A Morada dos Invisíveis

Há certas coisas que, para mim, são feitas de sugestão. Não que não sejam as coisas que fato são. Não diria o contrário. Nem por isso, todavia, deixam de ser mais do que são, projetando-se para além do real, ou trazendo o real para dentro do ser que as contempla, ou integrando o cenário da contemplação, ou qualquer outra coisa que eu inventasse agora para você ler. Particularmente, gosto de me cercar de coisas assim, que nunca são apenas o que de fato são. Que triste viver entre coisas que são apenas o que de fato são. Verdadeira miséria, porque empobrece até a riqueza. Não ter consigo um cinzeiro de vidro que atravessou gerações. Único sobrevivente dos trigêmeos que habitaram minha infância. Não ter o apontador de lápis capaz de quebrar todas a pontas que ali adentrem... porque só serve para ser bonito, pomposo, pretensiosa miniatura do mundo que custou 1,99. Quando havia lojas de 1,99. Sem contar o millefiori tão encantador quanto seria se fosse, de fato, veneziano e não um falso chinês. Que importa? Se, sob a claridade leitosa, lunar, da velha luminária, tudo isso povoa o meu imaginário, aqui, na morada do invisíveis. 
 

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