O Tédio


Há um parentesco íntimo entre a satisfação e a morte. Em qualquer domínio que seja, mas talvez sobretudo no domínio espiritual, um ser satisfeito, um ser que declara a si mesmo que ele possui tudo o que lhe é necessário já está em via de decomposição. É muito frequentemente da satisfação que nasce esse tédio da vida, esse desgosto secreto que cada um de nós pôde experimentar em certas horas, e que é uma das formas de corrupção espiritual mais sutis.
Gabriel Marcel. Être et avoir. Ed. Aubier, Paris, 1935, p. 317.

Batei e abrir-se-vos-á


Desvincular-se é solitário, e a solidão, por si mesma, exclui, separa, desvincula, consagrando o trauma edênico inscrito no imaginário desde a expulsão do Paraíso e o Pecado Original. Às vezes a gente silencia, até para poder ouvir e entender a si mesmo. Depois? Bom, depois passa.

E é bom quando alguém bate três vezes.

Ácaros Iniciáticos


Eis aí uma das prateleiras da 407 reservada, em sua maior parte, à moradia de ácaros com pretensões a deter a sabedoria iniciática. Vivem bem aí já ao longo de muitos anos.

Aos Iniciados do 2º Grau

Queridos Irmãos,

Uma vez cumprido vosso período de aprendizagem, vós fostes julgados capazes de colaborar utilmente para a Grande Obra da Construção universal.

Eis que fostes admitidos dentre o número de Obreiros que sabem trabalhar: uma obra pode doravante vos ser confiada; vós não faltareis em executá-la fielmente, segundo todas as regras de nossa Arte.

Mas, para que sejais dignos da confiança que vos foi testemunhada, é indispensável que vos torneis verdadeiros Companheiros.

Não é suficiente, com efeito, — para possuir efetivamente um grau maçônico, — havê-lo recebido ritualisticamente.

Nossas cerimônias não têm nenhuma virtude sacramental, e nenhuma consagração tem o poder de fazer um Maçom, porque, em toda iniciação efetiva, o iniciado se faz a si mesmo. Os ritos iniciáticos não têm outro papel a não ser aquele de traçar um programa.

É assim que as provas do grau de Aprendiz deveram incitar-vos a vos transformar interiormente, de maneira a realizar o ideal do Iniciado de primeiro grau.

Se vós houverdes compreendido todo o alcance das formalidades que sofrestes para receber a luz, vós a possuís, efetivamente, e, por este fato, fostes iniciados — implicitamente, é verdade — em todos os segredos da Franco-Maçonaria.

Procedendo sempre por síntese, nossa instituição, essencialmente filosófica, prefere, com efeito, encerrar o todo na parte.

O primeiro de seus graus é, desse ponto de vista, tão bem coordenado, que poderia permanecer único, se nosso espírito tivesse o poder descobrir tudo aquilo que ali se contém.

Mas nossa penetração espiritual está longe de ser sempre genial.

As exigências da vida moderna deixam poucas oportunidades para a meditação, de modo que contraímos o hábito de nos mantermos na superfície das coisas.

Ora, para descobrir as verdades iniciáticas é preciso aprofundar e obrigar-se a esforços perseverantes que se fazem graduais, a fim de virem em auxílio à fraqueza humana.

A Maçonaria confere, por conseguinte, a iniciação integral em três graus, que marcam o mesmo número de etapas destinadas a conduzir progressivamente ao conhecimento iniciático (Gnose).

Este conhecimento é uma conquista por demais árdua para que sua assimilação possa efetuar-se seja em uma, seja mesmo em três vezes.

Eis o que justifica a multiplicação dos graus maçônicos.

Todas as hierarquias têm nisso o mesmo objetivo.

Qualquer que seja o número dos escalões interpostos, a distância a vencer permanece a mesma.

Trata-se sempre de partir da Aprendizagem para chegar à verdadeira Maestria.

Mas entre esse começo (nascimento ou renascimento iniciático) e este fim (morte, transformação, renovação) estende-se toda a vida maçônica figurada pelo Companheirismo.

Vós fostes, pois, chamados a viver de maneira maçônica, ou seja, conformando todas as vossas ações ao ideal (Estrela Flamígera) que deveis trazer em vós mesmos.

Não vos esqueceis, sobretudo, de que o grau de Aprendiz é a base de toda a Maçonaria. É sobre o seu estudo aprofundado que se fundamentam todos os progressos ulteriores.

É preciso voltar sem cessar a esse ponto de partida, se quisermos avançar.

