Leio de tudo. Dos clássicos e acadêmicos até almanaques populares e bulas de remédio. Excluindo revistas em quadrinhos, devoro qualquer tipo de literatura, mesmo aquela vista como dejeto cultural. Certamente já li e escrevi muita coisa, traduzi outras tantas, e meus arquivos estão cheios de traças que vieram das alturas do Himalaia. Este blog, então, vai ser o canal de saberes fragmentados, oficiais e oficiosos, que os Mestres do Imaginário oferecem a nossa indiscrição.
A Grande Arte
Aquele que não entende senão palavras repete sua lição à maneira de um papagaio, sem fazer ação de pensador autônomo. Posto em presença de um signo mudo, o adepto empenha-se em fazê-lo falar: pensar por si mesmo é a grande arte dos Iniciados.
Oswald Wirth
Oswald Wirth
Responso de Santo Antônio
Se milagres desejais,
Contra os males e o demônio,
Recorrei a Santo Antônio
E não falhareis jamais.
Pela sua intercessão,
Foge o erro, a peste e a morte,
Quem é fraco fica forte,
Mesmo o enfermo fica são.
Recupera-se o perdido,
Cede o mar embravecido,
no maior dos furacões.
Penas mil e humanos ais,
Se moderam, se retiram,
Isso digam os que viram
Os paduanos e outros mais.
Contra os males e o demônio,
Recorrei a Santo Antônio
E não falhareis jamais.
Pela sua intercessão,
Foge o erro, a peste e a morte,
Quem é fraco fica forte,
Mesmo o enfermo fica são.
Recupera-se o perdido,
Cede o mar embravecido,
no maior dos furacões.
Penas mil e humanos ais,
Se moderam, se retiram,
Isso digam os que viram
Os paduanos e outros mais.
Eu aprendi o RESPONSO de Santo Antônio com minha mãe, quando eu ainda era criança, nesta versão. Vinha escrito em livrinho já muito antigo, que já perdera as capas, papel amarelo, soltando páginas. Até hoje me lembro dele assim, no estilo clássico português. Era para decorar e rezar sempre que necessário, para recuperar objetos perdidos, ter saúde, calma, serenidade, enfim, para qualquer coisa urgente. Cresci ouvindo dizer que é uma oração milagrosa.
A Arte de Pensar
Para distinguir-se da multidão que permanece supérflua em sua maneira de pensar, convém aprender a meditar profundamente. Para esse efeito, o isolamento silencioso impõe-se, porque nós não podemos seguir o curso de nossos pensamentos, senão evitando aquilo que nos distrai; retirar-se para a solidão foi, pois, outrora, o primeiro ato do aspirante à sabedoria. Fugir do tumulto dos vivos para refugiar-se perto dos mortos, a fim de inspirar-se naquilo que eles sabem melhor do que nós, tal nos parece haver sido o instinto dos mais antigos adeptos da Arte de Pensar.
A deusa da Vida, a grande Ishtar, instruía os sábios por seu exemplo, quando, voltando seu rosto na direção do país sem retorno, ela renunciava aos esplendores do mundo exterior para penetrar nas trevas de Aralou.
É preciso descer a si mesmo para iniciar-se. Os heróis mitológicos, cujas explorações subterrâneas nos são poeticamente contadas, foram Iniciados vitoriosos do ciclo das provas inelutáveis. Na realidade, o Inferno dos filósofos não é outro senão o mundo interior que trazemos em nós. É o interior da terra, ao qual se reporta o preceito alquímico: Visita Interioria Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem, frase cujas palavras têm por inicial as sete letras de VITRIOL. Esta substância devia levar o Hermetista a visitar seu próprio interior, a fim de aí descobrir, em retificando, a Pedra escondida dos Sábios. Trata-se de uma pedra cúbica que se forma no centro do ser pensante, quando ele toma consciência da certeza fundamental em torno da qual se realizará a cristalização construtiva do Templo de suas convicções.
O. W.
Os Mistérios da Arte Real
A deusa da Vida, a grande Ishtar, instruía os sábios por seu exemplo, quando, voltando seu rosto na direção do país sem retorno, ela renunciava aos esplendores do mundo exterior para penetrar nas trevas de Aralou.
É preciso descer a si mesmo para iniciar-se. Os heróis mitológicos, cujas explorações subterrâneas nos são poeticamente contadas, foram Iniciados vitoriosos do ciclo das provas inelutáveis. Na realidade, o Inferno dos filósofos não é outro senão o mundo interior que trazemos em nós. É o interior da terra, ao qual se reporta o preceito alquímico: Visita Interioria Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem, frase cujas palavras têm por inicial as sete letras de VITRIOL. Esta substância devia levar o Hermetista a visitar seu próprio interior, a fim de aí descobrir, em retificando, a Pedra escondida dos Sábios. Trata-se de uma pedra cúbica que se forma no centro do ser pensante, quando ele toma consciência da certeza fundamental em torno da qual se realizará a cristalização construtiva do Templo de suas convicções.
O. W.
Os Mistérios da Arte Real
Pêndulo
A vida balança como um pêndulo entre o sofrimento e o tédio. Depois de o homem ter transformado todas as dores e tormentos na concepção do inferno, nada mais restava para o céu a não ser o enfado.
