O 3º Livro das Influências Maravilhosas

Pela grafia das palavras, percebe-se que não é uma novidade. O livro é de 1913. Curiosidade total e ainda um texto divertido de ler, pois pretende ser didático. Ensina a defender-se de pragas, maus agouros, quebrantos. Conta casos interessantíssimos sobre vampiros, lobisomens, botânica ocultista, magia aperfeiçoante, etc. Basta clicar na figura aí em cima para vê-la aumentada. Vale a pena notar os detalhes das ilustrações. O renomado Dr. J. Lawrence é empresário, editor e ainda diretor da International University. A ciência que ele se propõe a ensinar na prática, segundo a síntese introdutória da obra, consiste em uma ação física ou oculta que se exerce sobre si mesmo e sobre os outros seres viventes materialmente, e as relações destes últimos com os espíritos desencarnados, ou vice-versa.

O Peregrino, Bosch


A Nau dos Insensatos, Bosch

Aos loucos, todas as indulgências.
A nau dos insensatos é uma alegoria persistente no imaginário. Aqui aparece segundo a versão de Bosch, um dos mais instigantes mestres da pintura. A insensatez como sinônimo de loucura, alienação, coisas que, no cenário medieval, eram associadas ao pecado e, por isso, demonizadas. O louco medieval não pertencia ainda à categoria dos doentes, mas integrava a sociedade como uma espécie de pária, muitas vezes profeta, outras vezes, possesso. Era preciso normalizá-lo, adequando-o à linha de conduta vigente. Não existe loucura, apenas loucos, e neste amplo quadro cabiam e cabem ainda as mais vastas concepções de desajuste, desde os extáticos, passando pelos mansos e indo até os furiosos. A loucura tem uma história, e ela não é, de modo algum, a história dos loucos. Loucos não tem voz. São fundo, não forma. Bodes expiatórios que carregam em suas sacolas todas as negações que afligem aos normais, purificando-os de suas culpas. Loucos e criminosos devidamente isolados, seja pelo hospício, pelo cárcere ou pela medicação silenciam a inconsciênica de todos nós.

Algumas Palavras sobre o Misticismo


De tudo o que consegui ver, ler, sentir e perceber desse estranho universo do misticismo, nada me chamou mais atenção do que o fato de saber que a chamada Tradição não evolui nem se desenvolve. É fixa, apresenta-se como algo inteiramente constituído, com seus princípios, regras e técnicas operativas que, esses sim, ajustam-se temporal e individualmente. A Tradição também não tem dono, não é propriedade de ninguém. Ela se transmite. Não é nem pode ser ensinada formalmente e, de preferência, é através do contato com uma complexa simbologia que se dá a transmição desse conhecimento dito oculto, ou velado à curiosidade dos profanos.
Variam os modos de expressão, variam alguns aspectos da doutrina, mas nada de novo existe para ser descoberto, a não ser no interior daquele que se deixa levar pela simbologia.
Isso significa afirmar que a Tradição não tem propriamente uma história, pois a sua história se confunde com a de seus adeptos e praticantes. Sem dúvida, pode-se segui-la ao longo do tempo, através das práticas, dos ritos, das liturgias manifestadas pelos adeptos que, quer a Tradição, integram uma cadeia. Daí a idéia de que o Mestre, embora solitário em seu mestrado, disponha de recursos que não se limitam ao seu saber individual, pois que também lhe está aberta a cortina ou a passagem que lhe permitirá ter acesso a toda corrente de saber integrada por mestres e discípulos, a chamada cadeia de união, pois nada se perde no domínio das idéias.
Em toda parte, essa filosofia mística traz consigo certas convicções. Dentre elas, a crença numa visão que tudo revela, em oposição aos discursos analíticos que ficam apenas na periferia da realidade. A única realidade que o místico conhece é a sua realidade interior, que ele percebe. Essa visão se traduz como um saber repentino, penetrante, absoluto e inquestionável. Um saber coercivo, que se impõe, onde o mundo exterior perde solidez e apenas a percepção interna, em perfeita solidão, parece completa e confiável. O místico não se satisfaz com o saber comum. Para ele, tudo é apenas uma aparência a ser desvendada e penetrada. Há sempre um mistério, um saber oculto que, quando alcançado, dá ao místico a sensação de absoluta certeza nessa espécie de revelação. Comumente, esse estado tem o nome de iluminação, um modo de conhecer que prescinde dos sentidos, onde a razão e a análise são descartados como guias cegos. Vale para o místico apenas sua realidade interior, e é dela que lhe surgem todas as certezas sobre as quais elabora sua forma de lidar com o mundo, visto este como uma unidade, onde não pode haver desarmonia, o bem e o mal aí não passando de aparência enganosa ou ilusória, assim como o tempo, que não conta em nada no transe místico. Ser uno com universo é uma resultante desse estado de iluminação.
Eu jamais negaria que existe, na maneira mística de sentir, uma sabedoria que lhe é peculiar e exclusiva. Só os místicos conseguem nos transmitir a idéia de que eles podem, sim, sustentar uma idéia sem amparo em qualquer prova, sentido ou evidência que não seja aquela percebida em sua visão interior. Essa obstinação orientou suas vidas e suas obras, e não é sem interesse nos debruçarmos sobre essa temática, ainda que apenas por mera curiosidade profana.