O primeiro grau é a chave de todos os outros.

Por altamente graduado que seja um Maçom, se ele ignora o esoterismo do Grau de Aprendiz, ele não possui, em Maçonaria, nenhum conhecimento efetivo, e todas as fitas com as quais ele se enfeita não são senão vãs futilidades!

O segundo grau é, aliás, a consagração do primeiro, no sentido de que o Aprendiz, — pelo único fato de que realizou progressos suficientes como tal, — é admitido na classe dos Obreiros ou Companheiros. É o acabamento de sua aprendizagem que lhe vale seu aumento de salário.

Por longe que possamos ir, saibamos, enfim, permanecer sempre Aprendizes, porque não devemos nunca haver terminado de aprender.

Convencido de que o verdadeiro sábio não saberia cessar de estudar, o ilustre Chevreul dizia-se estudante, mesmo quando era mais que centenário.

Lembremo-nos deste ensinamento e não deixemos jamais de trabalhar para nosso próprio aperfeiçoamento, tanto intelectual quanto moral.

Eis aí esta Aprendizagem incessante que deve ser perseguida com perseverança, porque, sozinha, confere o verdadeiro Companheirismo, isto é, o poder de ação fecunda e de realização verdadeiramente prática.

Assim, queridos Irmãos Companheiros, repassai com cuidado tudo aquilo que vos foi ensinado antes; atei-vos depois aos enigmas que vos são propostos por vosso grau atual.

Com o auxílio de vossa luz interior, chegareis a vencer todas as dificuldades, por formidáveis que elas sejam.

Se já o verdadeiro Aprendiz Maçom é um sábio como se encontram poucos dentre os homens, que será o Companheiro, esse pensador esclarecido, armado da poderosa soberania da ação?

Sobretudo, não desencorajeis!

Tenhais o heroísmo dos Companheiros de Jasão que ousaram embarcar com ele para ir conquistar o Tosão de Ouro.

Contai com vossa sagacidade, apelando às energias mais profundas de vossa vontade!

Nada obtereis, se medirdes vossos sofrimentos; mas podeis aspirar a tudo, com a condição de prosseguir em vossa obra sem desfalecer, aí colocando toda vossa alma!

Oswald Wirth, 1931.

Rituais Maçônicos

O que mais me incomoda em Maçonaria é a facilidade com que ela é encarada por alguns como sendo um sistema que se preste à magia, à manipulação de forças que se encontram fora do alcance do comum dos mortais, o caminho que conduz à imortalidade, a chave que abre as portas do sucesso, a panacéia universal que cura, faz e acontece. Já escrevi muito sobre isso e até mesmo criei um personagem, um Mestre Maçom absolutamente bizarro que aparece num romance que algum dia ainda termino de escrever. Mas, ― devo entender, ― tudo isso faz parte do próprio contexto lendário, do próprio caráter iniciático de sua doutrina que vem dissimulada sob símbolos cujo significado deve ser procurado, mas que nem sempre é encontrado. Não se conhece a Verdade, mas, nem por isso, ela nos atrai menos.

Já achei até mesmo quem chegasse a encontrar na simbologia maçônica a confirmação de complexos sistemas conexos ao tantrismo, onde o sexo entra em toda parte. Vêem o falo em qualquer lugar: no iod, no pedestal onde se ergue o Livro da Lei, por exemplo, a partir da opinião de que a Loja representaria o corpo de um homem deitado. Ao ouvir, respeitosamente, a explanação de tal teoria, ousei perguntar ao meu interlocutor se homem estava de deitado de barriga para cima ou para baixo. Bom, ele não me respondeu. Naturalmente, uma pergunta assim só poderia ter saído do cérebro de uma profana...

Ah! — dizem alguns, — maçonaria é magia, mas não é magia vulgar! É “alta magia”! Ah! São tradições antigas que se perderam na tal da “noite dos tempos”! Então vêm as explicações, as analogias, as relações planetárias, as suposições, as iluminações. São as buscas, as procuras, o exercício da Arte de Pensar! Tolerância é tudo. E, afinal, isso é maravilhosamente lúdico. Depois vêm os Mestres que teriam “contatado” os outros Mestres e deles recebido diretamente a “mensagem” ou a "luz". Vêm todos e despejam sobre nós suas impressões pessoais, suas convicções fanáticas, e tentam nos converter em crentes, isso quando não reúnem grupos internos e reclusos e pregam sua “doutrina”. Antes permanecer no escuro onde se tateia com algum êxito, do que cegar-se diante de alguma luz pirotécnica. Mas... como esse saber vêm muitas vezes de Mestres Maçons regularmente inscritos em uma Ordem, reconhecidos como "os tais" e com carteirinha "em dia", sabendo fazer os sinais, conhecendo os toques e as palavras, lá vêm eles! Deixemos que falem, que preguem, enfim!

