasse algo, chamasse atenção ou respondesse ao que vê. Sua postura é firme, cheia de presença, quase teatral. À esquerda, sobre um pequeno banquinho, há um rapaz — talvez um jovem, talvez uma criança um pouco mais velha. Ele se inclina para a frente com a boca aberta, uma das mãos na cabeça e a outra levantada para o céu, como se estivesse reagindo a algo que só ele percebe. É um gesto de espanto, de súbita revelação ou de súbito presságio.

A lua, grande e clara, sugere que tudo acontece à noite. E, curiosamente, não há pássaros visíveis — ou, se existem, são tão mínimos que se confundem com a textura da página. Isso faz com que a cena pareça menos uma ilustração literal e mais uma alegoria: duas pessoas comuns, no campo, diante do céu noturno, talvez discutindo um sinal, talvez imaginando um, talvez inventando significados para aquilo que não se vê.

E justamente porque a imagem não explica — apenas sugere — ela nos convoca a completar o resto. A imaginar o que se passa entre esses dois personagens, que tipo de “augúrio” está sendo visto, quem ensina e quem aprende, ou se ambos apenas dividem o mesmo instante de maravilha.

Bem, isso foi o que o Dicionário Infernal tinha para nós esta noite. E talvez seja justamente essa a graça de visitá-lo: deixar que uma pequena entrada esquecida, uma palavra rara ou uma imagem enigmática abra uma fresta no nosso próprio imaginário. Nem respostas, nem certezas — apenas um convite silencioso a olhar de novo, a escutar melhor, a inventar sentidos para o que nos toca.

O Dicionário Infernal não nos diz quem eram exatamente os adelites, nem como liam o voo das aves, nem o que aquelas duas figuras, sob a lua, viram ou pensaram. Mas oferece algo mais precioso: a possibilidade de buscar e de sempre encontrar, não importa exatamente o quê. Isso é o extraordinário. Ele nos atravessa, sempre, sutil ou brutalmente. Mesmo quando quase nada ou quase nada se vê.

O que foi será

Há janelas que não se abrem para o mundo. Abrem-se para o tempo.Fechadas para o agora, por elas se vê o que foi antes. Sua moldura de madeira lembra um relicário, enquanto a vidraça, sempre embaçada, mergulha na névoa onde dançam as sombras em busca de seus corpos. A luz é ilusão do sol que brilhou ontem. Aquele que contempla esse espelho escuta as vozes dos que se calaram. Depois de algum tempo, a janela torna-se parte de sua visão. O presente o abandona. O vidro torna-se véu. O véu, passagem. A janela é um olhar que conhece o passado e, por aí, abre-se ao futuro. Porque o que foi sempre será, pelo simples fato de ter sido.