Leio de tudo. Dos clássicos e acadêmicos até almanaques populares e bulas de remédio. Excluindo revistas em quadrinhos, devoro qualquer tipo de literatura, mesmo aquela vista como dejeto cultural. Certamente já li e escrevi muita coisa, traduzi outras tantas, e meus arquivos estão cheios de traças que vieram das alturas do Himalaia. Este blog, então, vai ser o canal de saberes fragmentados, oficiais e oficiosos, que os Mestres do Imaginário oferecem a nossa indiscrição.
Inspiração
Inspiração é um pouco a própria vida. Ao menos a parte dela que pode valer a pena. Porque só a inspiração pode transformar pedra em arte, em ser que olha, extasia-se, respira, vive, enfim.
Larvas Astrais
Ouvi por aí que há larvas astrais. Então, por conta da imaginação, que é quase tudo, dei-me ao trabalho de pensar em como seriam elas. Talvez se escondessem, pensei. Talvez permanecessem encapsuladas antes de eclodirem. Talvez fossem sensíveis à luz. Talvez fossem cinzentas, ou lindamente coloridas. Como saber? Penso que nada disso faz o menor sentido, mas sei também que pouco importam os sentidos quando se navega no oceano imaginário, onde a impossibilidade só é limitada pela própria imaginação, ou pela falta dela. Dessa sorte, decidi que as larvas podem ser assim, bem como desenhei e depois pintei. Por que não? Aconchegadas em si próprias, na paz do azul mais puro, sonhando com uma existência que ainda não conhece limite algum. Larvas. Sei... Bobagens dos místicos. Pode ser. Mas nem por isso elas inspiram menos a minha imaginação. Ainda mais hoje. Ainda mais em dia de Carnaval. Eu,hein?Templos
A realidade do Templo pode se traduzir no imaginário com não menor riqueza de detalhes. Antes, a estes últimos, acrescenta-se toda riqueza de uma dada subjetividade.
Neste caso, o Templo é aquele da artista que o desenhou com seus traços firmes, suas cores fortes, decididamente.
Há um relógio e uma cruz, símbolos que dialogam na chamada dos fiéis. Há escadas, rumo ao alto. Há flores, porque a natureza é obra, que se rejubila da própria criação perante o seu criador.
Mas é sobretudo na perspectiva, mais exatamente na falta dela, que a artista mostra sua superação em relação ao real. Porque o que sentimos é, talvez, mais confiável do que aquilo que percebemos.
Mais sobre a artista.
Neste caso, o Templo é aquele da artista que o desenhou com seus traços firmes, suas cores fortes, decididamente.
Há um relógio e uma cruz, símbolos que dialogam na chamada dos fiéis. Há escadas, rumo ao alto. Há flores, porque a natureza é obra, que se rejubila da própria criação perante o seu criador.
Mas é sobretudo na perspectiva, mais exatamente na falta dela, que a artista mostra sua superação em relação ao real. Porque o que sentimos é, talvez, mais confiável do que aquilo que percebemos.
Mais sobre a artista.
Pelicano Eucarístico
Na simbologia da Igreja Católica, representa a eucaristia, traduzindo a doação do próprio sangue de Cristo face à remissão dos pecados. A ave, segundo a lenda, oferece o próprio peito às bicadas dos filhotes, na falta de peixes, seu principal alimento.
Águas lunares
O que dizer das águas lunares? Como sabê-las? Belas águas e luas são aquelas que habitam a imaginação dos homens, instigados, há milênios, a decifrar coisas do céu e coisas da terra. Água e Lua, provocativas e cambiantes, encantam e fascinam a humanidade desde tempos que refogem ao alcance de nossas memórias. E ainda que nossa humilde Lua não passe de um satélite, corpo celeste empobrecido de grandeza diante de um universo repleto de infinitos, e ainda que mares e oceanos sejam meramente H2O em sua maior parte, no fundo, no fundo, alguma coisa inerente à nossa humanidade persiste duvidando da razão. Não fosse assim, não festejaríamos tanto essas águas matrizes e mães, purificadores e sacralizadas. Mares e oceanos potencializados pela luz do luar fertilizam a imaginação. Águas lunares. Ciclos eternos encadeando a vida que se renova em cada morte individual, em cada ser que, fatalmente, deixa de existir como si mesmo e, afundando no azul profundo, segue os reflexos incertos que servem de ladrilho ao caminho cuja existência é tão teimosamente afirmada. Confesso que ouço encantada toda essa poesia, mas que nada sei. O que importa mesmo é que os homens continuem a acreditar, a imaginar, a terem neles a esperança que os Mestres já não têm mais.
