A Morada dos Invisíveis

Há certas coisas que, para mim, são feitas de sugestão. Não que não sejam as coisas que fato são. Não diria o contrário. Nem por isso, todavia, deixam de ser mais do que são, projetando-se para além do real, ou trazendo o real para dentro do ser que as contempla, ou integrando o cenário da contemplação, ou qualquer outra coisa que eu inventasse agora para você ler. Particularmente, gosto de me cercar de coisas assim, que nunca são apenas o que de fato são. Que triste viver entre coisas que são apenas o que de fato são. Verdadeira miséria, porque empobrece até a riqueza. Não ter consigo um cinzeiro de vidro que atravessou gerações. Único sobrevivente dos trigêmeos que habitaram minha infância. Não ter o apontador de lápis capaz de quebrar todas a pontas que ali adentrem... porque só serve para ser bonito, pomposo, pretensiosa miniatura do mundo que custou 1,99. Quando havia lojas de 1,99. Sem contar o millefiori tão encantador quanto seria se fosse, de fato, veneziano e não um falso chinês. Que importa? Se, sob a claridade leitosa, lunar, da velha luminária, tudo isso povoa o meu imaginário, aqui, na morada do invisíveis. 
 

Oswald Wirth e os Signos do Zodíaco

Oswald Wirth, simbolista notável, escreveu um ensaio intitulado Les signes du zodiaque, publicado em 1921. Nesse interessante manual astrológico, os signos são apresentados como uma espécie de “alfabeto universal”, porque traduzem tanto forças naturais quanto dimensões espirituais da experiência humana. Os doze signos são tratados como chaves simbólicas que dialogam com a mitologia, o hermetismo, o tarot e tradições espirituais antigas.

Wirth propõe uma ideia interessante quando argumenta que, mesmo que a astrologia não passe de uma ilusão ou de uma ciência ultrapassada, ainda assim o seu valor permanece. Por quê? Simples: porque ela é uma linguagem simbólica, porque “fala”, por imagens e símbolos, sobre a relação que une o ser humano ao cosmos e à natureza.

Não espere de Wirth que ele tente nos “convencer” de que “astrologia funciona”. Nada disso. O que ele coloca é muito mais profundo, ao dar boas razões para que se estude o simbolismo astrológico pela sabedoria que ele guarda.

Ao final do século XIX, a astrologia clássica era vista por muitos como uma tradição decadente, quase morta. Com poucos praticantes e decréscimo do interesse geral, a prática estava relegada ao esquecimento e mesmo sujeita à ridicularização. Contudo, Élie Star permanecia ativo, utilizando métodos pouco convencionais para fazer previsões. Sem dedicar-se aos cálculos e regras tradicionais, seu estilo era oracular, ou seja, mais próximo de um “vidente” do que de um astrólogo matemático.

No início do século XX, especialmente na década de 1920, a astrologia renasce, e é nesse contexto que Les signes du zodiaque aparece como proposta de resgate da antiga astrologia como tradição simbólica.

Para Wirth, astrologia não é apenas horóscopo, porque ela aponta padrões, estabelecendo conexões com mitologia, alquimia, hermetismo, filosofia esotérica e simbolismo maçônico — pensamento posteriormente desenvolvido por Wirth em Le symbolisme astrologique, obra publicada em 1937.

As analogias que faz entre planetas e tipos humanos são belíssimas e sugerem que tudo se conecta em um sistema de correspondências, na esteira da famosa lógica esotérica do “assim em cima como embaixo”.

Wirth valoriza muito a tradição vinda da Mesopotâmia, aquela região localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Para ele, muitos símbolos fundamentais do zodíaco nasceram ali, dentro de mitos que explicam a criação do mundo e o relacionamento entre deuses e humanos. A Epopeia de Gilgamesh é um dos textos mais antigos da humanidade, registrado em escrita cuneiforme, com traduções e publicações modernas só acessíveis no século XIX.

No pensamento de Wirth, o zodíaco é uma espécie de chave para decifrar mitos, lendas e símbolos espirituais, e ele o decifra apontando as características mais importantes de cada signo.

Áries representa o início do ano astrológico, marcado pelo equinócio da primavera. É o signo da iniciativa, da energia vital e do impulso criativo. Ligado ao elemento fogo, carrega agressividade e coragem, mas também pode pecar pela falta de persistência. É o despertar da vida.

Touro simboliza a terra fértil, o trabalho e a construção lenta. É a energia que prepara o solo para a colheita futura. Persistente e firme, representa o enraizamento e a conexão com o mundo material.

Associado ao ar, Gêmeos representa a ascensão intelectual e a troca de ideias. É o signo da criatividade mental, do movimento, da curiosidade e da comunicação. Simboliza o impulso do pensamento e da expressão.

