Wirth propõe uma ideia interessante quando argumenta que, mesmo que a astrologia não passe de uma ilusão ou de uma ciência ultrapassada, ainda assim o seu valor permanece. Por quê? Simples: porque ela é uma linguagem simbólica, porque “fala”, por imagens e símbolos, sobre a relação que une o ser humano ao cosmos e à natureza.
Não espere de Wirth que ele tente nos “convencer” de que “astrologia funciona”. Nada disso. O que ele coloca é muito mais profundo, ao dar boas razões para que se estude o simbolismo astrológico pela sabedoria que ele guarda.
Ao final do século XIX, a astrologia clássica era vista por muitos como uma tradição decadente, quase morta. Com poucos praticantes e decréscimo do interesse geral, a prática estava relegada ao esquecimento e mesmo sujeita à ridicularização. Contudo, Élie Star permanecia ativo, utilizando métodos pouco convencionais para fazer previsões. Sem dedicar-se aos cálculos e regras tradicionais, seu estilo era oracular, ou seja, mais próximo de um “vidente” do que de um astrólogo matemático.
No início do século XX, especialmente na década de 1920, a astrologia renasce, e é nesse contexto que Les signes du zodiaque aparece como proposta de resgate da antiga astrologia como tradição simbólica.
Para Wirth, astrologia não é apenas horóscopo, porque ela aponta padrões, estabelecendo conexões com mitologia, alquimia, hermetismo, filosofia esotérica e simbolismo maçônico — pensamento posteriormente desenvolvido por Wirth em Le symbolisme astrologique, obra publicada em 1937.
As analogias que faz entre planetas e tipos humanos são belíssimas e sugerem que tudo se conecta em um sistema de correspondências, na esteira da famosa lógica esotérica do “assim em cima como embaixo”.
Wirth valoriza muito a tradição vinda da Mesopotâmia, aquela região localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Para ele, muitos símbolos fundamentais do zodíaco nasceram ali, dentro de mitos que explicam a criação do mundo e o relacionamento entre deuses e humanos. A Epopeia de Gilgamesh é um dos textos mais antigos da humanidade, registrado em escrita cuneiforme, com traduções e publicações modernas só acessíveis no século XIX.
No pensamento de Wirth, o zodíaco é uma espécie de chave para decifrar mitos, lendas e símbolos espirituais, e ele o decifra apontando as características mais importantes de cada signo.
Áries representa o início do ano astrológico, marcado pelo equinócio da primavera. É o signo da iniciativa, da energia vital e do impulso criativo. Ligado ao elemento fogo, carrega agressividade e coragem, mas também pode pecar pela falta de persistência. É o despertar da vida.
Touro simboliza a terra fértil, o trabalho e a construção lenta. É a energia que prepara o solo para a colheita futura. Persistente e firme, representa o enraizamento e a conexão com o mundo material.
Associado ao ar, Gêmeos representa a ascensão intelectual e a troca de ideias. É o signo da criatividade mental, do movimento, da curiosidade e da comunicação. Simboliza o impulso do pensamento e da expressão.
Câncer é ligado à água e à sementeira. Representa nutrição, cuidado e vida interior. Sua energia é emocional e intuitiva, voltada para a proteção do que é querido e para a reflexão profunda.
Leão simboliza o auge do verão e o ponto máximo da vitalidade. Associado ao fogo e à autoconfiança, representa liderança, realização e poder criativo. É a energia que brilha e se afirma.
Virgem, ligada à terra e à fertilidade, é o signo do trabalho detalhado e da colheita. Representa análise, perfeccionismo e disciplina. É vista como a expressão da sabedoria prática.
Libra é o signo do equilíbrio e da justiça. Associado ao ar, representa diplomacia, cooperação e busca por harmonia. Está ligado aos equinócios, quando dia e noite se igualam, reforçando sua simbologia de equilíbrio.
Escorpião é água profunda, intensidade e renovação. Representa morte simbólica e renascimento, a capacidade de atravessar crises e se regenerar. É o signo da transformação inevitável.
Sagitário é fogo aventureiro, expansão e desejo de conhecimento. Representa a liberdade, a busca por significado e a colheita das experiências. É um signo de fim de outono, quando o mundo se prepara para o recolhimento.
Capricórnio é associado ao solstício de inverno, período de escuridão e reflexão. Simboliza reverência, piedade e religiosidade interior. O texto menciona que a tradição maçônica poderia se beneficiar de rituais mais conectados à natureza, celebrando simbolicamente a ressurreição de Hiram, alinhada ao renascimento da luz após o inverno.
Aquário é signo de ar e transformação espiritual. Wirth descreve como Saturno, ao entrar no Aquário, muda de papel: deixa de ser apenas limite e peso, e passa a atuar como distribuidor de sabedoria e vida. Ele faz analogia com Indra, da mitologia védica, como aquele que traz vitalidade.
Aquário é o mensageiro que derrama inspiração e fertiliza a terra árida com “águas sublimadas”.
Peixes representa a vida universal em movimento e a conexão invisível entre seres. O signo é descrito como dual, refletindo fraternidade, multiplicação de ideias e espiritualidade. É associado ao deus Éa, divindade das águas vivificantes.
O texto também liga Peixes aos pés, símbolo de dignidade humana e da jornada espiritual do ser humano no mundo.
O ensaio conclui reforçando que o zodíaco deve ser visto como um sistema interligado. Os signos se organizam em quatro elementos, cada qual com três manifestações, criando um esquema rico e complexo de forças.
O grande mérito de Oswald Wirth está em tratar a astrologia como algo além de previsões. Em sua visão, os signos do zodíaco são um conjunto de símbolos que atravessam civilizações, conectando mitos mesopotâmicos, alquimia, hermetismo, tarot e a própria experiência da natureza. Mesmo que você não acredite na astrologia como ciência, Wirth propõe algo difícil de negar: o zodíaco continua sendo uma das formas mais poderosas que a humanidade criou para interpretar ciclos, forças e transformações internas.