Última carta escrita por Oswald Wirth a l9 de janeiro de 1943


Não poderia ser questão de renunciar à Grande Obra, absorvida por um Ouroboros e digerida por ele. Nós somos ínfimos em relação ao Todo, mas nós aí temos nosso lugar e aí desempenhamos nossa função. Existe em cada um de nós um centro de atividades que se adapta ao emprego que lhe foi assinado. Tornamo-nos aquilo que somos em razão das necessidades do papel que temos de desempenhar, sem que o ator permanente se identifique com o personagem teatral que ele representa de modo transitório. O que é difícil é conhecermo-nos naquilo que somos por nós mesmos, independentemente da máscara que usamos em cena. Quem fomos nós na vida desconhecida que levamos antes de nos encarnarmos e quem seremos depois de nossa liberação do serviço terrestre?... Eu quero muito chegar ao outro lado inteiramente impregnado do papel que acabo de representar. Eu posso não querer me separar dos companheiros que continuam a ter seu papel na peça pelo desfecho da qual eu me interesso. Há liames de afeição que não se rompem entre centros de irradiações psíquicas.Eu creio no amor e em sua indestrutibilidade, quando ele é imaterial. Se eu amo os homens com os quais partilhei as misérias, ao mesmo tempo em que as mais nobres aspirações, eu não posso abandoná-los, uma vez saído dos palcos de luta da vida terrestre. Eu tenho, pois, esperança de permanecer em ligação, uma vez atravessada a última cortina, com aqueles cuja tarefa não está acabada... Recuso-me a renegar meu patriotismo terrestre. Nada de deserção diante da Obra da redenção humana. É amando que nós podemos ser felizes, e eu não vejo felicidade senão no amor que se dá e que contribui para o progresso particular e geral.Tenho a profunda convicção de que eu não estou enganado.

Oswald Wirth

Documento extraído da obra L'Imposition des Mains.