Está certo! Isso tudo faz parte da coisa, afinal, a Maçonaria é única instituição que prevê sua própria queda. O Mestre observa o Ritual, chama a atenção dos obreiros a respeito de algumas relações, mas limita-se às instruções iniciáticas. Quando dá uma opinião pessoal, deixa bem claro que é pessoal. Ele não cruza os braços, todavia, nem mesmo diante do inevitável. Se a Tradição está morta, nem por isso desapareceu. Ele a resgata, e o faz, buscando-a em toda parte.

Muito bem. São duas atitudes: instruir os ignorantes, e não cruzar os braços diante do inevitável, ainda que este seja a resultante do sectarismo fanático, eis aí duas missões verdadeiramente desafiadoras. Instruir sem nada inculcar, quando se fala em termos rigorosamente maçônicos, constitui-se numa das mais espinhosas missões que se pode propor a um Mestre, porque ele deve se esquecer de quem é para agir como instrutor. Então, nenhuma de suas convicções pessoais, — sejam elas de ordem filosófica, política ou religiosa, — podem ser transmitidas aos seus Irmãos. Ele deve limitar-se a indicar o caminho mais seguro, e, antes de tudo, alertar sobre a necessidade de saber despojar-se dos metais. Esse caminho, entretanto, ele mesmo não pode vangloriar-se de conhecer bem. Não conhecer é ignorar; conhecer mal é errar. Tornar-se convicto do erro é fanatizar. Assim, o Mestre tentará sempre evitar o erro, especialmente o mais grosseiro, porque o erro é a própria verdade falseada.

Mas, se o erro é a própria verdade falseada, então, quando se está diante do erro, deve-se ter cautela ao agir. Não se trata de sentenciar simplesmente “fanatismo!” ou “ignorância!” e sair por aí desqualificando a tudo e a todos! Isso seria dar abrigo às ambições pessoais, coisa muito pior que ser ignorante ou fanático.

É que é mesmo muito difícil instruir sem inculcar. Além de Wirth, bem poucos conseguiram isso. As Instruções que constam no três Rituais empregados em Lojas Simbólicas são todas o fruto do trabalho de Oswald Wirth. Toda Maçonaria, tal e qual nós a conhecemos hoje, não apenas como uma Instituição em particular, mas em todas aquelas que se reconhecem como dignas de desfrutar da condição de Potências Irmãs em língua latina, todas elas apresentam aos seus membros instruções nos três graus elaboradas a partir do que nos deixou Oswald Wirth.

Onde eu entro nisso? Em parte alguma. Sou curiosa. Uma goteira. Conheci a Instituição a partir das instruções que encontrei em Rituais coletados em sebos e também junto a muitos membros da tribo que me são próximos e caros amigos. Fora disso, encontrei ainda muita coisa, é verdade, mas nem tudo poderia ser considerado tradicional, ainda que não procurasse por nada disso.

A melhor coisa que me aconteceu, em matéria de Maçonaria, foi ter tido a honra de resgatar Oswald Wirth do esquecimento junto ao meu pequeno círculo de amigos, de um silêncio que praticamente já se impunha sobre ele. Basta dizer que sua obra nunca foi traduzida para o português, omissão que tive a chance de reparar.

Poucos podiam ler o que ele escreveu, poucos sabem que as chamadas instruções foram compiladas por ele! Há maior credor de homenagem? Existe quem mereça mais respeito? Ele acompanha os neófitos desde sua Iniciação, e muitos nem mesmo sabem seu nome e conhecem o resto de sua obra. Wirth me entusiasma, enfim. Ironia do destino não ser eu daqueles “notáveis intelectuais” cuja sabedoria impõe silencioso respeito. Nem por isso me omiti. Com ou sem “intelectualidade”, foram mais de mil arquivos virtuais que andam por aí, assim como a tradução integral de “Os Mistérios da Arte Real” e, logo depois, do “Ideal Iniciático”, Tarô e outros que ainda estão por terminar.

