Mil Marias, Ave. Amorosas mães cujo manto encobre e protege. De onde esses mitos femininos que povoam as coletividades tão regular e insistentemente? De onde essa necessidade de preservar a ideia de um feminino fértil, que concebe e gesta. Receptiva de todas as inconsciências, ela transmuta desejos inconfessados de proteção. O grande útero acolhedor que guarda e preserva persiste sempre como figura talvez maior dentre as que povoam o universo simbólico.
Leio de tudo. Dos clássicos e acadêmicos até almanaques populares e bulas de remédio. Excluindo revistas em quadrinhos, devoro qualquer tipo de literatura, mesmo aquela vista como dejeto cultural. Certamente já li e escrevi muita coisa, traduzi outras tantas, e meus arquivos estão cheios de traças que vieram das alturas do Himalaia. Este blog, então, vai ser o canal de saberes fragmentados, oficiais e oficiosos, que os Mestres do Imaginário oferecem a nossa indiscrição.
O Meu Alquimista
Personagem de mil faces. Seria ele um bastardo indesejável que se descartara no mundo? Ou seria apenas um homem cuja fantasia extrapolara os limites do real? Mas os limites são do real ou, ao contrário, são nossos? Como saber o que o real não nos entrega? E até que ponto todo chumbo não tem de ouro o que o ouro tem de chumbo? Assim o sentido dessas palavras desconexas que você encontra, ou não. E com a vida?
Não é diferente nesse solve e coagula, dias e noites, alegrias e tristezas. Os contrastes que nos polarizam ao aguardo dos mistérios do vir a ser que é sempre, e ainda, nós mesmos.
A Boca do Inferno
Mestre de Catarina de Clèves, A Boca do Inferno, 1440,
Nova York, Pierpont Morgan Library.
ECO, Umberto (org). História da Feiura. Rio de Janeiro: Record, 2017.
Felizes desencontros
Não lamente o que faltou.As ausências se fazem presentes também, consubstanciando-se nesses vazios que colecionamos ao longo da vida.
Porque, sem eles, — os desencontros —, não nos aquerenciamos à solidão.
Porque, sem eles, — os desencontros —, é que recaímos bem aqui, no reduzido estar em si, onde não se escutam as frases feitas, onde os espumantes não borbulham, onde o cardápio é o de sempre.
Porque aqui tanto faz se é Natal ou se é Páscoa, os sinos tocam do mesmo jeito.
É que os Mestres não festejam.
Eles apenas imaginam como devem ser as festas, dosando as alegrais, os tempos, os ventos. Imaginando o que todos querem sentir, providenciando esperanças, saúde, paz, tranquilidades.
Os Mestres apenas disponibilizam a refinada morfina dos perdões e dos esquecimentos, o brilho dos reflexos sempre fugidios e ilusórios.
Os Mestres estão sempre sós, exatamente como qualquer um de nós. A diferença é que eles sabem disso.
Mais nada.
Oração
Porque faz sentido.
Viver é tão denso às vezes. Domingos enfeitados de sol e chuva. A TV ligada pra ninguém. O dia se indo, e o escuro da sala sob os olhares que me observam das paredes.
Aves Marias, Santos Anjos e, por companhia, a solidão.
Amém
Viver é tão denso às vezes. Domingos enfeitados de sol e chuva. A TV ligada pra ninguém. O dia se indo, e o escuro da sala sob os olhares que me observam das paredes.
Aves Marias, Santos Anjos e, por companhia, a solidão.
Amém
Luar como ingrediente
Considerai, então, que é mister que a claridade lunar incida sobre os demais ingredientes. Pois, se assim não for, permanecerão adormecidos os poderes que devem ser despertos.
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