"O característico do momento atual é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito da vulgaridade e o impõem onde queira."
ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. Trad. J. Catoira e Major Cláudio Barbosa. São Paulo: Edições e Publicações Brasil Ltda, 1933, p. 15.
Imagem: Ortega y Gasset em fotografia feita para publicação pela imprensa na década de 1920. Fonte: Creative Commons
Leio de tudo. Dos clássicos e acadêmicos até almanaques populares e bulas de remédio. Excluindo revistas em quadrinhos, devoro qualquer tipo de literatura, mesmo aquela vista como dejeto cultural. Certamente já li e escrevi muita coisa, traduzi outras tantas, e meus arquivos estão cheios de traças que vieram das alturas do Himalaia. Este blog, então, vai ser o canal de saberes fragmentados, oficiais e oficiosos, que os Mestres do Imaginário oferecem a nossa indiscrição.
Ode ao bode
Isso lhe diz alguma coisa? Se você quiser de falar de
tragédia, no sentido teatral, sim. A palavra, que vem do grego (tragos: bode; oidé > ode: canção) e significa “ode ou canção ao bode”, animal do deus Dionísio, talvez a mais típica das divindades gregas,
fundador de quase todas as religiões e anterior mesmo à Hélade. Dotado pelos céus
de uma constituição robusta, Dionísio é o patrono absoluto dos prazeres e das
delícias deste mundo. Ligado ao culto da videira, ele é célebre por suas festas
anuais nas quais, inicialmente, os inimigos eram canibalizados. Depois, os costumes
foram suavizados, a ponto de os gregos conceberam horror à matança de seus
semelhantes, até porque o mesmo efeito podia ser obtido bebendo o vinho.
Fonte: VAN LOON, Hendrik Willem. A artes. Porto Alegre, Editora Globo, 1958.
Imagem: Baco, por Goya, 1778.
Reflexão
“Por que o infinito existe, se não podemos atingi-lo? ―
perguntava-se mestre Bernando. Qual é o sentido dessa grandeza ilimitada em
torno e nós, em torno da vida, se somos como prisioneiros impotentes e a vida
permanece confinada em si! Por que este incomensurável? Por que essas imensidades
cercando nosso vale estreito, nosso minúsculo destino? Somos por isso mais
felizes? Não me parece. Parece o contrário, concluía ele.”
LAGERKVIST, Pär. Le nain. Paris: Stock, 1946, p. 56.
I Ching
O milenar livro chinês das transmutações reflete a polaridade
das coisas. Dele resulta uma análise da realidade orientada pelo
antagonismo que se encontraria em certos domínios da existência: o bem e o mal,
o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, beleza e feiura, etc. Todavia, esses
seres, coisas, fenômenos, enfim, estariam profundamente ligados entre si, o que
explicaria a facilidade com que migram de um polo a outro. Porque,
essencialmente, apenas a mudança seria real, o que faria da mutação, invariável
por excelência, o próprio caráter do mundo. Todos os caminhos seriam fluidos. De
acordo com Blofeld (1965, p. 45), o texto do I Ching seria, seguramente, bastante anterior
ao taoísmo e ao confucionismo surgidos como tais. Seu texto é atribuído ao Rei
Wên e ao Duque Chou. Não obstante isso, seus comentários seriam confucionistas.
BLOFELD, John. I Ching. O livro das transformações. Rio de Janeiro: Recornd, 1965.
Imagem: os 64 hexagramas sequenciais do Rei Wên.
Fonte: Creative Commons.
Sobre ser anjo
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| Cúpula: anjos combatendo demônios. Museu do Vaticano. |
Clarice Lispector
Maldizer para proteger
Isidorus Hispalensis, De summo bono,
manuscrit Latin 12268, 1086-1100.
"Hic est liber Sancti Petri Fossatensis. Si quis eum
furatus fuerit, anathema sit."
"Esse livro pertence a Saint-Pierre des Fossés [hoje
Saint-Maur-des-Fossés]. Se alguém roubá-lo, que ele seja anátema."
No universo cristão, anátema significa uma condenação
enérgica. A palavra tem origem grega: anathema. No caso, tratam-se
de maldições apostas em antigos manuscritos, de reconhecido valor espiritual e
material, com a finalidade de protegê-los de intenções malfazejas, de
apropriações indevidas, de empréstimos de duração ou de roubos.
Origenes, Homiliae in Vetus Testamentum, interpretibus
Hieronymo et Rufino, manuscrit Latin 11615, 1141-1160.
"Quicumque librum istum defraudaverit vel scienter
male tractaverit vel literas deleverit per malitiam suam sit anathema
maranatha, idest dampnatus et a consortio Dei separatus donec Dominus redeat ad
iudicium. Amen."
"Qualquer um que subtraia este livro ou
conscientemente o maltrate, ou apague seu texto por malignidade, que ele seja
anátema em nome de Deus, ou seja, maldito e excluído do povo de Deus até que o
Senhor retorne para o julgamento. Amem."
Fonte: Gallica, BNF.
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