Faz de conta

Será que só depois que a asa negra da morte passa é que o arco-íris aparece? Mesmo torto, mesmo com as cores desordenadas e confusas. Mesmo assim, não faz mal. Porque é só faz de conta. 
 

Biblioteca dos Mestres do Imaginário


 

“Não temos, em verdade, a pretenção de possuir conhecimentos mais extensos e exactos que os escriptores das lojas sobre a origem da Franc-Maçonaria. Comtudo sejanos permittido dizer, que invocando incessantemente os usos e as doutrinas das instituições e dos mysterios da antiguidade, os authores maçons esperam muito da ignorancia ou da credulidade dos seus leitores.” (GYR, 1865, p. 10)

Nota: conservada a grafia da época. E, a propósito, não creio que sejam apenas os escritores maçônicos os que esperam muito da credulidade ou da ignorância de seus leitores.

Swedenborg por Morel

“Para mim, é suficiente, senhores, deixar-vos entrever minha profunda convicção sobre o perigo do iluminismo e do amor ao maravilhoso inerente à nossa natureza, e sobre as consequências não menos perigosas dessa tendência, por assim dizer, instintiva, do espírito humano, que chega a dar, aos fatos mais justificáveis pela explicação científica das coisas da vida, um cunho sobrenatural.

Eu vos falei inicialmente da América, que parece ser hoje o país preferido de todas as extravagâncias do espírito humano. É lá que parece se concentrar, como núcleo de predileção, o amor ao sobrenaturalismo. Disso sabemos alguma coisa pela epidemia que, a partir desse país, se difundiu para o mundo inteiro e que, entre muitos indivíduos, suscitou, na esfera do sistema nervoso, manifestações próprias a aterrorizar nossos novos Prometeu. Ainda uma vez, a razão humana nada tem a ganhar com esse modo de interpretar os fatos e de buscar a origem deles. A verdade não nos entrega seus segredos nem pela violência nem pela impostura. Se o mundo e as maravilhas que ele encerra são entregues às nossas investigações, nós não chegaremos a compreender tantos fenômenos, a interpretar as leis que o próprio Deus lhes impõe, senão que sob a condição de proceder com calma, maturidade e reflexão. Os progressos do espírito humano dependem da observação metódica dos fatos de ordem científica. Qualquer outro proceder nos expõe corpo e alma à influências da impostura, e , em lugar da verdade que eleva o espírito, que o fecunda e vivifica, não nos entrega senão fantasmas que fazem retroagir a razão e alucinam as inteligências.”

MOREL, Bénédict Augustin. SWEDENBORG : SA VIE, SES ÉCRITS, LEUR INFLUENCE SUR SON SIÈCLE, ou COUP D OEIL SUR LE DÉLIRE RELIGIEUX. Paris : Imprimerie de Alfred Péron, 1859.

Clarice, naturalmente

"Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe."

Clarice Lispector, no livro “Felicidade clandestina”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Fonte: Revista Prosa e Verso e Arte 

Pensamentos de domingo

Pensando em novembro que entra com mortos, com novos mortos, aliás, certamente precisando se adaptar àquilo que alguns insistem em chamar de outra vida. 

Cemitérios

Cemitérios têm uma beleza implícita, inerente a seu contexto. Eles refletem as cidades nas quais se encontram, senão uma parte delas, quando há mais de um. Elaboram-se segundo uma tradição de ordem geral, cuja regra maior é a chamada arte funerária, e também segundo uma concepção local, que corresponde, mais ou menos, a um modelo de moradia elaborada para os que partiram. Passeando por uma cemitério, vemos como foram arrumadas as lápides dos mortos, tarefa da qual se incumbem, de regra, os parentes. Enfeites, flores, coloridos inesperados, por vezes surpresas, como esta da foto, onde a cruz foi enfeitada por obra de insetos que ali construíram sua morada. As palavras se repetem, e reiteram saudades...
 

Um quarto de hora deante da Santissima Virgem

Esse impresso de 1922, Rio de Janeiro, 12 cm x 7,5 cm, dá sentido à oração conhecida como Ave Maria, esclarecendo e explicando a saudação, a graça, o estar com Deus, o abençoado fruto esperado que a torna mãe do próprio Deus, conferindo-lhe a prerrogativa de orar por nós (os pecadores) neste instante (diante dos perigos) como diante da morte.
PDF disponível no meu Scribd, para quem quiser baixar, naturalmente.

Quem foi São Francisco?


Quem foi São Francisco afinal? Historicamente falando, talvez ele não devesse ser identificado à figura do jovem questionador, afinado com a modernidade, com a ecologia, com a globalização, integrando sistemas e redes. A saber se tais questionamentos podem ser formulados com segurança. Nesse diapasão, o livro de Guido Vignelli, publicado em Verona, 2009, pela Fede & Cultura e intitulado SAN FRANCISCO ANTIMODERNO, DIFESA DEL SERAFICO DELLE FALSICAZIONI PROGRESSISTE, com belíssima introdução de Fabio Bernabei: San Francesco: un esempio per gli Italiani di oggi.

Bernabei nos introduz a obra, apresentando-nos um Francisco que teria conseguido harmonizar três características próprias ao espírito italiano: a mística, o amor e a arte combinadas ao senso prático tipicamente romano. Nele encontraríamos equilíbrio espiritual, capacidade de harmonizar realidade com espírito de sacrifício, de doar e de doar-se, espírito artístico, intuição e fantasia. Estariam aí características tipicamente italianas, de sorte que haveria boas razões para que a Itália se tornasse justamente essa terra de santos, sábios, artistas, heróis, exploradores e, — por obra de Deus, afirma—, também a sede do Papado, cumprindo uma missão civilizadora dos povos, inspiradora do Império Cristão.

Após cuidadosa análise da vida desse personagem real, que influi até hoje na Igreja e no mundo, Vignelli, o autor, nos apresenta o movimento franciscano como capaz de mostrar que qualquer um de nós pode almejar à perfeição evangélica, tornar-se religioso, fazendo do coração uma cela, da casa uma ermida, do trabalho um exercício penitencial, do dever uma prática ascética, e tudo sob a máxima: “Pregar em silêncio, edificar servindo, converter obedecendo”. 

Ao homem moderno e em crise, São Francisco representaria um contraponto pelo exemplo de uma vida não independente, mas, ao contrário, completamente dependente de Deus, não livre, mas sob a filial e estrita obediência à Igreja, não arrogante, mas profundamente respeitosa à sociedade e inteiramente dedicada ao serviço do outro. 

De notar, — e reside justamente nisso o questionamento a que o livro se propõe —, que não haveria na vida de Francisco nenhum espaço para um pretenso laicismo comumente atribuído ao santo, nem tampouco espaço para uma santificação do cotidiano, esta última surgida como inovação típica do século XX. Ao contrário, Francisco é resgatado como exemplo de dependência (de Deus), de obediência (à Igreja) e de sacrifício (pelo outro), gestos que não deveriam refletir nem laicidade nem o mundanismo de uma sociedade de consumo, ecumênica e relativista.