O que há de mais próximo da objetividade, em matéria de Maçonaria, está nos Rituais. Se eles foram alterados, se eles sofreram acréscimos, se eles são ou não são de maior ou menor valia, isso não depõe contra o seu valor. Se devem ser retificados? Não sei. Mas “retificar” não é destruir! Ou será que ninguém mais se lembra do acróstico VITRIOL?

Confesso que jamais me ocorreu que eu seria testemunha de algo que vem acontecendo atualmente: a iniciativa de alguns em voltar ao catecismo, retirando dos Rituais as Instruções. Já vivi para ver a curiosa decisão que criou as “separatas”, mutilando o Ritual, mas ainda não ousando arrancar-lhe os membros. Apenas uma “paralisia” terapêutica parece, que visa a evitar a “curiosidade”, a sã curiosidade que leva os obreiros a ler as instruções, o que seria uma prática “nociva”. Parece que ninguém pensou que o pior que pode acontecer, não é o fato de um Aprendiz ler o Ritual, e isso quando ele lê! Ler o Ritual é algo que fará sempre em Loja! Ler o Ritual é instruir-se, é, no mínimo, ter maior intimidade com Maçonaria! Se não dispusesse dos Rituais e suas instruções? O que iria ler? Certamente, muitas “opiniões” pessoais, e muita coisa que, nem de longe, seria Maçonaria. O Rituais são a maior herança da instituição.

Sei que há muitos que até desprezam as Instruções como perfunctórias, primárias, insipientes. São opiniões que respeito. Já ouvi de alguns Mestres comentários pouco lisonjeiros a respeito das instruções que vieram acompanhados desta observação: — Já pensou, como iniciar na Maçonaria um ocultista “profundo”? O que ele pensará de nós ao ler esses Rituais? São ingênuos... — Pode-se ser maçom sem instrução? Claro que sim. Afinal, o homem é primeiro tornado maçom e só depois é instruído, não é mesmo?

Bem, eu me inclino pela preservação da herança que consiste nas tais ingênuas compilações chamadas Rituais. Eles merecem respeito. As tais Instruções são absolutamente perfeitas? Não. Sofreram alterações? Sim. Houve acréscimos? Existem imperfeições, erros, imprecisões? Sim, sim e sim! Mas nada disso depõem contra o conjunto das Tradições que ali se encontram compiladas! Nem por isso se vai agora defender a eliminação das Instruções, reduzindo os Rituais ao catecismo! O que seria de uma escola, como diz Wirth, onde os alunos iletrados resolvessem, em razão de sua ignorância, eliminar o alfabeto?

O que são arcanos, afinal?

O que comumente se entende pela palavra arcano é um segredo de ordem mágica, algo oculto ou, no mínimo, algo não-explícito ou antes implícito, inerente a dado sistema. Os ditos arcanos corresponderiam à tradução aproximada [ou implícita] de um mecanismo tido como secreto, inerente à natureza, permitindo, todavia, entrever-se o seu funcionamento. Assim, por exemplo, no Tarô, os arcanos estariam representados por desenhos que teoricamente estimulariam a imaginação de leitor, sugerindo-lhe a realização de um trabalho de meditação e aprofundamento. Na Cabala, estariam representados nas propriedades do alfabeto hebreu, espécies de energias circulantes na chamada Árvore da Vida. Os alquimistas, por sua vez, têm para eles que os arcanos estariam expressos em diferentes níveis da realidade, nas mais variadas combinações das substâncias químicas, aí incluídos nossos humores bem como nossos desejos.

O Arcano XV

Não nos esqueçamos de que é o DIABO que nos faz viver materialmente. Ele nos arma para as necessidades desta vida de luta perpétua, de onde os impulsos que não são maus em si mesmos, mas entre os quais a harmonia deve ser mantida, se não quisermos cair sob o jugo dos pecados capitais que se dividem entre aquilo que poderíamos chamar de os departamentos ministeriais do governo infernal. Moderemo-nos em todas as coisas, e nós nos oporemos às discordâncias que, sozinhas, tornam-se diabólicas. Contenhamos nosso ORGULHO, a fim de que ele se traduza em DIGNIDADE, essa nobre altivez que inspira o horror a toda degradação. Domemos nossa CÓLERA, a fim de que ela se traduza em CORAGEM e em energia ativa. Não nos abandonemos à PREGUIÇA, mas concedamo-nos o REPOUSO necessário à reparação das forças despendidas. Não temamos mesmo repousar preventivamente à vista de um esforço a produzir. Os artistas e os poetas podem ser preguiçosos de maneira frutífera. Evitemos a GULA: é degradante não viver senão que para comer; mas, para viver com boa saúde, escolhamos nossos alimentos e apreciemos suas qualidades gustativas. Repilamos o odioso demônio da INVEJA que nos faz sofrer com o bem de outrem, mas oponhamo-nos, no interesse geral, às monopolizações ilícitas e aos abusos do poder. Não caiamos na AVAREZA, mas sejamos PREVIDENTES e pratiquemos a economia sem desdenhar o honesto amor ao ganho, estimulante eficaz do trabalho. Quanto à LUXÚRIA, pela qual se exerce a mais poderosa dominação do DIABO, é preciso opor-lhe o RESPEITO religioso ao augusto mistério da aproximação dos sexos. Cessemos de profanar aquilo que é sagrado.
Oswald Wirth