Joseph Paul Oswald Wirth

Joseph Paul Oswald Wirth nasceu a 5 de agosto de 1860, segundo algumas fontes, ou 1865 segundo outras, às 9 horas da manhã, em Brienz, um pequeno burgo suíço de apenas 2.500 habitantes situado às margens do lago de mesmo nome. Eram três irmãos. Dois morreram ainda jovens. Elisa, no entanto, nascida anos depois de Oswald, foi sua companheira mais constante da juventude à morte.
Wirth sempre foi modesto e frequentemente dizia tudo dever a Stanislas de Guaita, místico pertencente à nobreza, muito famoso, que ele conheceu em 1887 e de quem foi secretário. Sobre isso escreveu que: “Estabelecer relações com Stanislas de Guaita foi, para mim, um acontecimento capital. Ele fez de mim seu amigo, seu secretário e seu colaborador. Sua biblioteca ficou ao meu dispor e, beneficiando-me de sua conversação, tive nele um professor de Qabbala e de alta metafísica, tanto quanto de francês. Guaita deu-se ao trabalho de formar-me o estilo, de desbastar-me literariamente. Devo a ele o fato de escrever legivelmente”. Eis aí a dedicatória aposta por Wirth em Le tarot des imagiers du moyen âge, uma de suas obras mais conhecidas.
Mesmo que pudéssemos facilmente nos convencer do fato de Guaita haver ensinado a Oswald Wirth a arte de escrever bem, é inegável que o discípulo igualou, — se não ultrapassou mesmo, — o mestre, ao menos no domínio do simbolismo, sobretudo nessa obra Le tarot des imagiers du moyen-âge, onde retoma o estudo dos arcanos maiores que ele havia desenhado para Guaita. Contudo, de modo geral, Wirth sempre se mostrou bem mais interessado pela Franco-Maçonaria do que pela Rosa-Cruz, ao contrário de seu mestre.
Espírito poderoso, Wirth é considerado um dos mais completos teóricos do simbolismo que já existiram. Com Stanislas de Guaita, analisou o magnetismo em “L’Impositiom des Mains” (A imposição das mãos), o Tarô em “Le Tarot des Imagiers du Moyen Age” (O tarô no imaginário medieval), a astrologia, o hermetismo, o ocultismo sob as suas diversas formas em outras obras, assim como na longa série de seus estudos publicados na revista “Le Symbolisme” (O Simbolismo) e estudou, com o mesmo espírito, o esoterismo da “Serpente Verde” de Goethe e do mito babilônico de “Ishtar”.
É sua obra maçônica, no entanto, a que merece maior admiração e atenção. Iniciado em 1892, ele reagiu corajosamente, desde a sua juventude, contra o abandono lamentável do simbolismo. Sua oficina foi a Loja “Trabalho e Verdadeiros Amigos Fiéis” e, de acordo com suas próprias palavras, foi esta também a “sua Loja de eleição” no seio da Grande Loja de França.
Sua primeira obra, “Le Livre de L’Apprenti” é uma autentica obra prima na parte dedicada à história da maçonaria, bem como surpreendente na abordagem simbólica. Este livro, porém, provocou escândalo e atraiu-lhe a hostilidade rancorosa do Grande Colégio dos Ritos do Grande Oriente de França que alertou as Lojas contra ele por meio de circular confidencial. Mesmo assim, Wirth persistiu e não deixou de publicar o “Livre du Compagnon” e o “Livre du Maître”, depois o “L’Idéal Initiatic” e o admirável “Mystères de L’Art Royal”.
Ao lado de admiradores sem reservas, Wirth encontrou críticos que o condenaram porque ele teria “usado o caráter equívoco dos símbolos para dissimular um pensamento mais profundo sobre o qual não se explica”. Não é de admirar que talvez tenha sido essa a razão pela qual a obra de Wirth não penetrou nas maçonarias anglo-saxônicas, onde o seu nome é pouco conhecido.
Finalmente, não é contestável que ele interprete a mitologia da maneira mais subjetiva, sem levar em conta os dados da arqueologia científica. Mas, em matéria de simbolismo, não se pode exigir objetividade, pois os símbolos são mesmo máquinas de imaginar, atuando como inspiração e sugestão. Sejam quais forem as críticas, Oswald Wirth é não somente um grande iniciado, mas também um grande escritor, cuja linguagem clara e clássica lembra a de seu contemporâneo Anatole France.
Seu “Franc-Maçonnerie Rendue Intelligible à ses Adeptes” (A Franco-Maçonaria Tornada Inteligível a seus Adeptos) (I. Livro do Aprendiz. II. Livro do Companheiro. III. Livro do Mestre) foi reeditado em 1962-63 por “Le Symbolisme” com um excelente prefácio de Marius Lepage. Obtive estas três obras, com grande dificuldade, quase ao final do ano de 2004. Trata-se justamente da última edição francesa.
Oswald Wirth morreu a 9 de março de 1943, às 11 horas, e foi sepultado em Monterre-sur-Blourde, ao sul de Poitie. Deixou uma última carta que, tenho certeza, foi escrita com toda a honestidade e sinceridade da qual pode ser capaz um adepto da Arte Real.
Fonte: Alec Mellor. Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco Maçons. SP, Martins Fontes, 1989, p. 350.

