A Velhice do Padre Eterno



CIRCULAR
(Fragmento)

Deus & Filho. Bazar da fé. Venda forçada.
Pela barca de Pedro, a Judas consignada,
Chega um rico sortido em modas da estação.
Vêr para crêr! Surpreza! Attenção, occasião
Unica! aproveitai, comprai! Pechincha certa!
Ao bazar do Calvario! Ao Nazareno! Alerta,
Christãos! É o desfazer da feira. Ultimo dia!
Toda a casta de objecto ou de quinquilharia
Que esteja em relação com negocios de egreja.
Vellas especiaes para quando troveja,
Aplacando de prompto a colera divina.
Sem cheiro e sem mistura alguma de stearina.
Santa Barbara, a quem a fé christã se roja,
Quando atrôa, não gasta as vellas doutra loja,
Nem outras recommenda o concilio de Trento.
Em pacotes de seis. Por junto abatimento.
Agua de Lourdes, fresca. Em pipas, ao quartilho
E em garrafa. Exigir a marca;Deus & Filho;
[104] Na etiqueta, e na rolha, a fogo;Providencia;
Genuina só a ha á venda nesta agencia.
Dez annos de successo e mil milhões de curas
Efficaz contra a caspa e contra as mordeduras
De cobra cascavel ou cão damnado ou pulga
Ou percevejo. Faz, Tartufo assim o julga,
Nascer ao mesmo tempo o apetite e o cabello,
Bôa no hemorroidal e util no serampello.
Reumatismos, terçãs e outras molestias varias
Cura-as num prompo. Expulsa as bichas solitarias
E expulsa o Demo. Purga: os ventres desentupe-os.
Sem colicas, com tres ou quatro semicupios.
Em cegos de nascença e tisicos de peito
Isso então é instantaneo, é certo o seu effeito.
Uma perna amputada unta-se, e em dois instantes
Torna a crescer e fica inda maior que dantes.
Em leicenços não falha. Em dôr de dentes, isso
É bebel-a e ficar sem dôr. Não ha feitiço
Que resista. Uma vez uma morta tomou-a,
Espirrou e ficou inteiramente boa!
Prevenimos no entanto o publico defuncto
Que casos destes ha uns trinta e dois por junto
Apenas. Endireita a espinhela cahida,
Extrae callos, reduz fleimões, prolonga a vida,
Marca a roupa, e sem damno algum e sem fedor
Tórna o cabello e a barba á primitiva côr.
Reliquias. Sortimento a capricho. Em ossadas
Dos apostolos, hoje as mais acreditadas
No mercado, chegou variedade infinita,
Cabeças de S. João, só vendo se acredita,
[105] Onze mil! onze mil, e damol-as sem ganho!
Os preços é segundo o feitio e o tamanho.
(E convem declarar e advertir desde já
Que ossos de imitação não se encontra por cá.
Atestados legaes e autenticos o provam.)
Ha um monumental e rico S. Christovam,
Oito metros de largo e uns oitenta de altura,
Que, como não tem tido até hoje procura,
Decidimos vender, para liquidação,
A retalho. É de graça: o kilo a meio tostão.
O publico achará sempre neste bazar
De qualquer santo, ainda o mais particular,
Um esqueleto ou dois continuamente á venda.
Desejando porção, fazem-se de encommenda.
Desconto extraordinario em transações por grosso.
Garante-se o fabrico e a solidez do osso
Que empregamos. A todo o esqueleto montado
Nesta casa vai junto, e em forma, um atestado
Escripto sobre a pel e pela propria mão
Do proprio santo, a quem a carcassa em questão
Pertencera, e que diz:;Eu juro á fè de Deus
Que estes ossos, tal qual estão, eram os meus.;
Aviso: é bom comprar peças sobrecellentes:
Pelo menos um sacro, um nariz e alguns dentes.
Encontram-se tambem avulso qualquer dellas
Coccixs, peroneus, omoplatas, costellas.
Tibias, tarsos, enfim tudo que uma alma pia
Possa achar num manual christão de osteologia.
Em dedos do Destino ha um soberbo exemplar:
É o mesmo que escreveu outrora a Balthasar
[106] No salão do festim a tragica sentença,
Dá-se por dez tostões essa caneta immensa
Do Destino ha tambem o olho verdadeiro,
Em vidro ou em cristal, por duzia ou por milheiro,
Negros, verdes, azues, obra muito barata,
Engastado em oiro, em nickel ou em lata.
E hoje a grande moda, e são dum bello effeito
Para botões de punho e alfinetes de peito.
Ha emfim mais de dez milhões de toneladas,
De craneos sem valor, e de antigas ossadas,
Que o caruncho roeu e converteu em cisco,
Como são vinte mil braços de S. Francisco,
Et cetra... Esse calcareo, (inutil nesta casa,)
Vende-se para esterco a trez vintens a raza.
Vera-cruz. Qualidade esplendida, extra-fina
Authentica; a melhor que vem da Palestina.
Em pó, em serradura, em lascas, aos boccados,
E posta em obra;desde a cama de casados,
Desde o piano dErard ou da credencia até
Ao baculo do bispo e ao steeck do crevé.
Trabalhada a primor em mil objectos varios:
Em facas de cortar papel ou em rosarios,
Em imagens do papa ou em boquilhas, em
Cabides, castiçaes, prezepes de Bethlem,
Bandejas para chá, agnus-Dei, cruxifixos,
Lavatorios, etc. Ao rabais. Preços fixos.
Nos nossos armazens com serras a vapor
Vendemol-a igualmente, a cruz do Redemptor,
Em ripas; em pranchões e em traves collossaes
[107]Para marcenaria e construcções navaes.
..................................................................
..................................................................
Como hoje o negocio está muito bicudo,
Trespassa-se o armazem do Calvario com tudo
Que tem dentro. Escrever para o nosso bazar,
Largo dos Intrujões, 5, 1.º andar.