Morte

A Morte é uma vivência constante. Cada desilusão nos mata um pouco e deixa no lugar uma escuridão a mais que luz alguma pode iluminar. Acho que é por isso mesmo que se vive tão urgentemente às vezes, antecipando as perdas, e fazendo qualquer coisa para manter a ilusão, ainda que seja às custas de um ostensivo, dispendioso e belo monumento de bronze, homenagem última a quem partiu, cedo ou tarde, deixando um nome, uma saudade, um querer. Morrer, porém, não é privilégio dos mortos, porque morremos em vida também, quando somos esquecidos ou mudados, quando somos desencontrados enfim. Morremos ainda quando nos deixamos lá atrás, no passado. Vieira falava disso em termos literários, ele que afirmou que vivia com privilégios de morto, não tendo ninguém a quem sua presença fizesse falta ou sua ausência, saudade.
Vida e Morte são irmãs, ambas inspiradoras do homem que, através de seu sentir, as simboliza e materializa em formas artísticas, como que encantando o espaço disputado ao tempo, tanto quanto cada segundo de vida que disputa à morte ao lhe conferir um sentido.
Vida só é vida se faz sentido.
Vida que não faz sentido, não é vida, mas morte.

Esperança, o Deus dos Deuses

O homem, há perto de dez mil anos, entrega-se à arquitetura de templos, os mais variados, ali prcurando encontrar Esperança, o maior dos remédios criados para aplacar a angústia de sua existência, empregando nisso todos os esforços e mesmo sua própria vida. Os templos revelam, a seu modo, a sociedade que os constrói. São uma forma de expressão altamente reveladora. Mesmo não sendo religiosa, gosto de penetrar nesses monumentos, ora simples, ora grandiosos, e ali observar e sentir o ambiente, observando as pessoas, as linhas, as criaçoes artísticas, o estranho clima que torna o interior desse edifícios tão diferente do que seu exterior. Cada um é único a seu modo, fruto do empenho de gerações de homens que se eternizam através de suas obras.

O Sagrado


"Aquilo que, na música, pode ser compreendido por conceitos não é a própria música. Conhecer e compreender com a ajuda de conceitos não é a mesma coisa; ao contrário, frequentemente são coisas que se opõem e se excluem reciprocamente. A obscuridade misteriosa, que conceito algum pode dissipar, que cerca o numen significa nada menos que a impossibilidade de conhecê-lo. O Deus absconditus et incompreensibilis não era para Luthero, seguramente, um Deus ignotus. Ele O conhecia muito bem, com todo o pavor e o tremor de sua alma temente. Do mesmo modo o apóstolo Paulo conhecia a paz em sua incompreensibilidade e acima de toda razão".
Não se pode compreender Deus, mas se O sente, — disse Luthero.

OTTO, R. Le Sacré. L’Element non-rationnel dans l’idée du divin et as relation avec le rationnel. Paris, Payot,1949, p. 184.

Vaidade das Vaidades


Em todos os tempos, têm existido charlatões pontífices e hierofantes: prometem dar-nos uma ciência infalível, um poder ilimitado, a riqueza neste mundo e a felicidade no outro. Eles existem também em Maçonaria. Não pedem, em troca, mais que a confiança absoluta em suas palavras e serem reverenciados como semideuses. Inumeráveis são os que se deixam enganar e jactam-se de ser iniciados depois de chegarem a assimilar algumas doutrinas e de aprenderem a contentar-se com as miragens de certos fenômenos que mais pertencem à patologia. Mas as teorias que tudo explicam e os desequilíbrios psicofisiológicos nada têm a ver com a Verdadeira Iniciação. Esses charlatões permanecem todos na posse de seus metais...
Oswald Wirth