O Pó Doméstico

"Tirante o pó doméstico, que se aproveita das ausências das famílias para docemente se pôr a embaciar a superfície dos móveis, diga-se a propósito que são essas as únicas ocasiões que ele tem parar e descansar, sem agitações de espanador ou de aspirador, sem correrias de crianças que desencadeiam turbilhões atmosféricos à passagem, a casa estava limpa, e desarrumação era só a esperada quando se teve de sair precipitadamente."

Saramago, Ensaio sobre a cegueira.

O sentido da falta de sentido

"Eu estava vendo o que só teria sentido mais tarde - quero dizer, só mais tarde teria uma profunda falta de sentido. Só depois é que eu ia entender: o que parece falta de sentido - é o sentido. Todo momento de “falta de sentido” é exatamente a assustadora certeza de que ali há o sentido, e que não somente eu não alcanço, como não quero porque não tenho garantias. A falta de sentido só iria me assaltar mais tarde. Tomar consciência da falta de um sentido teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido? Fora a minha participação."

Clarice Lispector, em A paixão segundo GH

Imaginação

Eu acredito, sim, nos Mestres do Imaginário. O mestrado da imaginação é essencial à vida, ao menos àquela vida que se quer vivida em sua quintessencialidade. E eu creio que a quintessencialidade da vida se chama imaginação. Porque o que é imaginado deve ser percebido, de certo modo que eu não sei como explicar. É certo que o dado sensível, — seja ele a luz, seja o som, seja mesmo as doçuras e as amarguras —,  consiste em matéria da percepção. Mas... e a imagem? E o imaginado? Não é ele também um real? Não é construído a partir do que já foi percebido, e não é por isso percebido também? Eu não sei. Mas eu penso. Eu imagino, e minha imaginação é toda penetrada de razões. E essas elucubrações todas, enfim, fazem parte das ricas inutilidades nas quais vale pena investir o meu precioso tempo: minhas próprias banalidades. Essenciais.

Pontes

As pontes fazem sentido. Elas ligam pontos, criam espaços que, sem elas, não seriam jamais percorridos. Pelas pontes se foge, pelas pontes se chega. Seja para chegar, seja para ir embora, as pontes são servis em sua natureza de não lugares.Não lugares, sim, pois por elas se passamos sem nos deter. E como são passagem apenas, não acumulam memórias... exceto quando... quando nos atiramos de cima delas rumo ao nada, ou quando são lindas, atraentes, vistosas, turísticas. Pontes me encantam, por alguma razão que eu desconheço.