Mestre

O verdadeiro Mestre é discreto: indiferente às honras, ele pode aceitá-las, mas prefere esquivar-se delas. Sua ação é silenciosa, porque o verdadeiro Mestre deixa falar e contenta-se com agir; ele obra modestamente em sua esfera, sem deixar-se perturbar pela agitação dos profanos fantasiados de iniciados. Fiel a seu ideal, limita-se a viver exemplarmente. Aplica-se a bem trabalhar, por puro amor à Arte. Ele não está abandonado a si mesmo. Desconhecido pelos excitados que se debatem sob o aguilhão da cobiça egoísta, ele atrai a atenção e a simpatia dos Mestres efetivos, desconhecidos eles também: sua ajuda fraternal não lhe falta; ela se traduz numa colaboração íntima e constante, contanto que o Mestre trabalhe superiormente.
Quando se inclina sobre a Tábua de Delinear, não é o único a coordenar o plano segundo o qual se deve construir o amanhã. Se está, então, lúcido, não é credor da colaboração de inteligências liberadas do corpo? Sem cair nas puerilidades do espiritismo invocador de fantasmas, é-lhe permitido considerar que nada se perde no domínio das idéias. O pensamento vital permanece vivendo, independente de cérebros que vibrem sob sua ação. Inacessível em sua sutileza transcendente, ele se particulariza, se condensa e se coagula ao apelo dos pensadores; meditando, atraímo-lo para nós, emprestando-lhe uma forma expressiva: tal é o trabalho sobre a Tábua de Delinear.
E assim, se nada se perde no domínio das idéias, resta-nos trabalhar, confiantes na permanência de uma Tradição da qual somos herdeiros, sem nos esquecer, todavia, de que esta tradição não nos pertence, e apenas nos cabe conservá-la em sua mais pura essência, a fim de entregá-la, depois, aos nossos sucessores.
Oswald Wirth

Essências

Promete pouco; cumpre muito.

A palavra falada é como uma abelha: tem mel e tem ferrão.

Não atires uma pedra no poço do qual acabas de beber.

Dois podem carregar três vezes mais que um só.

Os Mistérios da Arte Real

A maioria dos meus livros tem uma história e um significado afetivo maior ou menor. Fato é que uns são mais especiais que outros, pois livros e pessoas têm todos uma personalidade própria com a qual a gente simpatiza, antipatiza, fica indiferente ou até se apaixona. Lembro-me perfeitamente bem do dia em que, garimpando num sebo da Riachuelo, me deparei com este livro. Como era francês, o preço era convidativo e o assunto nunca deixou de despertar em mim algum interesse, comprei-o e deixei-o num canto. Isso foi há mais de dez anos, seguramente. O livro ficou na prateleira reservada aos ácaros do alto do Himalaia, junto com a turma da literatura mística e esotérica, astrologia, alquimia, numerologia, sociedades secretas, rituais, curiosidades sobre extraterrestres, almanaques, enfim, um espaço que fica bem atrás da porta do escritório, a 407, como gosto de chamar essa salinha entulhada de livros, cujo cheiro da poeira misturada à umidade costuma desagradar a muita gente.
Minha história com este livro, assim, não foi de amor à primeira vista. Dei uma olhada rápida e guardei. Olhei a foto. Achei a figura simpática, e foi só. Passou-se um bom tempo e, nos idos de 2000, quando me encontrava às voltas com uma tradução comercial de César Lombroso, senti necessidade de intercalar aquela tradução técnica de trechos extremamente áridos com outra que fosse bem diferente. Descansar de um trabalho com outro, alternando duas obras bem diferentes, distrai bastante e ainda por cima ajuda a manter o ritmo. Pois bem. Peguei Os Mistérios da Arte Real, enfiei-o na bolsa e trouxe-o comigo para casa num final de semana durante o qual decidi me dar uma folga de Lombroso e seus criminosos.
Lembro-me de que abri numa página qualquer e comecei a traduzir, sem outro objetivo que não fosse mandar alguns trechos do trabalho à tribo dos maçons meus amigos, uma vez que se tratava de uma obra pouco conhecida. Não sei quanto tempo trabalhei. Era domingo e eu estava sozinha em casa. Só me recordo de que, num dado momento, ao bater os olhos na barra inferior do Word, e ao me dar conta do enorme número de páginas traduzidas, levei um susto. Era muito mais do eu jamais tinha feito antes. Anoitecera, e eu não percebi. E não estava cansada, nem abatida, nem com os olhos ardendo. Ao contrário, estava leve e estranhamente eufórica, quase contente com a descoberta de uma estética notável. Definitivamente, não se tratava de um aventureiro, mas de um escritor excelente, convicto do que dizia, mas sem a pretensão de impor quaisquer verdades e, menos ainda, a de apresentar-se como mestre ou guru, iniciador ou coisa que o valha.
Foi nessa tarde que decidi adotá-lo. No dia seguinte levei o livro comigo para o escritório, assim como o material traduzido. Mal cheguei, e um querido amigo maçom, JC Miranda, apareceu de surpresa e foi entrando, eufórico, me dizendo: − Baixinha! Tem café? Trouxe um presente para ti! − Bem, a coincidência foi grande. O presente era mais um livro de Oswald Wirth que ele achara num sebo e copiara integralmente para me dar. Bem, já eram dois. Quem ama os livros sabe que essas coisas acontecem. Uma biblioteca tem algum tipo de alma, sim. Vive e se compõe a si própria de maneira que os livros vêm chegando pelos mais estranhos caminhos.
E foi assim que meu o caso com este escritor começou. Hoje ele é um dos meus mais queridos mortos, e tenho por ele um carinho extremo. Em que pese meu agnosticismo e minha completa indiferença em relação às coisas do além, gosto imensamente de ler o que ele escreve e confesso que adoraria conhecê-lo pessoalmente de verdade, não obstante a intimidade que tenho com sua obra e, muitas vezes, com seu pensamento. Sendo assim, eu não poderia abrir as postagens dos Mestres do Imaginário sem contar um pouquinho de Oswald Wirth, escritor ao qual eu devoto profundo respeito, admiração e afeto.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris.