Câncer é ligado à água e à sementeira. Representa nutrição, cuidado e vida interior. Sua energia é emocional e intuitiva, voltada para a proteção do que é querido e para a reflexão profunda.

Leão simboliza o auge do verão e o ponto máximo da vitalidade. Associado ao fogo e à autoconfiança, representa liderança, realização e poder criativo. É a energia que brilha e se afirma.

Virgem, ligada à terra e à fertilidade, é o signo do trabalho detalhado e da colheita. Representa análise, perfeccionismo e disciplina. É vista como a expressão da sabedoria prática.

Libra é o signo do equilíbrio e da justiça. Associado ao ar, representa diplomacia, cooperação e busca por harmonia. Está ligado aos equinócios, quando dia e noite se igualam, reforçando sua simbologia de equilíbrio.

Escorpião é água profunda, intensidade e renovação. Representa morte simbólica e renascimento, a capacidade de atravessar crises e se regenerar. É o signo da transformação inevitável.

Sagitário é fogo aventureiro, expansão e desejo de conhecimento. Representa a liberdade, a busca por significado e a colheita das experiências. É um signo de fim de outono, quando o mundo se prepara para o recolhimento.

Capricórnio é associado ao solstício de inverno, período de escuridão e reflexão. Simboliza reverência, piedade e religiosidade interior. O texto menciona que a tradição maçônica poderia se beneficiar de rituais mais conectados à natureza, celebrando simbolicamente a ressurreição de Hiram, alinhada ao renascimento da luz após o inverno.

Aquário é signo de ar e transformação espiritual. Wirth descreve como Saturno, ao entrar no Aquário, muda de papel: deixa de ser apenas limite e peso, e passa a atuar como distribuidor de sabedoria e vida. Ele faz analogia com Indra, da mitologia védica, como aquele que traz vitalidade.

Aquário é o mensageiro que derrama inspiração e fertiliza a terra árida com “águas sublimadas”.

Peixes representa a vida universal em movimento e a conexão invisível entre seres. O signo é descrito como dual, refletindo fraternidade, multiplicação de ideias e espiritualidade. É associado ao deus Éa, divindade das águas vivificantes.

O texto também liga Peixes aos pés, símbolo de dignidade humana e da jornada espiritual do ser humano no mundo.

O ensaio conclui reforçando que o zodíaco deve ser visto como um sistema interligado. Os signos se organizam em quatro elementos, cada qual com três manifestações, criando um esquema rico e complexo de forças.

O grande mérito de Oswald Wirth está em tratar a astrologia como algo além de previsões. Em sua visão, os signos do zodíaco são um conjunto de símbolos que atravessam civilizações, conectando mitos mesopotâmicos, alquimia, hermetismo, tarot e a própria experiência da natureza. Mesmo que você não acredite na astrologia como ciência, Wirth propõe algo difícil de negar: o zodíaco continua sendo uma das formas mais poderosas que a humanidade criou para interpretar ciclos, forças e transformações internas.


Por um instante apenas

Atlas, um titã, foi condenado a sustentar o céu por toda a eternidade. A postura de seu corpo traduz dimensão simbólica de seu castigo, um fardo que não admite descanso, e que implica em uma infinita responsabilidade. Ao lado de Atlas, muito provavelmente, de Héracles (Hércules), herói conhecido por sua força extraordinária. O episódio representado remete à busca pelas maçãs de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules pede ajuda a Atlas e, por um breve instante, assume o peso do céu para que o titã possa se libertar de sua carga. O momento captado pela escultura parece ser o dessa ajuda temporária. Atlas jamais será verdadeiramente livre. Contudo, Héracles, temporariamente, apenas empresta-lhe sua força por um instante.

São Longuinho: da lança aos “três pulinhos”


São Longuinho é uma simpatia! Um querido. Se você perde o brinco, não sabe onde deixou as chaves ou o controle da TV, chame por ele: “São Longuinho, São Longuinho… se eu achar, dou três pulinhos!”.

O nome Longinus (ou Longino) aparece no século IV, como no Evangelho de Nicodemos. A Igreja Católica o identifica como o soldado romano que, durante a crucificação de Jesus, perfurou o lado direito de Cristo com uma lança para verificar se já estava morto (João 19:34).  Do ferimento jorrou sangue e água — fato relatado no Evangelho de João. Segundo a tradição posterior (especialmente a partir da Idade Média), o sangue que tocou os olhos do centurião, que sofria de problemas de visão ou cegueira parcial, o teria curado instantaneamente. Esse milagre o levou à conversão imediata ao cristianismo. Uma vez convertido, ele deixa o exército romano e vai pregar a fé em sua terra natal. A Capadócia. Foi martirizado por ordem de Pilatos ou das autoridades romanas.

