O sentido das representações


Construir sentidos para as representações que Bosch coloca em seus trabalhos constitui-se em um dos mais instigantes desafios à nossa intuição. A racionalidade empobrecida se recusa a admitir que o imaginário possua sentidos ou significados relevantes; paradoxalmente, as formas e as cores atuam sobre nós, e todas as aberraçãos contidas na tela terminam por conformar uma nova estética, um novo olhar, novos olhos que se abrem em nossa própria interioridade.

A Túnica de Nessus

...trata-se do mito da túnica de Nessus. Para que Héracles se
unisse a ela pelo amor e pelo desejo, Dejanira envia-lhe uma magnífica túnica que
tinha recebido de Nessus, embebida num filtro de amor; tratava-se, porém, dum
filtro de morte, de tal modo que Héracles sentiu o seu corpo envenenado e as veias
queimadas por uma chama inextinguível. O suicídio de Dejanira foi inútil. Somente o
pôde salvar a sua transfiguração sacrificial pelo fogo no monte Oeta onde, todavia,
sofreu a fulminação divina; através dela foi Héracles transportado para o Olimpo
onde desposou Hebe, a juventude eterna. [...] A mulher elementar que se evocou, absorveu e se fez entrar no íntimo, pode transformar-se no princípio duma sede mortal e inextinguível. Nesse caso, só o fulminar olímpico poderá reconduzir ao objetivo original, imortalizante da união.

Július Évola, A Metafísica do Sexo

Souberas...

Oh! Souberas quantas coisas dizem sobre o século vindouro, tiradas da Astrologia e dos nossos profetas! Afirmam que em cem anos a nossa época contém mais feitos memoráveis que o mundo inteiro em quatro mil; e que neste último século se editaram mais livros que nos cinqüenta anteriores. Falam também da maravilhosa invenção da imprensa, da pólvora e da bússola, coisas estas que constituem outros tantos indícios e instrumentos da reunião de todos os habitantes do mundo em um só redil. Expõem igualmente como tudo isso aconteceu enquanto tinham lugar grandes conjunções no triângulo de Câncer e no momento em que a ápiside de Mercúrio se adiantava a Escorpião, sob a influência da Lua e de Marte, com o seu poder para uma nova navegação, novos reinos e novas armas. Mas, quando a ápiside de Saturno entrar em Capricórnio, a de Mercúrio em Sagitário, e a de Marte em Virgo, depois das primeiras grandes conjunções e após o aparecimento de uma nova estrela em Cassiopéia, surgirá uma nova monarquia e reformar-se-ão as leis e as artes, ouvir-se-ão novos profetas. Texto de 1602, de CAMPANELLA, da obra UTOPIAS DO RENASCIMENTO, México: Ed. Fondo de Cultura Economica, 1941. P. 202, in SARAIVA, Antônio José. História da Cultura em Portugal, Lisboa: Jornal do Foro, 1955, Vol. II, p. 15/16.

Invidia

Os gregos fizeram da inveja um deus, pois a palavra phthonos, que exprime esse defeito em grego, é uma palavra masculina; para os romanos, porém, era uma deusa chamada Invídia, palavra que deriva do verbo que designa olhar com maus olhos. Romanos e gregos, uns e outros, para se garantirem contra esse olhar, recorriam a várias práticas que hoje teríamos por supersticiosas. A inveja era representada como um velho espectro feminino de acentuada magreza. Sua cabeça e mãos eras cercadas de serpentes, os olhos eram fundos e estrábicos, a tez era lívida. Algumas vezes aparecia ao lado de uma hidra de sete cabeças. Uma cobra roía-lhe o coração.

Necrópole



Sonhar que se mora numa cidade nova e desconhecida significa morrer dentro em breve. De fato, os mortos habitam algures, não se sabe onde. Gerolamo Cardano, Somniorum Synesiorum, Basilea, 1562, I, 58, in Eco, Umberto, O Pêndulo de Foucault, Record, Rio de Janeiro, 1989, p. 349

Interpretar o Mundo?

Sabedoria e loucura aparecem na natureza élfica como uma só e mesma coisa; e o são realmente quando a anima as representa. A vida é ao mesmo tempo significativa e louca. Se não rirmos de um dos aspectos e não especularmos acerca do outro, a vida se torna banal; e sua escala se reduz ao mínimo. Então só existe um sentido pequeno e um não-sentido igualmente pequeno. No fundo, nada significa algo, pois antes de existirem seres humanos pensantes não havia quem interpretasse os fenômenos. As interpretações só são necessárias aos que não entendem. Só o incompreensível tem que ser significado. O homem despertou num mundo que não compreendeu; por isso quer interpretá-lo.
Jung
Imagem: Wikipedia Commons

Segmento


Igrejas são sempre solenes. Ainda as mais simples sempre têm alguma imponência, algum mínimo resquício de grandeza em seus prédios.