"Tirante o pó doméstico, que se aproveita das ausências das famílias para docemente se pôr a embaciar a superfície dos móveis, diga-se a propósito que
são essas as únicas ocasiões que ele tem parar e descansar, sem agitações de
espanador ou de aspirador, sem correrias de crianças que desencadeiam
turbilhões atmosféricos à passagem, a casa estava limpa, e desarrumação era só a esperada quando se teve de sair precipitadamente."
Saramago, Ensaio sobre a cegueira.
Leio de tudo. Dos clássicos e acadêmicos até almanaques populares e bulas de remédio. Excluindo revistas em quadrinhos, devoro qualquer tipo de literatura, mesmo aquela vista como dejeto cultural. Certamente já li e escrevi muita coisa, traduzi outras tantas, e meus arquivos estão cheios de traças que vieram das alturas do Himalaia. Este blog, então, vai ser o canal de saberes fragmentados, oficiais e oficiosos, que os Mestres do Imaginário oferecem a nossa indiscrição.
O sentido da falta de sentido
"Eu
estava vendo o que só teria sentido mais tarde - quero dizer,
só mais tarde teria uma profunda falta de sentido. Só depois é
que eu ia entender: o que parece falta de sentido - é o sentido. Todo
momento de “falta de sentido” é exatamente a assustadora certeza
de que ali há o sentido, e que não somente eu não alcanço, como
não quero porque não tenho garantias. A falta de sentido só iria
me assaltar mais tarde. Tomar consciência da falta de um sentido
teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido? Fora
a minha participação."
Clarice Lispector, em A paixão segundo GH
Imaginação
Pontes
As pontes fazem sentido. Elas ligam pontos, criam espaços que, sem elas, não seriam jamais percorridos. Pelas pontes se foge, pelas pontes se chega. Seja para chegar, seja para ir embora, as pontes são servis em sua natureza de não lugares.Não lugares, sim, pois por elas se passamos sem nos deter. E como são passagem apenas, não acumulam memórias... exceto quando... quando nos atiramos de cima delas rumo ao nada, ou quando são lindas, atraentes, vistosas, turísticas. Pontes me encantam, por alguma razão que eu desconheço.
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