Schopenhauer
Viver
Segundo uma opinião corrente neste mundo, a vida é curta e, de minha parte, eu a encontro, ao contrário, extremamente longa para muitíssimas pessoas. Quantos encontraremos que não se queixem da brevidade da vida e que não tenham feito, sem embargo, outra coisa senão entediar-se ao longo de toda existência? Sim, é demasiado curta a vida para quem pensa, e demasiado longa para quem não pensa. O tempo voa quando trabalhamos e transcorre lentamente quando não fazemos nada. Sem ação, a vida em nada se diferencia da morte, e viver na ociosidade não é viver, mas apenas vegetar. Viver somente para si mesmo é viver pela metade. Interessar-se pela felicidade universal dos homens e trabalhar para isso é viver de verdade e ter a sensação de viver. Quão poucos são os que vivem neste mundo, e quantos são os que vegetam em vez de viver! Os ricos, orgulhosos de sua opulência e embriagados pelo incenso que lhes prodigalizam seus aduladores, não podem compreender o que é a vida. Os pobres, oprimidos pelo peso da miséria, humilhados pelo desprezo dos demais, tampouco a podem entender. Aqueles que se encontram em meio a grandes e pequenos, ricos e pobres, preocupando-se, a maior parte do tempo, apenas com aquilo que lhes incumbe, não a sentem tampouco. Quem vive, pois, em lugar de vegetar? Os filósofos. Sim, os filósofos unicamente compreendem o que é a vida, conhecem as oportunidades que apresenta e sabem aproveitá-las. Não vivem apenas para eles mesmos, senão que vivem, ademais, para os outros e, seguindo o exemplo do excelso Hermes, de quem têm por glória serem e chamarem-se discípulos, tão apenas vivem para fazer bem à sociedade humana. Pouco lhes importa que os adulem ou que os ameacem os poderosos da terra, que seus parentes os queiram ou os persigam, que seus amigos os sustentem ou os abandonem; nem por isso deixam de ser filósofos, ou seja, amantes da sabedoria. A vida tem, para eles, tanto mais atrativos quanto mais tempo lhes deixa para fazer o bem a quem o mereça; sua benevolência dirige-se àqueles que vivem para trabalhar, nunca àqueles que trabalham para viver.
A Magna Obra sem Véus para os Filhos da Luz, Cap.V, 1775.
OW
A Magna Obra sem Véus para os Filhos da Luz, Cap.V, 1775.
OW
A Tradição não tem dono...
Em uma civilização tradicional, é quase inconcebível que um homem pretenda reivindicar a propriedade de uma ideia, e, em todo caso, se ele o faz, ele se furta por aí mesmo de todo o crédito e de toda a autoridade, porque ele a reduz assim a não ser senão uma espécie de fantasia sem nenhum alcance real. Se uma ideia é verdadeira, ela pertence igualmente a todos aqueles que são capazes de compreendê-la; se ela é falsa, não há por que gloriar-se de havê-la inventado. Uma ideia verdadeira não pode ser “nova”, porque a verdade não é um produto do espírito humano. Ela existe independentemente de nós, e temos apenas de conhecê-la. Fora desse conhecimento, não pode haver senão o erro. Mas, no fundo, os modernos se preocupam com a verdade, e sabem mesmo o que ela é?GUENON, René. La crise du monde moderne, Ed. Gallimard, 1946.
De 1915
Opúsculo editado em 1915 pelo Grande Oriente do Rio Grande do Sul confederado ao Grande Oriente do Brasil. Encontrei nele uma passagem muito interessante que reproduzo a seguir, ainda mais porque suponho não me encontrar exatamente no que o autor chama de "o lado da luz"...A tolerância é a benevolência que oferecemos às pessoas que não podem pensar como nós. Quando se julga a sua ciência mais interessante que o seu caráter, as suas idéias lhe são admitidas em consideração à sua elevação intelectual.
É que essa deferência para com as idéias contrárias às nossas também procedem de um saber mais extenso. O homem instruído sabe que é difícil assenhorar-se da verdade e sabe também que os progressos conquistados pela humanidade são os resultados de se ter dirigido com tolerância os elementos contraditórios que se mantinham em luta, e concluir por aproximá-los até ficaram compreendidos sob esse lema: Não se tenha aversão para com aqueles que não estão do lado da luz!
Ritual de 1898
É uma das minhas raridades. Foi editado pelo Supremo Conselho do Brazil, para o REAA. O exemplar é do Grau de Aprendiz e tem a assinatura do Grande Secretário Geral da Ordem à época, o que ressalva sua autenticidade.― Entre vós e mim existe alguma coisa?
― Sim, um culto.
― Que culto é esse?
― É segredo.
― Que segredo é esse?
― A Maçonaria.
― Sois maçom?
― Os meus IIr.’. por tal me reconhecem.
― O que é preciso para ser maçom?
― Principiei a preparar-me pelo coração.
Três Anos
Pode parecer estranho que esta maturidade seja atingida desde a idade de três anos, que é aquela dos Aprendizes. Esta idade da infância iniciática marca uma fase muito avançada em relação à vida profana; o Iniciado de três anos deve ter penetrado os mistérios do Ternário: ele compreende que tudo é triplo em nossa concepção, mas um em sua essência metafísica.
O. Wirth
O. Wirth
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