Leio de tudo. Dos clássicos e acadêmicos até almanaques populares e bulas de remédio. Excluindo revistas em quadrinhos, devoro qualquer tipo de literatura, mesmo aquela vista como dejeto cultural. Certamente já li e escrevi muita coisa, traduzi outras tantas, e meus arquivos estão cheios de traças que vieram das alturas do Himalaia. Este blog, então, vai ser o canal de saberes fragmentados, oficiais e oficiosos, que os Mestres do Imaginário oferecem a nossa indiscrição.
A Morte e as Águas
“Tudo o que vive surge das águas, como o sol, e para lá
retorna ao anoitecer. Nascido das fontes dos rios e dos mares, o homem, após a
morte, alcança as margens do Estige para realizar a travessia noturna. Seu
desejo é que as águas escuras da morte se tornem águas de vida, que a morte e
suas garras frias sejam útero, assim como o mar, quando engole o sol, confortando-o
em sua profundeza.”
JUNG, Carl Gustav Jung, Wandlungen
und Symbole der Libido, 1912. Trad. it. La libido: simboli e
trasformazioni, Torino: Boringhieri, 1965, in: MORIN, Edgar. L’UOMO E LA MORTE.
Trad. de Riccardo Mazzeo .Trento: Edizioni Centro Studi, 2014, p. 128.
Faz de conta
Biblioteca dos Mestres do Imaginário
“Não temos, em verdade, a pretenção de possuir conhecimentos mais extensos e exactos que os escriptores das lojas sobre a origem da Franc-Maçonaria. Comtudo sejanos permittido dizer, que invocando incessantemente os usos e as doutrinas das instituições e dos mysterios da antiguidade, os authores maçons esperam muito da ignorancia ou da credulidade dos seus leitores.” (GYR, 1865, p. 10)
Nota: conservada a grafia da época. E, a propósito, não creio que sejam apenas os escritores maçônicos os que esperam muito da credulidade ou da ignorância de seus leitores.
Swedenborg por Morel
“Para mim, é suficiente,
senhores, deixar-vos entrever minha profunda convicção sobre o perigo do
iluminismo e do amor ao maravilhoso inerente à nossa natureza, e sobre as
consequências não menos perigosas dessa tendência, por assim dizer, instintiva,
do espírito humano, que chega a dar, aos fatos mais justificáveis pela explicação
científica das coisas da vida, um cunho sobrenatural.
Eu vos falei inicialmente da
América, que parece ser hoje o país preferido de todas as extravagâncias do
espírito humano. É lá que parece se concentrar, como núcleo de predileção, o
amor ao sobrenaturalismo. Disso
sabemos alguma coisa pela epidemia que, a partir desse país, se difundiu para o
mundo inteiro e que, entre muitos indivíduos, suscitou, na esfera do sistema
nervoso, manifestações próprias a aterrorizar nossos novos Prometeu. Ainda uma
vez, a razão humana nada tem a ganhar com esse modo de interpretar os fatos e
de buscar a origem deles. A verdade não nos entrega seus segredos nem pela
violência nem pela impostura. Se o mundo e as maravilhas que ele encerra são
entregues às nossas investigações, nós não chegaremos a compreender tantos
fenômenos, a interpretar as leis que o próprio Deus lhes impõe, senão que sob a
condição de proceder com calma, maturidade e reflexão. Os progressos do
espírito humano dependem da observação metódica dos fatos de ordem científica.
Qualquer outro proceder nos expõe corpo e alma à influências da impostura, e ,
em lugar da verdade que eleva o espírito, que o fecunda e vivifica, não nos
entrega senão fantasmas que fazem retroagir a razão e alucinam as
inteligências.”
MOREL, Bénédict Augustin. SWEDENBORG : SA VIE, SES ÉCRITS, LEUR INFLUENCE SUR SON SIÈCLE, ou COUP D OEIL SUR LE DÉLIRE RELIGIEUX. Paris : Imprimerie de Alfred Péron, 1859.
Clarice, naturalmente
"Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe."
Clarice Lispector, no livro “Felicidade clandestina”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Fonte: Revista Prosa e Verso e Arte