A Vida

E depois, que há de certo? A quem perguntar senão à Vida? Nós nos sentimos viver, e nisso não somos enganados. A vida, ela mesma, é um mistério, o Grande Mistério, o Mistério dos Mistérios. Ela se revela a nós pelo fato de que nós vivemos, sem nos esclarecer sobre sua essência, suas origens ou suas finalidades. A sabedoria quer que nós a tomemos tal e qual ela se dá, esforçando-nos por compreendê-la na medida em que ela é compreensível. Ora, nós dependemos da Vida e não é ela que depende de nós. Ela nos é, pois, superior. A esse título, como admitir que não tenha sentido, uma inteligência que lhe seja inerente? O que constatamos é que ela constrói; ela edifica os organismos. Mas órgão significa instrumento e a fisiologia ensina que a função cria o órgão, ou seja, a vida produz instrumentos adequados ao trabalho vital. Qual é este trabalho senão aquele do qual resulta a criação, esse conjunto de coisas as quais se reportam as sensações. Pouco nos importa a relatividade ontológica daquelas; elas nos revelam aquilo que temos necessidade de conhecer para cumprir a função que a vida assina. Ora, isso é tudo o que nos importa na prática.
O. W.

A Tal da Tradição

Houve um tempo em que, muito jovem ainda, eu me senti confessadamente atraída pela literatura mágica, a qual eu via como expressão de alguma coisa que poucos eram capazes de compartilhar. Essa alguma coisa, na falta de uma palavra mais exata, tornou-se a Tradição, algo tão indefinível quanto a quadratura do círculo ou o Tetragramaton.

Mais tarde, meu convívio com tribos místicas ajudou-me a formar, pouco a pouco, uma visão desse conjunto e, então, todo esse singular emaranhado de crenças desembocou simplesmente em um deserto estéril. Todavia, aprende-se com tudo e em toda parte.

Ultimamente, tenho me voltado ao exame dessas tradições e, sem embargo, tenho mesmo produzido alguma coisa nesse sentido. Daí a idéia de criar mais este blog, dedicado àqueles a quem gosto de chamar de os Mestres do Imaginário, porque, efetivamente, tivessem ou não razão naquilo que afirmaram, fato é que foram convictos de suas verdades e, com ela, fizeram discípulos, assim como amigos, admiradores, bajuladores, perseguidores e inimigos. Alguns têm nome e existiram de fato. Há os que foram inventados. Muitos se tornaram lendários. Outros foram para a fogueira, mas, enfim, sobreviveram todos, seja imortalizados no imaginário, seja na tal Tradição.

O que vou fazer aqui é contar o pouco que aprendi de cada um, expor seus hábitos, suas inclinações, crenças, convicções, algo de suas vidas e de suas aventuras, assim como seus magníficos delírios, sempre entremeados de uma lucidez que, muitas vezes, me deixou perplexa e emocionada.

Afinal, a vida também é feita de imaginação, sonhos e fantasias. E, se for assim, delirar um pouco pode ser saudável e, por certo, não vai levar ninguém ao manicômio.

Pra quem tiver paciência, boa leitura!