Tua partida

A maltratada planta padece em um balde plástico. Improviso meu. Não tenho esse espírito verde. Não é incomum que me esqueça das poucas plantas que tenho, quanto mais a romãzeira, ex-bonsai, desengonçada muda que troquei do vaso original para um balde, ex-lixeira, hoje quase esquecida na sacada. Entre o morre-não-morre, contudo, parece que preferiu o bem-me-quer, porque floriu, ou vai florir. São já tantos botões. Seriam mais, se eu contasse o primeiro que, há alguns dias, destruí sem querer, de tanto espanto. Logo a romãzeira. Logo ela, meio morrida, meio matada, agora me floresce, ainda floresce, mesmo depois de meu gesto desastrado e brutal. Impossível não pensar, por isso mesmo, no outro gesto, desastrado e brutal também, que te levou embora, definitivamente. De mim, já havias partido, e nunca soube direito o que fazer do teu lugar, porque volta e meia estavas ali, bem ali e bem aqui, entre livros e músicas, os melhores que já conheci, assim como contigo foram os dias, — agora eu sei —, os melhores que já vivi, porque foram todos os dias da minha juventude. Tanto tempo longe, na distância do estranhamento dos que a vida separou. Saber então da tua morte, saber que ela não foi em paz. Tragédia ou destino, quem sabe, porque a paz dos rebanhos não seria nunca uma ambição tua. Tristeza. Mas tristezas são já quase banais para mim, agora que fiquei por último, despossuída de quatro décadas de vida, memórias escritas nas areias do mar. Tornada alma desgarrada, olho em volta. Busco sinais. Afinal, sempre havia planos, chamados, esperas. Agora não há mais. Exceto a romãzeira, a prometer florações e, quem sabe, até improváveis frutos. Exceto esta minha frágil romãzeira, que agora me parece tão misteriosa e mágica quanto a Esperança, remédio dos desenganados, eu sei. Logo ela, de longe aparentada com a Acácia, esta que tu conhecias tão bem. 

 

Efeméride

Hoje é aniversário da morte de Oswald Wirth, que aconteceu em 9 de março de 1943, às 11 horas. Foi coincidência lembrar disso, ao rever uma postagem que fiz aqui em 2009. Sinto falta do tempo em que Wirth era, para mim, uma leitura constante. Sinto muita falta. Estranhamente, ia dizer agora que era uma leitura esperançosa. Mas não se trata da esperança, absolutamente. Trata-se de sua perda. Ocorreu-me, contudo, o sentido da morte, e a metáfora dos tempos em que se vive sem mestres. A saber do cadáver. A saber da carne que se desprende dos ossos. 



Para pensar o Natal

“Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado. Lá como quem diz: então alguém havia de renegar o nome de Belém – de Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no presépio, com Nossa Senhora e São José?! Precisava de se ter mais travação. Senhor sabe: Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele...”

GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 52

Para o governo da vida

“Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao no me a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, anda riam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus?”

SARAMAGO, José. In nomine Dei. Alfragide: Editorial Caminho, 1993.


Templos


 Cúpula da catedral metropolitana de Porto Alegre.

Templos





Igreja que fica na Praça Central de Tapes, RS. Talvez duas ou três horas, não mais que isso, passeando pela cidade. No descritor: sossego. Na impressão: capricho, mas não intencional. As linhas se harmonizam por si. Um ar de nostalgia. O anoitecer inspiraria notas num violão sem pretensões a nenhuma plateia. Então o impacto: uma lagoa, um final de tarde de céu aquarelado, barcos, e tudo acaba quase em cartão postal.
Moral da história: é indo não sei onde que se encontra não sei o quê.

De antigamente

 

Meus avós tinham uma pasta grande, cheia de papeis e outros mistérios. Havia algumas gravuras ali. Uma das que conservo é esta, do clássico anjo da guarda que protege um menino e uma menina que atravessam uma ponte insegura, cruzando águas revoltas que se confundem com as vestes do anjo. A menina protege o menino, e tenho a impressão de que cuida dele e procura acalmá-lo. Um chavão? Sem dúvida. Esteriótipo? Sim. Diria que é kitsch mesmo, mas nem por isso deixa de ser um clássico do imaginário.

A Morte e as Águas

“Tudo o que vive surge das águas, como o sol, e para lá retorna ao anoitecer. Nascido das fontes dos rios e dos mares, o homem, após a morte, alcança as margens do Estige para realizar a travessia noturna. Seu desejo é que as águas escuras da morte se tornem águas de vida, que a morte e suas garras frias sejam útero, assim como o mar, quando engole o sol, confortando-o em sua profundeza.”

JUNG, Carl Gustav Jung, Wandlungen und Symbole der Libido, 1912. Trad. it. La libido: simboli e trasformazioni, Torino: Boringhieri, 1965, in: MORIN, Edgar. L’UOMO E LA MORTE. Trad. de Riccardo Mazzeo .Trento: Edizioni Centro Studi,  2014, p. 128.