A Segunda Morte

 

O Mestrado é existencial. Não apocalíptico. Não há juízo final, nem anjos, nem trombetas. O Mestrado é o nada, é movimento no vazio. A construção de um Templo que nunca se completa, porque tudo já terminou antes de começar. A maçonaria não pede crença: pede presença e morte. Isso é sacrifício, sim, mas é sempre voluntário.

Morre-se duas vezes. A primeira, no grau de Aprendiz, acontece com o despojamento dos metais. Eles são vaidade, ambição, certezas. Morre-se na Câmara escura. O testamento é aceitação do fato de que há um “eu” antigo que precisa morrer para dar lugar ao novo. É doloroso, mas ainda há a esperança de tornar-se pedra bem talhada.

A segunda morte, no grau de Mestre, mata a esperança de progresso. É o momento em que o iniciado descobre que o que ele conquistou ― as ferramentas, a estrela flamígera, o salário e mesmo a luz interior ― era ilusão. Hiram está morto e não vai ressuscitar como herói. O segredo maior ― a palavra verdadeira ― perdeu-se e não será encontrada.

Carl Jung falava de algo muito parecido quando descrevia o processo de individuação. Para Jung, o ego é o “eu” consciente — aquele que acha que controla a vida, que tem planos, que quer ser bom, forte, iluminado. O ego é útil, mas também é mentiroso: ele se apega à imagem de si. A individuação exige mortes simbólicas. Primeiro, confrontar a Sombra ― os defeitos que a gente esconde. Depois, o confronto com o Self. Nesse momento o ego precisa se submeter. Jung chamava isso de crucificação do ego ou noite escura da alma.  Não há recompensa ou early stopping, porque não se pode parar quando dói ou quando parece que “já se entendeu”. Não há convergência final, mas três catástrofes programadas.

A iniciação maçônica é uma exposição radical à perda e ao vazio que requer autenticidade, resiliência e capacidade de servir sem ser visto.


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