Por isso, é venerado como mártir nas Igrejas Católica, Ortodoxa e Armênia e festejado no dia 15 de março no calendário romano e em 16 de outubro na tradição ortodoxa.

Ninguém sabe ao certo a origem exata dos três pulinhos. Porém, quando o objeto perdido aparece, a pessoa costuma cumprir a promessa na hora: “São Longuinho, obrigado!” + três pulinhos bem dados. Ele é padroeiro informal dos oftalmologistas (por causa da cura da visão) e, no imaginário popular, dos “desmemoriados” e “esquecidos”. 

Nas representações, aparece como ancião solitário que traz uma lança ou cajado. É muito parecido com o Eremita, Arcano IX do Tarô, o que já fez com que fosse chamado de “santo padroeiro dos tarólogos”. Afinal, se São Longuinho encontra coisas perdidas, o Eremita ajuda a “encontrar” verdades ocultas.

Na foto, o “meu” São Longuinho.

SOIS? A História de Marcos Silas que Foi Feito Maçom


 SOIS? – A História de Marcos Silas que Foi Feito Maçom é um romance contemporâneo escrito ao longo de décadas, ambientado no fim dos anos 1990, em tempos de transição às vésperas do segundo milênio. Com linguagem direta e estrutura dialogada, a narrativa oscila entre o trágico e o cômico, expondo a fragilidade humana diante da vaidade, do medo e da ilusão de grandeza. Marcos Silas é um homem comum. Gerente de banco eficiente, porém medíocre, vive uma vida segura e previsível, mas sufocante. Casado com Regina, dona de casa neurótica e adoecida, e pai de um adolescente rebelde, encontra-se aprisionado em uma rotina que lhe garante estabilidade, mas lhe nega sentido. É nesse estado de frustração silenciosa que surge Klaus von Strümmel — cliente excêntrico, rico e carismático — que o convida a ingressar na Maçonaria. Para Marcos, a Ordem representa prestígio, pertencimento e poder. Seduzido pela aura do secreto, aceita o convite. A partir daí, sua vida adquire um novo sentido. Entre rituais pomposos, discursos grandiloquentes e promessas de conhecimento oculto, Marcos se enreda em uma trama de manipulações, chantagens e traições. Strümmel revela-se um charlatão teatral obcecado por poder. Valquíria, terapeuta holística new age, transforma discurso espiritual em instrumento de vingança. Rebeca — lúcida, culta e irreverente — torna-se o centro de uma disputa que culminará em tragédia. Relações marcadas por lealdades provisórias e traições recorrentes sustentam um universo em que a verdade surge sempre fragmentada — disputada, distorcida e apropriada conforme os interesses de cada um. Este romance, contudo, não se ocupa da revelação de segredos institucionais. O que está em jogo é o secreto como categoria e seus efeitos corrosivos sobre indivíduos frágeis, ambiciosos e inseguros. Narrado em estrutura circular, SOIS? começa e termina no PONTO ZERO — lugar de memória no qual Marcos Silas, bêbado e fracassado, revive sua trajetória diante daquele que conhece todos os seus segredos, à mesa de um bar de esquina. Em SOIS?, passado e presente se confundem, revelando como cada escolha contribuiu para uma perda irreversível de si mesmo.

Disponível na Amazon 

ALQUIMIA & ALQUIMISTAS

ALQUIMIA & ALQUIMISTAS é um estudo introdutório sobre uma das tradições simbólicas mais persistentes da história ocidental. A obra propõe uma leitura clara, histórica e simbólica da alquimia, compreendida como um saber situado entre o laboratório e o templo.
Desde as origens orientais da alquimia até sua consolidação no mundo grego, egípcio e árabe, o livro fala sobre seus grandes mestres históricos, sem excluir charlatães, aventureiros e falsos adeptos. A Pedra Filosofal, seus símbolos, seus estágios operativos e suas controvérsias são revisitados, sem jamais reduzir a alquimia a uma simples busca por ouro ou a um sistema de crenças místicas.
O livro também expõe as relações entre alquimia e maçonaria, suas convergências simbólicas e suas diferenças fundamentais, assim como o destino da Arte Hermética na modernidade. Sem a pretensão de decifrar todos os segredos da Arte, 
ALQUIMIA & ALQUIMISTAS oferece ao leitor uma cartografia confiável — histórica, simbólica e conceitual.
Trata-se de um livro para quem deseja compreender o que foi a alquimia, por que ela atravessou os séculos e por que seus símbolos continuam vivos na literatura, na arte, na psicologia e no imaginário contemporâneo.
Este volume integra a série 
MESTRES DO IMAGINÁRIO: Simbolismo & Imaginação.

Disponível na Amazon