Assimilação
O deserto que petrifica, também dissolve e assimila. Ação do vazio sob a luz intensa, direta, que não admite nem mesmo o alívio das sombras. Como representar esse processo doloroso que acontece quando, de roldão, nossa individualidade se relativiza, dissolve e é, enfim, passivamente assimilada? Perder-se de si é expor-se a esse processo. Em que pese o espaço do si mesmo se dimensione de mil maneiras e não corresponda sempre exatamente àquilo que se entende como zona de conforto, ainda assim, é ali o lar do eu de cada um, eixo em torno do qual gravitamos quando tudo o mais é não eu. Existir é contrapor-se ao mundo. Existir é conhecer a dor de uma consciência que só se assimila pela entrega consciente: pelo arcano sacrificial.
Da lisonja & da Vaidade
Verdade que nem sempre há sinceridade nas críticas. Muitas têm por objetivo a desqualificação, seja da criação, seja do criador. Mas a lisonja, os elogios demorados, todo aquele mel que envolve as palavras... Ah, não vale a pena acreditar nisso.
Por outro lado, vale a pena observar de quem parte a lisonja, não raro uma habilidade que, bem manejada, leva muita gente muito longe.
Investir na arte de lisonjear seguramente tem retorno mais rápido e lucrativo. Aliás, há mestres nisso, não tanto pela própria competência quanto por nossa infeliz tendência a acreditarmos em tudo que nos valoriza. No fundo, no fundo, a velha vaidade, vaidade, sempre a vaidade.
Por outro lado, vale a pena observar de quem parte a lisonja, não raro uma habilidade que, bem manejada, leva muita gente muito longe.
Investir na arte de lisonjear seguramente tem retorno mais rápido e lucrativo. Aliás, há mestres nisso, não tanto pela própria competência quanto por nossa infeliz tendência a acreditarmos em tudo que nos valoriza. No fundo, no fundo, a velha vaidade, vaidade, sempre a vaidade.
Íncubos e Súcubos
Da biblioteca dos Mestres do Imaginário, a obra na qual Sinistrari desenvolve a originalíssima teoria segundo a qual haveria animais racionais íncubos e súcubos, dotados, como os homens, e corpo e de alma e igualmente redimidos por Jesus Cristo e passíveis de salvação e danação.
Amorosas Mães
Mil Marias, Ave. Amorosas mães cujo manto encobre e protege. De onde esses mitos femininos que povoam as coletividades tão regular e insistentemente? De onde essa necessidade de preservar a ideia de um feminino fértil, que concebe e gesta. Receptiva de todas as inconsciências, ela transmuta desejos inconfessados de proteção. O grande útero acolhedor que guarda e preserva persiste sempre como figura talvez maior dentre as que povoam o universo simbólico.
O Meu Alquimista
Personagem de mil faces. Seria ele um bastardo indesejável que se descartara no mundo? Ou seria apenas um homem cuja fantasia extrapolara os limites do real? Mas os limites são do real ou, ao contrário, são nossos? Como saber o que o real não nos entrega? E até que ponto todo chumbo não tem de ouro o que o ouro tem de chumbo? Assim o sentido dessas palavras desconexas que você encontra, ou não. E com a vida?
Não é diferente nesse solve e coagula, dias e noites, alegrias e tristezas. Os contrastes que nos polarizam ao aguardo dos mistérios do vir a ser que é sempre, e ainda, nós mesmos.
A Boca do Inferno
Mestre de Catarina de Clèves, A Boca do Inferno, 1440,
Nova York, Pierpont Morgan Library.
ECO, Umberto (org). História da Feiura. Rio de Janeiro: Record, 2017.
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