Sancti Mei

Tenho um lugar em minha casa, uma mesa na qual exponho imagens de vários santos.  Fica logo na entrada, porque já alterei este sítio várias vezes, trocando do quarto para sala e depois do escritório para hall de entrada. Durante algum tempo foram itinerantes. Não que eu seja devota, mas penso que tais imagens transmitem ideias respeitáveis, que nos dão verdadeiras lições. Quem não se encanta com Santo Antônio? Seja por problemas de amores que vão, que vêm, que voltam, revoltam talvez. Quem não gosta de Santo Expedito? Seja, pois, pelo pedido da hora atendido não raro na mesma hora. E São Francisco! Tão meigo, ícone dos pets. Tenho ainda um Santo Onofre que, embora quebrado, continua firme, com uma longa barba e cabelo, vestido de peles e carregando duas bolsas, uma delas, garantiram-me, cheia de boa cachaça. São Bento, então, absolutamente solene, guardião que combate todo o mal que não resiste à cruz que ele ostenta. E quem não deu três pulinhos para São Longuinho? Este, aliás, é uma figura belíssima, que lembra, e muito, o Eremita que o Tarô tornou famoso na carta que leva o número nove. Eles, os meus santos, além de enfeitarem a minha casa, são companheiros silenciosos que oferecem consolo e inspiração nas mais diversas situações da vida. Ao final de cada dia, sinto-me grata por ter presente as ideias que esses guias inspiram, cada um a seu modo. E você? Tem os seus também?

CRÉDITOS: Measured Paces de Kevin MacLeod é licenciada de acordo com a licença Atribuição 4.0 da Creative Commons. https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/  Fonte: http://incompetech.com/music/royalty-free/index.html?isrc=USUAN1100164  Artista: http://incompetech.com/

 


 

Dragões como Pets

Dragões! Coitados. Injustiçados ao longo da história, esses pobres seres alados têm sido descritos de modo terrível e sombrio. Todavia, penso que é época de rever conceitos. Vivemos tempos em que se deve usar e abusar incessantemente da desconstrução de preconceitos, para reavaliar nossos julgamentos. Então, já não é mais do que hora de considerarmos os dragões como potenciais animais de estimação? Afinal, quem nunca desejou uma lagartixa que, simplesmente, cresceu um pouquinho mais do que o esperado?

Na mitologia chinesa, dragões são venerados como criaturas benevolentes, como símbolos de força e de boa sorte. Imagine você com um desses em casa, garantindo sua prosperidade e afastando maus agouros. Seria o equivalente místico de um amuleto ambulante, e quem sabe, um pouco de fogo extra para o churrasco de domingo.

Na tradição ocidental, especialmente na Europa medieval, os dragões são frequentemente retratados como guardiões de tesouros e representantes do caos e da destruição. Suponho, contudo, que toda essa publicidade negativa não passa de um grande mal-entendido. Se um dragão guarda tesouros, não deveríamos considerá-lo como um excelente vigia? E, convenhamos, quem não gostaria de ter um companheiro que pode cuspir fogo para proteger a casa de invasores?

No folclore nórdico, encontramos dragões como Fáfnir, que acumulam riquezas e são derrotados por heróis. No entanto, não seria mais sensato perceber que talvez esses dragões apenas têm uma predileção por economizar? Em tempos de crise econômica, ter um dragão poupador poderia ser uma grande vantagem.

Obras modernas como "O Hobbit", de J.R.R. Tolkien, e "Game of Thrones", de George R.R. Martin, nos apresentam dragões que são, no mínimo, impressionantes. Smaug, com toda sua magnificência, e os dragões de Daenerys, com sua lealdade feroz, nos mostram que essas criaturas podem ser muito mais que meros adversários: podem ser aliados poderosos e, por que não, mascotes leais.

Portanto, é hora de reconsiderarmos nossa relação com os dragões. Eles são mais do que apenas monstros mitológicos. Eles são uma extensão da nossa própria imaginação e criatividade. Talvez, ao invés de temê-los, devêssemos abraçar a ideia de que os dragões podem ser os últimos e mais exóticos candidatos a animais de estimação. Eu tenho o meu e, como vocês podem ver, ele ainda não cresceu muito. Afinal, como resistir ao charme de uma lagartixa que soube tão bem em como se destacar em meio à multidão?

 

Unicórnios


Ah, os unicórnios! Essas misteriosas criaturas que habitam a imprecisa interseção que os coloca entre a mitologia e o devaneio infantil. Um chifre singular ostentado por um lindo cavalo, algo um tanto quanto incômodo, é verdade, mas nem por isso menos fascinante. Sinceramente, eu diria que não se deve subestimar o valor de um bom acessório, nem que seja um chifre.

Os registros mais antigos sobre unicórnios nos vêm da mitologia grega, onde historiadores respeitáveis como Ctesias e Plínio, o Velho, se dedicaram a descrevê-los com a mesma seriedade com que tratavam a geografia e a astronomia. Evidências físicas, sabidamente, são dispensáveis, quando se conta com a prodigalidade da imaginação. O unicórnio grego era nada menos do que um cavalo, todavia, aprimorado.

Na Idade Média, tornaram-se símbolos de pureza e graça e foram, muitas vezes, associados à Virgem Maria. Afinal, há uma refinada ironia implícita na ideia de que apenas uma virgem poderia capturar um unicórnio, credencial bastante curiosa a ser exigida de um caçador, convenhamos.

Lewis Carroll, em sua obra "Alice no País das Maravilhas", e C.S. Lewis, em "As Crônicas de Nárnia", também deram aos unicórnios um espaço de destaque em suas narrativas fantásticas, elevando-os à condição de criaturas majestosas, ainda que mais próximas do tipo de mascote literário de preferência a um ser místico. "Harry Potter" atribui poderosas propriedades mágicas às suas lágrimas e ao seu sangue, algo pouco conveniente para uma criatura que já carrega o fardo de um chifre pouquíssimo discreto. Muito mais do que cavalos dotados de um peculiar ornamento craniano, eles são tributários de nossa imaginação e de sua infinita capacidade de misturar o mundano com o mágico. De qualquer forma, você não gostaria de ter um unicórnio? É claro que sim! Eu mesma guardo com carinho este que ganhei de presente de uma querida amiga. Afinal, até mesmo um chifre pode ser chique, desde que bem carregado.