GUERRA JUNQUEIRO, A Velhice do Padre Eterno,  Editora
Livraria Minerva, Lisboa.

Imagem: Cartão postal, 1900. Arquivo municipal da cidade do Porto. Fonte: Wikipedia Commons.

Il pleut doucement sur la ville

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits !
Pour un coeur qui s'ennuie
Ô le chant de la pluie !

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! Nulle trahison ?...
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !

ARTHUR RIMBAUD

O Pó Doméstico

"Tirante o pó doméstico, que se aproveita das ausências das famílias para docemente se pôr a embaciar a superfície dos móveis, diga-se a propósito que são essas as únicas ocasiões que ele tem parar e descansar, sem agitações de espanador ou de aspirador, sem correrias de crianças que desencadeiam turbilhões atmosféricos à passagem, a casa estava limpa, e desarrumação era só a esperada quando se teve de sair precipitadamente."

Saramago, Ensaio sobre a cegueira.

O sentido da falta de sentido

"Eu estava vendo o que só teria sentido mais tarde - quero dizer, só mais tarde teria uma profunda falta de sentido. Só depois é que eu ia entender: o que parece falta de sentido - é o sentido. Todo momento de “falta de sentido” é exatamente a assustadora certeza de que ali há o sentido, e que não somente eu não alcanço, como não quero porque não tenho garantias. A falta de sentido só iria me assaltar mais tarde. Tomar consciência da falta de um sentido teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido? Fora a minha participação."

Clarice Lispector, em A paixão segundo GH

Imaginação

Eu acredito, sim, nos Mestres do Imaginário. O mestrado da imaginação é essencial à vida, ao menos àquela vida que se quer vivida em sua quintessencialidade. E eu creio que a quintessencialidade da vida se chama imaginação. Porque o que é imaginado deve ser percebido, de certo modo que eu não sei como explicar. É certo que o dado sensível, — seja ele a luz, seja o som, seja mesmo as doçuras e as amarguras —,  consiste em matéria da percepção. Mas... e a imagem? E o imaginado? Não é ele também um real? Não é construído a partir do que já foi percebido, e não é por isso percebido também? Eu não sei. Mas eu penso. Eu imagino, e minha imaginação é toda penetrada de razões. E essas elucubrações todas, enfim, fazem parte das ricas inutilidades nas quais vale pena investir o meu precioso tempo: minhas próprias banalidades. Essenciais.

Pontes

As pontes fazem sentido. Elas ligam pontos, criam espaços que, sem elas, não seriam jamais percorridos. Pelas pontes se foge, pelas pontes se chega. Seja para chegar, seja para ir embora, as pontes são servis em sua natureza de não lugares.Não lugares, sim, pois por elas se passamos sem nos deter. E como são passagem apenas, não acumulam memórias... exceto quando... quando nos atiramos de cima delas rumo ao nada, ou quando são lindas, atraentes, vistosas, turísticas. Pontes me encantam, por alguma razão que eu desconheço.