Apesar de a Maçonaria primar por ter em seus quadros homens livres e honrados, bons cidadãos, éticos, que buscam sempre se conduzir na vida da melhor forma possível, ao longo da história ela aparece, para muitos, como uma verdadeira ameaça. Especialmente para determinadas instituições religiosas, que frequentemente enxergaram na Ordem não uma associação filosófica e iniciática, mas uma rival perigosa — às vezes quase um exército das trevas reunido em torno de aventais e símbolos geométricos.
E aqui reside uma curiosidade histórica fascinante: quanto mais a Maçonaria insistia em falar de moral, virtude, fraternidade, caridade e aperfeiçoamento humano, mais alguns setores pareciam convencidos de que havia algo profundamente suspeito nisso tudo. Afinal, homens reunidos discretamente para discutir ética, filosofia, simbolismo e construção interior… claramente só poderia haver algo satânico acontecendo ali. Naturalmente.
A relação conflituosa entre Igreja e Maçonaria não é nova. Em 1738, o papa Clemente XII publicou a primeira condenação oficial contra a Franco-Maçonaria, por meio da bula In Eminenti Apostolatus Specula. O argumento central era que as reuniões maçônicas eram “suspeitas”, secretas e cresciam rapidamente. Em outras palavras: a Ordem estava se tornando influente demais para ser ignorada.
A partir daí, uma sucessão de papas reforçou a condenação. Em 1884, na encíclica Humanum Genus, o papa Leão XIII apresentou uma visão profundamente dualista da história humana: de um lado estaria a Igreja de Cristo; de outro, as forças que trabalhariam contra ela. E foi precisamente nesse segundo campo — o dos adversários da ordem cristã — que a Maçonaria acabou colocada, de maneira bastante explícita.
A acusação era ampla. A Maçonaria defendia liberdade de consciência, separação entre Igreja e Estado, convivência entre homens de diferentes crenças e um ideal humanista que não dependia exclusivamente da tutela religiosa. Para seus críticos, isso equivalia a um ataque direto à autoridade espiritual da Igreja.
Em 1902, por exemplo, J. W. Book publicou Mil e Uma Objeções contra a Franco-Maçonaria, obra aprovada pelo arcebispo de Saint-Louis, nos Estados Unidos. Entre os argumentos apresentados estavam alguns realmente memoráveis. Dizia-se que os maçons não eram “livres”, porque passavam tempo demais fora de casa; não eram “pedreiros”, porque não construíam edifícios; e praticavam uma espécie de religião secreta. Em determinado momento, o autor chega a afirmar que maçons montavam guarda na casa de irmãos moribundos para impedir a entrada de padres. O texto soa menos como análise sociológica e mais como roteiro rejeitado de romance gótico do século XIX.
Outros grupos cristãos também manifestaram resistência. Setores luteranos acusavam a Maçonaria de excluir Jesus Cristo de sua estrutura filosófica. Os quakers condenavam qualquer sociedade secreta, entendendo que isso diminuía a liberdade individual. Entre os mórmons, alegava-se que o vínculo fraternal maçônico poderia competir com a própria autoridade da igreja.
Houve ainda publicações francamente apocalípticas, com títulos como: “Jesus Cristo contra as sociedades secretas”; “Os servos do Diabo”; “O culto de Satanás nas sociedades secretas”; “O deus pagão da Maçonaria”.
Nessa linha sensacionalista, merece destaque o famoso, talvez o mais célebre fabricante de escândalos antimaçônicos da história. Leo Taxil alimentou durante anos o imaginário antimaçônico europeu com relatos extravagantes sobre cultos luciferianos, rituais demoníacos e conspirações satânicas supostamente praticadas no interior das Lojas. O auge da fraude foi a criação da fictícia Diana Vaughan, apresentada como ex-sacerdotisa do satanismo maçônico convertida ao catolicismo. Mais tarde, o próprio Taxil confessaria publicamente que toda a narrativa fora uma mistificação cuidadosamente construída. O detalhe delicioso é que, anos depois, ele confessou publicamente que tudo não passava de uma fraude elaborada para ridicularizar tanto os antimaçons quanto os crédulos que acreditavam em qualquer narrativa fantástica envolvendo bode, pentagrama e avental.
Ainda assim, o imaginário permaneceu.
E talvez esse seja justamente o ponto mais interessante. A Maçonaria sempre ocupou um território desconfortável: discreta, simbólica, iniciática e seletiva. Em tempos de intolerância religiosa ou política, qualquer organização que valorizasse liberdade de pensamento inevitavelmente acabaria despertando suspeitas.
Ao longo dos séculos, reis a temeram, igrejas a condenaram, revolucionários a utilizaram, conspiracionistas a demonizaram e romancistas a romantizaram. E, apesar de tudo isso, ela continua existindo — silenciosa, ritualística e cercada pela mesma aura de mistério que, ironicamente, seus opositores tanto ajudaram a construir.
Talvez porque poucas coisas assustem tanto quanto homens pensando livremente.
Fonte consultada: CYVARD, Mariette. Documents maçonniques – Les 33 degrés du Rite Écossais Ancien et Accepté. Édition du C.R.P., Noeux-les-Mines, 1999.

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